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    Daniela Aragão Daniela Aragão 17/02/2014

    Jardim de paraísos

    Coluna Daniela"Hora de ir embora/Quando o corpo quer ficar/Toda alma de artista quer partir/ Arte de deixar algum lugar/Quando não se tem pra onde ir/Voar, fugir/Como o rei dos ciganos/Quando junta os cobres seus/Chorar, ganir/Como o mais pobre dos pobres/Dos pobres dos plebeus/Ir deixando a pele em cada palco/E não olhar pra trás/E nem jamais/Jamais dizer/Adeus". Estes versos de "Na carreira", uma das canções mais pungentes da obra "O grande circo místico", composta por Edu Lobo e Chico Buarque, invadem meus ouvidos faz quase meio ano. Estranha sensação de inexplicável euforia e melancolia me acompanha em todo esse permanente cantarolar.

    Uma diversidade de músicas de nosso cancioneiro nacional evocam o tema da viagem, do permanente deslocamento, da inconstância vivenciada no exílio em terras estrangeiras. Milton Nascimento convida uma multidão de passageiros para compartilhar seu percurso infinito: "Vendedor de sonhos/ tenho a profissão viajante/ de caixeiro que traz na bagagem/ repertório de vida e canções". Chico Buarque desenha o quadro de uma entre tantas Iracemas perdidas entre sonhos e delírios americanos: "Iracema voou/Para a América/Leva roupa de lã/ E anda lépida/Vê um filme de quando em vez/Não domina o idioma inglês/Lava chão numa casa de chá".

    "Traversée entre margens", cd de Enilce Albergaria, é um convite irrecusável a uma viagem rumo aos labirintos delicados, românticos e profundos da canção em seu mais alto nível de expressividade lírica. Disco para ser degustado lentamente em cada filigrana, cada átomo de nobre singeleza. Trata-se de um álbum que contempla o registro inédito de onze canções francesas que colocam em destaque o drama da transitoriedade, as incertezas, dores, delírios, prazeres e descobertas daqueles que vivem-sobrevivem à ausência de fixação territorial.

    "Traversée entre margens" percorre o traçado de uma trajetória musical intercultural que alia duas culturas, a tradição lírica francesa plena de substrato poético jorrando em seus versos embalados pela força sonora da música popular brasileira. Sob a eficiente e sensível direção musical do flautista, compositor e arranjador Estevão Teixeira, o álbum ganha um olhar singular e um conceito contemporâneo que transcende as limitações de um enquadramento déjàvu, que poderia reduzir as possibilidades sonoras do trabalho exclusivamente a tradição "consagrada-chapada" da canção francesa perdida nos tempos de Edith Piaf e Juliette Gréco. Este disco não suplanta a tradição, justamente revela sua magnitude na delicadeza com que se apropria do legado cultural europeu por meio da afabilidade e cordialidade brasileira.

    Emociona ouvir a beleza do canto de Enilce Albergaria que se desvela publicamente pela primeira vez. Sua vasta experiência como atriz nos palcos do Brasil e da França lhe trouxeram uma certa malemolência encantadoramente graciosa, tal qual explicita a canção de abertura "Le Caméléon", que alegoriza seu próprio périplo existencial. Incessante mutante viajante, diluída, imbricada entre duas culturas, camaleoa que agilmente se metarmofoseia adaptativamente ao instante que se apresenta: " Je suis le caméléon/Le Lion qui se traîne à terre/Je suis le caméléon/Le saurien, le vagabond/Je peux me faire la flamme/La Grimace, même la Haine/ Je peux devenir une dame/ Quatre jours de la semaine".

    Estevão Teixeira dá vazão a sua ampla versatilidade rítmica de caráter bem brasileiro, ao congregar uma espécie de reconstrução do imaginário mágico cinematográfico europeu, que evoca uma atmosfera circense, lúdica, colocando em cena ecos Fellinianos das trilhas musicais compostas por Nino Rota. "Le Chandeleux", "Le Caméléon" e "La foire" põem em evidência a beleza dos arranjos, ricos em levadas que destacam movimentos de belos naipes de sopros, pura riqueza musical que se expande em construções harmônicas repletas de vibrantes cores. A base composta por piano (Estevão Teixeira), baixo acústico (Newton Vale) e guitarra elétrica (Guto Gomes) prima pela elegância contida, minimalista. O disco não peca em segundo algum por excesso interpretativo, a condução do canto emocionado e muito bem projetado de Enilce Albergaria evolui em cada faixa, carregado ora de uma leveza tocante, ora de uma gravidade suavemente melancólica. Comove-me o instante do despontar de uma aura lírico nostálgica de índole ultra romântica na interpretação da tão bela "Fétiche". Violoncelos planjem lindamente em elevação. Aplausos para a magistral direção vocal do professor de canto e técnico vocal Pedro Couri, que auxiliou significativamente na impressão da tonalidade interpretativa de cada canção.

    O belo em "Traversée entre margens" se dá justamente em sua essência de verdade e ausência de pretensão, que demonstra sobretudo um trabalho de plena entrega realizado por toda a equipe de produção. O encarte que elucida um bom gosto clean, mas em nada insípido, estampa na capa a reprodução de uma tela do artista Caroube, que passeia por jogos cromáticos em tons de cinza, marrom e azul. Na interior do encarte resplandece o sorriso de Enilce emoldurado em preto e branco, sugerindo um ar meio neo-existencialista. Belo gesto de generoso despudor e coragem das autoras francesas Jackie Schon e Anita Nadal, que se despiram da vaidade da autoria e permitiram a livre expressão da criatividade dos artistas brasileiros Estevão Teixeira, Enilce Albergaria, Guto Gomes e Newton Vale.

    "Le Voyage" prolonga indefinidamente seu soar em meus ouvidos sentidos de comovida e emocionada profundidade lírica, esta a meu ver a canção mais plena diante de toda a bela imensidão de "Traversée entre margens". Uma ode singela e profunda a dor de muitos corações partidos e repartidos entre muitas viagens de luzes e sombras, devaneios e descobertas. Ouvir Enilce Albergaria é deixar-se abandonar em um jardim de paraísos: "J"ai vu de paysages/ Embrassé tant de visages/M'ont oubliée mês amis/ M'ont oubliée mês amours/la ronde tourne sans moi/ Et j'ai besoin, besoin de toi/Le secret Du pèlerin/C'est son chagrin".


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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