SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A certa altura do filme "Ainda Estou Aqui", Rubens Paiva (Selton Mello) é aconselhado por Fernando Gasparian (Charles Fricks), um dos seus melhores amigos, a deixar o Brasil.

Preocupado com o aumento da repressão depois do AI-5, o empresário havia decidido se mudar para a Inglaterra e tentava convencer Paiva a tomar o mesmo rumo. Mas, como se sabe, o ex-deputado preferiu ficar no Brasil e foi morto pelos órgãos de segurança.

Embora curta, a cena do filme dirigido por Walter Salles desperta a vontade de saber mais sobre Gasparian, figura central na resistência à ditadura militar. Essa imersão pode ser feita agora, com o lançamento de "Um Homem Chamado Opinião", biografia assinada por Márcio Pinheiro.

No livro, o autor gaúcho reencontra a história recente do jornalismo brasileiro e o autoritarismo que sufoca a imprensa, temas presentes em publicações suas como "Rato de Redação: Sig e a História do Pasquim" (2022).

Gasparian formou-se em engenharia no Mackenzie e se tornou um líder empresarial no setor de fiação e tecelagem. Mais adiante, ao trocar São Paulo pelo Rio de Janeiro, passou a comandar a América Fabril, a maior empresa têxtil do país.

A esta altura, consolidava uma visão de mundo descrita no livro por Marcus, um dos seus filhos: "Nem socialista, nem capitalista, mas um nacionalista, sempre com uma postura independente".

A ditadura freou a ascensão do empresário, especialmente a partir de 1967, quando Delfim Netto assumiu a pasta da Fazenda. Ruy Solberg, advogado que trabalhou na América Fabril, indica na biografia as ações do ministro para prejudicar Gasparian.

O empresário decidiu, então, se afastar da companhia e se mudar com a família para Londres, onde passou a dar aulas. Os Gasparian voltaram ao Brasil em 1972, momento-chave porque as principais passagens da biografia acontecem a partir daí. É a fase de Gasparian como editor.

"Sem a porra-louquice do Pasquim e sem o ranço esquerdista e sectário de muitos outros semanários alternativos da época, o Opinião era um jornal sóbrio como Fernando Gasparian, seu dono. Afrontava a ditadura de maneira séria e incisiva, sem fazer deboches ou ironias", escreve Pinheiro sobre o jornal lançado em novembro de 1972.

Contratou como editor-chefe Raimundo Rodrigues Pereira, que tinha passagens por Veja e Realidade. Ambos montaram uma equipe com jornalistas notáveis, como Paulo Francis, Sérgio Augusto e Tárik de Souza. Próximo de intelectuais, Gasparian contou com a colaboração frequente de Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e Otto Maria Carpeaux, entre dezenas de outros.

Nos primeiros meses, as restrições impostas pelo governo foram pontuais. Em abril de 1973, porém, a situação se agravou quando o semanário abordou a morte de Alexandre Vannucchi Leme. Os textos foram pouco além da versão oficial, que citava atropelamento quando, na verdade, o estudante tinha sido assassinado.

Ainda assim, a iniciativa do jornal foi vista como insubordinação -naquele caso, ditavam os militares, o Opinião deveria ter se calado. A partir desse episódio, todos os textos deveriam ser avaliados pela Polícia Federal antes que fossem enviados para a gráfica.

Logo em seguida, a determinação foi descumprida, o que levou Gasparian, Pereira e Tárik a serem detidos por algumas horas.

A censura crescia, a indignação do editor também. Tentou escapar dos cortes das mais diferentes formas, de um apelo ao STF à denúncia na imprensa estrangeira. Pouco adiantou. Quando Vladimir Herzog, que havia trabalhado no Opinião, foi morto no DOI-Codi, o jornal foi proibido de mencionar o fato. Mesmo a versão oficial estava vetada.

Depois de quatro anos e meio, levar o semanário adiante havia se tornado inviável. Das mais de 10.500 páginas escritas pelos colaboradores, apenas 5.796 chegaram aos leitores, pouco mais de 50%, indica o biógrafo.

Um ano depois de lançar o Opinião, Gasparian levou às bancas a revista Argumento, projeto com requinte editorial e gráfico. Com direção de Barbosa Lima Sobrinho, reunia, sobretudo, contribuições de intelectuais.

No segundo número, porém, a PF começou a recolher os exemplares. Como lembra o biógrafo, FHC e Antonio Candido, colaboradores da Argumento, apelaram a ministros do regime para que a revista sobrevivesse. Em vão, durou apenas quatro números.

Em meio às dificuldades do Opinião e da Argumento, Gasparian investiu em outro projeto, a editora Paz e Terra, que publicou autores como Paulo Freire e Eric Hobsbawm. "As Veias Abertas da América Latina", de Eduardo Galeano, foi seu principal best-seller.

Em 1978, Gasparian e sua mulher, Dalva, abriram a livraria Argumento em São Paulo. Um ano depois, nasceu a unidade carioca, que existe até hoje.

Nas décadas seguintes, ele se envolveu na campanha pelas Diretas, foi eleito deputado constituinte pelo PMDB e apoiou a candidatura do amigo FHC à Presidência. Morreu em 2006, aos 76 anos, em decorrência de uma infecção generalizada seguida de parada cardíaca.

O prefácio é assinado pelo escritor e colunista da Folha Marcelo Rubens Paiva, filho de Rubens Paiva. "Seu legado é imenso. Sua obra não tem preço", escreve sobre o tio Fernando, como ele se refere a Gasparian.

Um Homem Chamado Opinião

Preço: R$ 80 (e-book: R$ 60)

Autoria: Márcio Pinheiro

Editora: L&PM (268 págs.)