BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A operação da Polícia Federal contra o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), provocou temor no entorno do presidente Lula (PT) pela avaliação de que trouxe a crise do Banco Master para o Planalto e de que pode amortecer o discurso da campanha petista contra Flávio Bolsonaro (PL).
Além de líder do governo no Senado, Jaques Wagner é uma figura influente no PT e tem relação pessoal com Lula, que por vezes o chama de "meu galego". Ele foi fundador do partido, governou a Bahia e também foi ministro da Defesa e da Casa Civil durante o governo de Dilma Rousseff (PT).
Por ora, Lula decidiu manter Jaques Wagner na liderança do governo. Eles conversaram após a operação, segundo o senador. "Ele fez questão de me ligar, se solidarizar comigo", narrou o parlamentar, que negou ter recebido repasses do Master, em entrevista à Band.
Interlocutores do presidente, porém, narram incômodo pela exposição do chefe do Executivo e avaliam que o parlamentar exagerou ao narrar o contato. Na mesma entrevista, Wagner disse que permaneceria no cargo, a menos que Lula decidisse o contrário.
Uma ala do governo dizia acreditar que Wagner entregaria o cargo de líder, num gesto para preservar a gestão petista. Havia a saída de anunciar o afastamento para se defender da investigação ou para focar na sua campanha de reeleição ao Senado na Bahia.
Integrantes do Planalto que antes defendiam o afastamento de Wagner por causa de problemas na articulação política afirmaram nesta quinta à Folha de S. Paulo que sugeririam a Lula mantê-lo no cargo. Uma saída só poderia ocorrer por vontade própria do senador.
A avaliação é de que uma mudança neste momento passaria uma mensagem de que o Planalto não acredita em Wagner e que Lula não relutaria em abandonar um aliado de longa data antes de uma condenação.
Para parte desse grupo, Wagner falhou nos últimos meses em algumas articulações, como na derrota da indicação de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal), e ficou inviabilizado no cargo após o rompimento com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Eles avaliam, porém, que Lula perdeu o timing para a troca.
O presidente já havia questionado Wagner, em reuniões privadas, sobre notícias acerca de sua relação com Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Segundo relatos, nessas ocasiões o senador tranquilizou Lula, afirmando não haver envolvimento com o caso.
Um dos argumentos foi o de que as relações comerciais sob suspeita ocorreram durante a gestão Jair Bolsonaro (PL). Dessa forma, ministros de Lula disseram estar surpresos com a revelação de vínculos entre o núcleo familiar de Wagner e Augusto Lima.
Após a operação, Wagner fez um desabafo. Em conversas, citou nomes de políticos investigados por cifras milionárias no caso e que não foram alvo de mandados de busca e apreensão. Numa menção à Lava Jato, disse que já passou por isso e vai superar novamente.
Mas há preocupação no PT com o impacto eleitoral dessa operação. Lula recuperou pontos de intenção de voto em pesquisas após a revelação de que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Master, para financiar o filme "Dark Horse", sobre a vida de seu pai.
No primeiro Datafolha divulgado após a revelação dos áudios de Flávio e Vorcaro, o pré-candidato do PL caiu seis pontos no primeiro turno. No segundo turno, o filho de Bolsonaro passou de 45% para 43%, enquanto Lula saiu de 45% para 47%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Outras pesquisas mostraram a recuperação do petista não somente em intenção de voto. O temor do PT é, justamente, que o escândalo interrompa essa espiral positiva e municie Flávio, que falou em "alento" nesta quinta e associou a origem do caso Master ao PT da Bahia.
Apesar de reconhecerem o impacto, esses aliados de Lula afirmam que os casos não podem ser equiparados. Dizem que Flávio é candidato à Presidência e mentiu sobre sua relação com Vorcaro.
Petistas afirmam ainda que vão continuar usando o escândalo contra o pré-candidato do PL. Lula, por sua vez, deverá insistir na linha de que "cada um que se explique", adotada em relação ao próprio filho nas investigações sobre o escândalo do INSS.
Publicamente, o discurso é de defesa de Wagner. O ministro de Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que o governo recebeu com "absoluta tranquilidade" a operação e disse que a ação mostrou que a PF tem independência para investigar.
"O caso Master é do governo anterior. Queremos que as investigações aconteçam com todo o rigor, no nosso governo a PF tem autonomia para apurar tudo", afirmou. "Jaques Wagner é uma liderança importante, que terá todo o direito e nossa proteção para se explicar. Vamos buscar a transparência total, não vamos colocar nada para debaixo do tapete", completou o articulador político do governo Lula.
O presidente do PT, Edinho Silva, defendeu Wagner e disse ter confiança de que o senador comprovará sua inocência. O dirigente disse que o parlamentar "é depositário de toda a nossa confiança".
"Apoiamos todas as apurações envolvendo o Banco Master, a sociedade tem o direito de saber a verdade, os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis, penalizados. Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança de que Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência", completou Edinho em nota.
Secretário de comunicação do PT e integrante da coordenação da campanha, Éden Valadares se antecipou às investidas bolsonaristas, publicando nas redes texto em apoio ao aliado.
"Quem autorizou o Banco Master foi o governo Bolsonaro. Quem é íntimo de Daniel Vorcaro, visitou mesmo após a prisão e tem ele como um 'irmão', é Flávio Bolsonaro. Quem recebeu milhões de reais deste esquema foi a família Bolsonaro. A tentativa de equiparar essas relações e falsamente criar a ideia de que o escândalo BolsoMaster atinge igualmente todos os campos políticos brasileiros é inócua e revela o grau de desespero de Flávio", afirmou.