O período de férias costuma ser associado ao descanso, ao lazer e ao tempo de qualidade com a família. Mas, para muita gente, os dias livres acabam sendo consumidos por horas seguidas diante da tela do celular — muitas vezes sem que a pessoa sequer perceba. A sensação de abrir uma rede social por alguns minutos e, quando olhar novamente para o relógio, descobrir que uma ou duas horas se passaram não é coincidência. Segundo especialistas, esse comportamento é resultado de estratégias desenvolvidas para prender a atenção do usuário, tornando cada vez mais difícil interromper o uso dos aplicativos.

De acordo com o coordenador do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Estácio, Luiz Fernando Campos, um dos principais mecanismos responsáveis por esse comportamento é o chamado fluxo infinito, recurso presente nas principais redes sociais e plataformas digitais. "O fluxo infinito é o excesso de rolagem de páginas e de informações disponibilizadas de forma constante. Isso torna a pessoa dependente da tecnologia quando não deveria acontecer. A tecnologia é que deve depender de você, e não o contrário", explica.

Na prática, a estratégia elimina qualquer ponto natural de parada. Diferentemente de um livro, de um jornal ou mesmo de um programa de televisão, que possuem início, meio e fim, as redes sociais oferecem um conteúdo que nunca termina. Sempre existe um novo vídeo, uma nova postagem ou uma nova notícia esperando pelo próximo movimento do dedo na tela.

Segundo o especialista, essa dinâmica acaba extrapolando o ambiente virtual e passa a fazer parte da rotina das pessoas. "Nós vemos pessoas atravessando a rua olhando para o celular, dirigindo enquanto enviam mensagens ou escutam áudios, caminhando enquanto fazem chamadas de vídeo. Isso demonstra uma dependência da tecnologia", afirma.

O problema, segundo ele, vai além da distração. O uso excessivo dos dispositivos já é tratado como um tema de saúde mental e tem mobilizado profissionais da psicologia. "Hoje existem terapias voltadas para tratar esse tipo de transtorno, porque essa dependência, seja da tecnologia ou de qualquer outra coisa, não é saudável", destaca.

Outro recurso utilizado pelas plataformas é conhecido como recompensa intermitente, um mecanismo psicológico que ajuda a explicar por que tantas pessoas sentem necessidade de verificar constantemente o celular.

Na psicologia, esse conceito descreve situações em que uma recompensa acontece de forma imprevisível, fazendo com que o comportamento seja repetido na expectativa de receber um novo estímulo positivo. No ambiente digital, isso acontece por meio de curtidas, comentários, compartilhamentos e notificações. "A recompensa intermitente acontece o tempo todo através das redes sociais. A pessoa acaba precisando daquela curtida, daquele comentário ou daquele coraçãozinho para se sentir bem", explica Luiz Fernando Campos.

Segundo ele, essa busca constante por aprovação pode criar um ciclo de dependência emocional e afetar diretamente o bem-estar psicológico. "A partir do momento em que ela deixa de receber esse retorno positivo ou passa por situações de rejeição, como críticas ou cancelamentos, isso pode impactar diretamente sua saúde emocional", alerta.

Durante as férias, quando o tempo livre aumenta e a rotina fica menos estruturada, a tendência é que essas estratégias se tornem ainda mais eficazes. Por isso, especialistas recomendam estabelecer limites para o uso do celular, reservar momentos livres de telas e priorizar atividades presenciais, como encontros com amigos, passeios, prática de exercícios e momentos de descanso. Afinal, enquanto o conteúdo das redes sociais nunca acaba, o tempo das férias termina — e ele não pode ser recuperado.

TL Comunicação - Reprodução

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