SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Embora tenha criticado a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar formalmente as facções criminosas brasileiras como terroristas e usado a medida para atacar o adversário Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o presidente Lula (PT) já recorreu à retórica de defender que ações do CV (Comando Vermelho) fossem tratadas como atos de terrorismo e combatidas como tal.
A defesa foi feita em discurso no parlatório do Palácio do Planalto, no dia da posse de seu segundo mandato, em 1º de janeiro de 2007.
"Essa barbaridade que aconteceu no Rio de Janeiro não pode ser tratada como crime comum. Isso é terrorismo e tem que ser combatido com uma política forte e com uma mão forte do Estado brasileiro", disse. "O que aconteceu no Rio de Janeiro foi uma prática terrorista das mais violentas que eu tenho visto neste país e, como tal, tem que ser combatida."
A fala de Lula em 2007 veio em resposta a um episódio de violência ocorrido nos últimos dias de 2006, que deixou 18 mortos (9 civis, 2 policiais e 7 suspeitos, segundo o balanço da Secretaria de Segurança Pública do Rio à época).
Na época, cartazes deixados pelos criminosos atribuíam a ofensiva a uma reação do CV ao "Comando Azul", conjunto de milícias com participação de policiais que disputava territórios com os traficantes da facção. A versão oficial da Secretaria de Segurança, no entanto, apontava que as ordens partiram de líderes presos.
A equiparação das facções criminosas a organizações terroristas é uma bandeira da pré-campanha de Flávio e foi um pedido que o senador afirma ter feito diretamente a Donald Trump, em maio, durante visita à Casa Branca.
O pré-candidato do PL afirma que as facções operam um poder paralelo e que o país não pode abrir mão da ajuda norte-americana para enfrentá-las. Especialistas em segurança pública, contudo, avaliam que a nova classificação pode prejudicar o combate ao tráfico de drogas no Brasil.
Em comunicado do Departamento de Estado, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que CV e PCC (Primeiro Comando da Capital) "comandam milhares de membros e orquestraram ataques brutais contra policiais, funcionários públicos e civis brasileiros" e que "sua influência e redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil".
No entorno de Lula, a decisão foi interpretada como uma tentativa do governo americano de interferir nas eleições brasileiras a favor da oposição bolsonarista. Em nota oficial, a Presidência não citou nomes, mas falou em "traidores" e "falsos patriotas" ? referência interpretada como dirigida à família Bolsonaro. Em discurso no mesmo dia, Lula chamou Flávio de traidor.
No episódio do final de 2006, cabines da Polícia Militar e ônibus de linha foram atingidos. No caso mais grave, um ônibus interestadual com 28 passageiros, que havia saído de Cachoeiro de Itapemirim (ES) com destino a São Paulo, foi interceptado por criminosos ao passar pelo Rio e incendiado. Sete passageiros, sentados ao fundo do veículo, não conseguiram escapar e morreram carbonizados.
Apesar da fala de Lula, o caso não teve tratamento jurídico diferenciado. Marcelo Ricardo Pereira, acusado de chefiar o tráfico de drogas no Morro do Tuiuti, na zona norte do Rio, foi apontado como mandante do ataque e preso por porte ilegal de armas em 2010, mas não chegou a ser denunciado pelo episódio.
Preso novamente em 2017 e condenado por tráfico, ele fugiu em maio de 2024, quando cumpria pena em regime semiaberto, e foi recapturado em janeiro de 2025. A reportagem não conseguiu localizar sua defesa.
A Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou, em nota à Folha, que não houve mudança de entendimento de Lula sobre o tema.
"O terror causado por essas organizações em comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional", disse a nota, afirmando ainda que o governo "não aceitará o uso de medidas arbitrárias vindas do estrangeiro como pretexto para atacar a soberania e a economia nacional".
O texto citou ainda a aprovação recente da Lei Antifacções. "O governo do Brasil conduz o programa 'Brasil contra o Crime Organizado', que combate as facções e milícias desde o seu braço armado nas esquinas até o seu andar de cima", afirma o texto.
Lula está em Évian-les-Bains, na França, onde participa, como convidado do presidente francês, Emmanuel Macron, da cúpula do G7. A viagem ocorre em meio à decisão do governo americano de voltar a sobretaxar produtos brasileiros importados pelos EUA.
Nesta terça-feira (16), em sessão ampliada da cúpula, Lula defendeu que o combate ao crime organizado transnacional seja feito de forma coordenada entre os países, mas com respeito à soberania das nações.
Ao discursar, sem citar diretamente os Estados Unidos, Lula afirmou que o crime organizado "aterroriza comunidades e desvia recursos públicos" e que o enfrentamento ao narcotráfico "não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas".
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