BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após ser abalada pela crise "Dark Horse" e por uma série de embates internos, a pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) definiu uma nova equipe e passou a priorizar acenos para reanimar o apoio da militância bolsonarista.

Segundo auxiliares do pré-candidato, a interação com a base cativa da direita não elimina o empenho em apresentar Flávio com uma identidade moderada, até porque é visto por aliados como um político mais ponderado do que o pai. Mas, nas últimas semanas, o esforço tem sido de ativar o engajamento espontâneo do eleitorado, algo de que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sempre usufruiu.

Ao mesmo tempo, Flávio busca organizar a casa após uma série de baixas em sua equipe, motivadas por disputa de poder e divergência em relação à estratégia eleitoral. Os novos coordenadores de marketing e imprensa esperam usar o período da Copa do Mundo, em que a eleição se torna um assunto secundário, para colocar em operação a nova estrutura e superar entraves políticos, a exemplo da falta de palanque em estados como Minas Gerais.

A avaliação geral é de que a pré-campanha volta a entrar nos trilhos após o abalo provocado pela revelação de áudios e mensagens entre Flávio e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a respeito do financiamento do filme "Dark Horse", em homenagem a Bolsonaro.

Auxiliares de Flávio afirmam que a crise foi controlada e não esperam novos capítulos, ao contrário de boa parte da classe política, que mantém o ceticismo em relação ao senador. Esses auxiliares dizem também que o impacto nas pesquisas foi baixo e é recuperável, principalmente porque Flávio ainda é o adversário de Lula (PT) mais competitivo e deve concentrar naturalmente o apoio de toda a direita no segundo turno ?mesmo que por falta de opção.

Desde o caso "Dark Horse", a orientação da pré-campanha tem sido a de reconquistar bolsonaristas eventualmente decepcionados com Flávio e evitar que o eleitor antipetista migre para outros pré-candidatos da direita.

A ideia de unificar a base é dar sustentação política a Flávio para evitar especulações internas no PL de que ele poderia ser substituído ou não resistiria até o fim da campanha. O elo entre o senador e Vorcaro alimentou, por exemplo, a ideia de lançar a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) ao Planalto.

Entre estrategistas que deixaram a pré-campanha, há a queixa de que a preferência pela retórica radical voltada à base vai afastar eleitores indecisos e de centro, grupo que deve decidir a eleição.

Já integrantes da equipe dizem que a conquista desse eleitorado volátil poderia ficar para a reta final ou ser viabilizada por meio da segmentação do público-alvo e de temas. Nesta semana, por exemplo, Flávio defendeu o Bolsa Família por um lado e acenou à base com um vídeo sobre segurança pública, um dos principais motes da campanha.

O senador afirmou que fará um anúncio com "uma péssima notícia para o CV, o PCC e o PT". No vídeo, feito com inteligência artificial, ele aparece pilotando um avião militar e atacando as facções ao lado do pai.

Sinalizações ideológicas recentes de Flávio incluem a viagem aos Estados Unidos para o encontro com Donald Trump, patrocinado por Eduardo Bolsonaro e pelo empresário Paulo Figueiredo, e um discurso mais intenso contra Lula, com direito a falar em "guerra espiritual" contra o mal na Marcha para Jesus.

Nas redes sociais, vídeos de apresentação de Flávio em que ele aparece ao lado da mulher e das filhas perderam espaço para o conteúdo de enfrentamento ao PT.

O novo jingle da pré-campanha, chamado de "Vem com fé", pretende traduzir a mensagem de convocação de apoiadores ao mesmo tempo em que mira evangélicos e católicos, parcela considerada crucial para Flávio. A música diz que o brasileiro pode acreditar em um futuro melhor.

O publicitário Eduardo Fischer, conhecido por campanhas como a da "Brahma número 1", foi contratado pela pré-campanha de Flávio no fim de maio como consultor estratégico de comunicação. O jornalista Alexandre Oltramari, que já fazia parte da equipe, assumiu a coordenação de marketing e comunicação ?é dele o novo jingle.

A entrada de Fischer, que estava afastado do mercado havia anos, foi controversa. Integrantes do PL queriam trazer um medalhão da publicidade para dar prestígio e credibilidade à pré-campanha, mas o empresário é alvo de críticas por falta de experiência no marketing político e dívidas de mais de R$ 100 milhões causadas pela derrocada de seus negócios.

Desde que Fischer foi anunciado pela assessoria de Flávio, o gabinete do senador já recebeu intimações judiciais direcionadas ao publicitário em processos de execução movidos por credores. Interessado em fazer parte da pré-campanha, Fischer entrou na equipe por meio de contato com membros do PL e Figueiredo, influenciador que mora nos EUA.

Outra contratação da pré-campanha feita após a crise "Dark Horse" foi a do coordenador de imprensa, o ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de São Paulo Fabio Portela. Nesta semana, Flávio anunciou que vai visitar os principais veículos do país para distensionar a relação com a imprensa.

Coordenador-geral da pré-campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN) pediu a Ricardo Nunes (MDB) que liberasse seu secretário para o posto, gesto que fortaleceu a ligação entre o prefeito e o bolsonarismo forjada na eleição de 2024.

A pré-campanha ainda avalia contratar a produtora de Raul Doria, irmão do ex-governador João Doria.

Flávio perdeu, por outro lado, os estrategistas Toninho Neto, publicitário da área de criação com campanhas renomadas no currículo, Walter Longo, ex-presidente do Grupo Abril, e Marcos Aurélio Carvalho, responsável pelas redes sociais e integrante das campanhas vitoriosas de Bolsonaro em 2018 e Lula em 2022. Os dois primeiros se opuseram à entrada de Fischer.

Até a relação entre Flávio e Vorcaro ser revelada, em maio, o marketing da pré-campanha estava a cargo de Marcello Lopes, publicitário e ex-policial que é amigo do senador e, mesmo fora da equipe, mantém proximidade com ele.

Marcellão, como é conhecido, deixou o posto alvejado pela crise Dark Horse, por ligações dele próprio com Vorcaro, que ele nega, e por uma disputa com a cúpula do PL, que pretendia controlar a comunicação da pré-campanha.

O publicitário e membros do partido trocam acusações sobre a responsabilidade da resposta à turbulência, considerada amadora. Pesou contra o amigo de Flávio o fato de ele ter viajado à Disney com a família no dia seguinte à revelação do áudio. Marcellão diz que, naquele momento, ainda não deveria estar à frente da campanha pois sua entrada formal estava prevista para os próximos meses e que tinha aval do senador.