Flores, jantares, fotos ensaiadas e declarações públicas. Em meio à enxurrada de postagens românticas que invadem as redes sociais no Dia dos Namorados, cresce também um sentimento silencioso: a frustração de quem compara a própria relação com o amor aparentemente perfeito exibido na internet. Em uma era marcada pela exposição da intimidade e pela busca constante por validação, especialistas alertam que muitos relacionamentos têm sido construídos, e destruídos, mais pela idealização do que pela realidade.
Para a professora do curso de Psicologia da Estácio, Thais Knopp, a principal diferença entre um relacionamento saudável e uma relação sustentada apenas pela carência emocional está na forma como o vínculo afeta emocionalmente as pessoas envolvidas. Segundo ela, relações saudáveis não são aquelas livres de conflitos, mas aquelas em que existe acolhimento, parceria e equilíbrio, mesmo diante das dificuldades do cotidiano. “Relacionamento saudável é aquele em que você se sente bem dentro dele, que não te traz sofrimento constante, que faz você rir mais do que chorar, que traz mais alegria do que tristeza”, afirma. A psicóloga destaca, no entanto, que conflitos fazem parte da convivência humana e que a idealização de um amor sem falhas pode se tornar perigosa quando impede as pessoas de enxergarem a realidade do outro.
A pressão por relações perfeitas ganha força principalmente nas redes sociais, onde casais costumam publicar apenas recortes felizes da convivência. O problema, segundo especialistas, é que essa “vitrine de felicidade” acaba criando parâmetros irreais sobre amor, companheirismo e sucesso afetivo. O resultado pode ser uma geração emocionalmente mais ansiosa, insegura e intolerante às frustrações naturais de qualquer relacionamento.
Thais Knopp explica que relacionar-se exige reconhecer que o outro também possui limites, defeitos, cansaços e fragilidades. “As pessoas são diferentes. Do mesmo jeito que nós nos sentimos sobrecarregados, o parceiro ou parceira também se sente. Nós vemos os defeitos do outro, mas o outro também vê os nossos”, pontua. Para ela, muitos conflitos atuais nascem justamente da dificuldade de aceitar a individualidade dentro da vida a dois.
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A especialista também chama atenção para o aumento de relações iniciadas em contextos de solidão emocional e dependência afetiva. Segundo ela, a carência pode levar pessoas a entrarem em relacionamentos antes mesmo de estarem preparadas emocionalmente ou sem conhecer verdadeiramente o parceiro. Isso pode abrir espaço para comportamentos possessivos, ciúmes excessivos e relações desequilibradas.
Apesar disso, a psicóloga pondera que idealizar relacionamentos é um processo natural do ser humano. “A idealização acontece não só nas relações amorosas, mas também nas amizades e em outras conexões humanas”, explica. O problema começa quando essa expectativa impede a construção de vínculos reais, baseados no diálogo, na maturidade emocional e no reconhecimento de que nenhuma relação será perfeita o tempo todo.
Em um cenário em que demonstrações públicas de afeto muitas vezes parecem mais importantes do que a qualidade da convivência privada, especialistas reforçam a necessidade de olhar para os relacionamentos com menos comparação e mais autenticidade. Afinal, enquanto as redes sociais vendem finais felizes em tempo integral, a vida real continua sendo feita de imperfeições, ajustes e aprendizados diários, exatamente como qualquer relação humana.
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