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    Juliana Machado Juliana Machado 24/09/2013

    O luxo, a arte e o lixo

    Na semana passada, tive o imenso prazer de visitar a exposição A Sagrada existência, da artista plástica Sêmea Kemil. A mostra é repleta de significados e está disponível para visitação no Centro Cultural Pró-Música até o dia 29 de setembro, em Juiz de Fora – MG. Convido todos os internautas a visitá-la, pois é um riquíssimo mergulho no universo da arte engajada. O que Sêmea Kemil faz é, não somente produzir belíssimas obras de artes dignas de qualquer espaço requintado que preze pela qualidade estética de uma obra, mas também promover a reflexão sobre o modo como lidamos com o nosso lixo. Sêmea transforma em fina arte, com técnica e beleza, o papel que sem nenhum pudor nós diariamente descartamos em nossos lixos. Ela usa embalagens, caixas de remédio, jornais e outras fontes de papel e enfatiza que nunca falta material, o que soa como uma denúncia sobre o quanto de lixo nós produzimos.

    Ao observamos suas peças reagimos primeiramente pasmos ao verificar que se trata de arte feita com papel e argila. A sensação é de que são feitas de algo como metal ou ferro. Os arabescos e curvas nos lembram os movimentos da natureza, suas montanhas e suas formas. As cores também são naturais, às vezes dramáticas. Nos lembram as queimadas nas nossas floretas e a seiva – ou o sangue – que escorre de nossas árvores. Não há uso de pigmentos tóxicos, moldes e métodos de cozimento. Tudo é natural: o material usado, o design e a forma de montar a peça, que é exclusivamente feita à mão. Os títulos das obras também são significativos como na peça "Vidas Roubadas", que representa uma floresta devastada pelo fogo ou, na minha visão, todo o planeta Terra em chamas. Sêmea afirma que seu trabalho é construir, a partir da desconstrução, e de fato ela constrói arte partindo do lixo, a porção desconstruída das nossas cidades.

    mostra

    A artista enfatiza o desejo de unir a sua arte com as preocupações sociais em nossa cidade. Sêmea já trabalhou com crianças em uma organização beneficente produzindo arte a partir de material reaproveitável. Entende que poderia auxiliar outras pessoas em situação econômica e social debilitada a recomporem suas vidas, por meio da produção e venda das obras por elas produzidas. Ressalta ainda que é fundamental que a união entre ecologia, responsabilidade social e geração de renda, seja estimulada pelas instituições públicas e privadas.

    É estimulante pensar que ainda há pessoas que conseguem enxergar com criatividade e otimismo o modo exagerado de consumo que todos nós vivenciamos – por escolha própria. Em nossa cidade, e em tantas outras pelo Brasil afora, empresas e governos deveriam levar a sério a questão do meio ambiente, adotando seriamente projetos como os de Sêmea. É uma ideia que, se apoiada e colocada em prática com o devido amparo de instituições de peso, poderia abarcar inúmeras esferas: a solução para o lixo produzido, a reflexão sobre este mesmo lixo, a sensibilização para a devastação ambiental, a produção de arte engajada, a inclusão social, a geração de emprego e renda e a reformulação da auto-estima das pessoas envolvidas. Como colunista, convido as pessoas da nossa cidade, em especial as empresas, a pensarem neste projeto com o devido cuidado e atenção que ele merece. Afinal, o que Sêmea faz e que é digno de aplausos. É transformar o lixo nosso de cada dia em arte, ou melhor, em luxo.


    Juliana Machado é Bióloga, mestre em Ciências Biológicas - Comportamento e Biologia Animal - UFJF/MG. Doutoranda em Bioética, ética aplicada e saúde coletiva - UFRJ/UFF/UERJ e Fiocruz.

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