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    Victor Bitarello Victor Bitarello 30/04/2014

    O mundo adolescente de "Hoje eu quero voltar sozinho"

    hojeQuando eu tinha sete anos e fui para a escola onde estudei todo o primeiro grau (atualmente chamado ensino fundamental), entrou para a minha sala um menino que era deficiente visual (rapidamente eu aprendi que essa era a forma correta de tratar a quem que até então eu entendia por cego). Desde o primeiro momento me chamou a atenção aquele garoto na minha turma. Era algo que eu nunca tinha visto tão de perto. A escola (pública municipal) era preparada para receber alunos com deficiência visual, e havia uma sala exclusiva para eles. No entanto, aquele menino veio para a minha classe. Ele até já conhecia alguns dos alunos, pois havia naquele colégio uma turma de 3º período (não sei se ainda se fala assim), na qual eles estudaram juntos. Aos poucos, eu me aproximei dele. Ao longo daqueles oito anos, ele foi um dos meus melhores amigos da escola. Quando me lembro daquele tempo, impossível não me lembrar dele. Vivemos muitas coisas juntos. Quando a máquina de escrever especial aparece pela primeira vez em "Hoje eu quero voltar sozinho", bateu uma mistura de emoção com saudade. Como se eu tivesse visto, rapidamente, aquela cena, mas em outro tempo, que tanto se repetiu diante de mim, que sempre me sentei próximo àquele meu amigo, que já há tanto tempo não encontro.

    "Hoje eu quero voltar sozinho" fala sobre o momento na vida de Leonardo, um adolescente com deficiência visual total, em que ele conhece Gabriel, um aluno novo na escola, e que passa a se sentar atrás dele na sala de aula, lugar evitado pelos demais alunos, que não queriam ter o trabalho de eventualmente ter que ajudar o colega deficiente. Os dois, após serem encarregados de fazer um trabalho de história juntos, iniciam uma amizade e, ao mesmo tempo, um percurso de descobertas. De descoberta de si próprios e da intimidade afetiva que pode nascer entre dois homens. No decorrer desse momento, Leonardo vive a vontade de ser e sentir-se mais independente, querendo até mesmo ter a oportunidade de fazer um intercâmbio; vive a falta de tato de alguns colegas, que chegam a, pasmem, praticar o chamado "bullying" contra o garoto, por se incomodarem com sua deficiência; começa a descobrir sua sexualidade voltada para o desejo pelo amigo; vive os primeiros conflitos de relacionamento típicos de uma vida adulta que começam a surgir com a família, com a amiga; experimenta a coragem de se incluir no mundo dos não diferentes.

    É possível, aliás, é provável, que daqui a alguns anos as pessoas que assistirem ao filme não entendam o porquê do impacto que ele possa estar causando agora, na medida em que até lá o preconceito contra o amor homossexual deve ter diminuído, quiçá acabado. Mas, agora, foi muito legal a sensação de assistir a um filme como "Hoje...". Isto porque a história mostra o nascimento do amor entre dois homens sem a necessidade da busca a guetos gay, como as salas de bate-papo da internet, os aplicativos dos smartphones ou os locais específicos, como bares e boates. E, ao mesmo tempo, não houve no filme um conto de fadas gay. O que houve ali foi dois adolescentes plausíveis, do tipo que se encontra em qualquer colégio ou bairro, comuns, com corpos comuns, com rostos comuns, começando devagar algo que para ambos é novo, mas que ambos querem viver e que, aos poucos, querem muito viver. A descoberta do amor por um amigo se dá porque eles passaram a se amar e pronto. Não porque eram lindos e sarados. Não porque eram ricos e "príncipes". Nem sequer tinham certeza da orientação sexual um do outro. Não. Se dá porque eram pessoas. E pronto.

    O trabalho de direção é bom e de atuação também. Destaque para o protagonista Guilherme Lobo, que foi perfeito. Simples e perfeito.

    Existem dois pontos que incomodam um pouco no filme em termos de técnica de cinema, e um em termos de roteiro. O filme foi demasiadamente escuro. Eu acredito que não se deveu ao espaço em que passou (o qual é largamente conhecido na cidade pela falta de qualidade, mas que foi o único a oferecer o longa), mas ao próprio filme em si. Em alguns momentos as cenas estavam tão escuras que mal dava para ver alguns atores. Outro ponto é que ele foi ligeiramente arrastado. Poderiam, com certeza, ter "cortado" um pouco do filme, torná-lo mais enxuto, para evitar essa sensação. Já com relação ao roteiro, o incômodo se deu não por um defeito, mas por um choque pessoal de ver ali um ato de "bullying" contra um deficiente visual. Se esse tipo de violência acontece ATÉ contra os deficientes visuais, então, caramba! A que ponto as pessoas são capazes de chegar!

    No final das contas, "Hoje eu quero voltar sozinho" é um filme sobre o mundo adolescente. Leonardo vive as angústias da adolescência. E também as da diferença. As angústias que qualquer adolescente diferente da maioria sente, e que no caso dele são ainda maiores em virtude de sua condição. Numa época tão rica da vida, na qual tantas coisas são vividas e na qual tantas coisas acontecem, Leonardo quer vivê-las também. Ele não quer ser impedido em virtude da deficiência. A vontade de fazer um intercâmbio e ir viver em outro país, num outro "mundo", representa justamente essa possibilidade de não se sentir tão o que ele é, mas ser um outro alguém. E o final do filme! Nossa! Lindo! Um típico final de filme adolescente para qualquer um de nós, adolescente ou não, se emocionar e brindar! Um filme muito bom! Recomendo!


    Victor Bitarello é bacharel em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal pela Universidade Candido Mendes (UCAM). Ator amador há 15 anos e estudioso de cinema e teatro. Servidor público do Estado de Minas Gerais, também já tendo atuado como professor de inglês por um período de 8 meses na Associação Cultural Brasil Estados Unidos - ACBEU, em Juiz de Fora. Pós graduando em Direito Processual Civil.

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