Juliano Nery Juliano Nery 31/10/2013

Bom dia, Arnaldo!

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Um tempo atrás, quando havia mais horas no meu fim de semana, eu aproveitava a manhã para dar uma corridinha no aprazível campus da Universidade Federal de Juiz de Fora. E fiz isso por diversas vezes. Em muitas dessas saudáveis visitas, tive o prazer de encontrar, sempre ao lado da esposa, Lucinha, aquele camarada simpático e sorridente que, assim como eu e outros de nossos cidadãos, circulava na busca e na manutenção da saúde nos 2178 metros da pista em torno da praça cívica. Diminuindo o passo, como que em tom de reverência, tinha a honra de acenar e ser correspondido por ele, quando dizia, de forma caprichada, "bom dia, Arnaldo!"

Não podia ser um "bom dia" qualquer, já que não se tratava de um Arnaldo qualquer: Arnaldo Baptista foi um dos maiores artífices da música brasileira, referência para tudo de bom que surgiu depois que ele, ao lado do irmão, Sérgio Dias, e da ex-namorada, Rita Lee, apareceram na década de 1960, com os Mutantes, banda que marcou aqueles anos com canções brilhantes e de autoria desse Arnaldo. Um misto de psicodelia, tropicalismo e rock and roll, formaram o gênio... Um grande ídolo que passa despercebido por muitos ali nas caminhadas no campus.

E sempre que rolava aquele breve aceno de mão e a saudação matinal entre eu, um anônimo no meio dos outros atletas de fim de semana, e o mito, Arnaldo Baptista, colocava-me a pensar, quantos daqueles que realizavam a caminhada ou a corrida, já se colocaram a cantarolar uma das suas músicas. Quem não se lembra da "Balada do Louco" e dos seus inesquecíveis versos: "Dizem que sou louco por pensar assim/ Se eu sou muito louco por eu ser feliz/ Mas louco é quem me diz/ E não é feliz, não é feliz"? – Só quem "anda meio desligado" e, durante o exercício, "não sente os seus pés no chão", parafraseando o ídolo, para não reconhecer um dos maiores nomes da nossa música e que mora conosco, aqui em Juiz de Fora. E olha que tem muita gente que não conhece a sua estampa, embora conheça décor os seus versos...

Pensando bem, isso não é exclusividade de Juiz de Fora, mas, acontece quase em todo lugar. Aquela velha história do tal país sem memória ou de comprar os mais vendidos. E é uma pena. Um dos caras mais premiados da nossa música, reverenciado por nomes como Kurt Cobain do Nirvana, dando sopa ali no campus da Federal e não havia nenhuma multidão querendo autógrafos, seguranças impedindo o assédio de fãs! – Pensava nisso tudo, enquanto completava a minha volta em torno da praça cívica.

E foi aí que eu tive o estalo: vai ver que é por isso que ele está por aí. Dando sua volta tranquilamente sem as dificuldades impostas pela grande mídia ou pelos grandes alvoroços. Se fosse o protótipo do rockstar que conhecemos, eu não poderia nem dar o meu singelo bom dia. E como é bacana dizer, "bom dia, Arnaldo"...

Juliano Nery acredita que Minas Gerais é mais que um Estado. É um estado de espírito. Juiz de Fora pode ser encontrada na latitude 21° 41' 20" S e longitude 43° 20' 40" 


Juliano Nery é jornalista, professor universitário e escritor. Graduado em Comunicação Social e Mestre na linha de pesquisa Sujeitos Sociais, é orgulhoso por ser pai do Gabriel e costuma colocar amor em tudo o que faz.

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