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    Daniela Aragão Daniela Aragão 20/12/2014

    Entrevista com o cantor e compositor Claudio Nucci

    danielaDaniela Aragão: Como começou a entrada da música em sua vida?
    Claudio Nucci: Na época em que nasci (1956), as pessoas eram muito musicais nas famílias, naturalmente. Tinham famílias onde não se tocava instrumento mas ouvir boa música, pelo menos, era uma coisa comum. Na família de minha mãe e de meu pai não tinha ninguém profissional de música, mas todo mundo era musical e sabia cantar afinado. Quando se cantava, todos cantavam afinadinho e isso se deve um pouco talvez, ao que Villa Lobos promoveu na época anterior, que foi o ensino obrigatório de música na escola.

    O meu avô tinha um violão muito bom, meu pai tocou cavaquinho e violão (com ele aprendi os primeiros acordes), meu tio toca até hoje violão e me ensinou a tocar um pouco também. Tive ainda alguma facilidade no meio musical, pela minha avó e meu avô por parte de mãe, que tocavam violino em dueto num regional. Sempre tinha por isso, um instrumento por perto.

    Meu avô por parte de pai gostava de fazer poesias, de cantar canções, cantava Pixinguinha, canções italianas. Aprendi a gostar de música dentro daquele universo de valsas, toadas, calangos, rancheiras, música rural. Ouvia Tonico e Tinoco, Alvarenga e Ranchinho, ouvia – porque meu avô gostava de escutar– música clássica. Eu ficava viajando na música clássica...Aos 3, 4 anos, minha mãe me deu uma gaitinha de boca e eu ia tocando. Depois ela me tirou, pois fiquei com a boca toda assada. Então a música era uma coisa natural, eles me musicalizaram. Tinha uma brincadeira de meu pai muito boa que me ajudou muito nessa coisa de mudar o tom. Ele cantava uma música e pedia para eu completar mudando de tom e eu completava. Então eu mudava de tom naturalmente, era uma coisa natural.

    Depois veio o lance do canto.Eu cantava de tudo que tinha na rádio e na TV. Então tinha música italiana, música francesa, brasileira, americana. A rádio era completamente aberta, muito mais rica que hoje, pois se tinham muitas opções diferentes. Quem ouvia rádio era contemplado com um monte de coisas. Eu imitava os cantores, cantava no quintal, cantava no chuveiro, no caminho pra escola.

    Então aos dez anos de idade descobri na casa de meu avô um violão de cordas de aço (tenho ele até hoje, pois consegui resgatar, pedi para o meu tio Toninho e minha tia Cida cederem o instrumento e o reformei com um luthier, o Loureiro). Foi muito bacana o resgate desse violão, porque nele, tudo começou. Todo domingo meu pai e minha mãe me levavam para Jundiaí, que fica a meia hora de trem de Campinas, onde morávamos. Quando descobri esse violão eu pirei e queria sempre ir a Jundiaí para encontrá-lo e tocar um pouquinho. Investi muito tempo em ficar com o violão, tocava músicasde memória. Se alguma estivesse dentro daquele universo harmônico que eu compreendia eu "tirava" a canção e era mais uma pro repertório.

    Me lembro de que gostava de desligar a luz do quarto e fechar a porta à noite, deitava com o violão no escuro e tentava tocar sem olhar a mão para ver se acertava os dedos. Só para tocar de olho fechado, para conhecer o braço do violão sem ter que olhar para ele. O violão foi um companheiro absoluto.

    Daniela Aragão: Na escola você conviveu com alunos que posteriormente se tornariam também músicos como Zé Renato e Lobão.

    Claudio Nucci: Isso foi numa outra fase. Essa primeira fase do meu primeiro contato com a música se deu em Campinas,no Colégio Culto à Ciência, onde eu tinha minha aula de música.Existia, num espaço da escola, uma casinha com instrumentos musicais, onde havia a aula de conjunto. Eu tocava guitarra, outro colega tocava órgão elétrico, o professor tocava bateria e até chegamos a tocar em locais onde nos contratavam.

    Minha primeira composição surgiu por causa de um festival que rolou na cidade,que premiava quatro categorias por idade. Acabei ganhando na minha categoria. Esse foi o primeiro contato com o público, desde criança até ali. Consolidei então minha vontade de querer fazer música, já decretei para mim a partir daquilo, que queria trabalhar com música, ser compositor e cantor.

    Ouvia muito Chico, Gil, Caetano, a Tropicália, Beatles, Rolling Stones, entre outros tantos, mas foi com Edu Lobo que se deu uma coisa interessante: Eu o assisti pela TV num festival, cantando "Ponteio" justamente com Maurício Maestro e Davi Tygel no vocal,esses que mais tarde seriam meus companheiros de Boca Livre. Nessa época, comecei a compor mais músicas, algumas com os amigos, um repertório ainda muito primitivo, mas eu queria muito crescer.

    Daniela Aragão: E como se deu a segunda fase musical?

    Claudio Nucci: No Rio de Janeiro é que se deu a segunda fase, a família toda se mudoupra lá e,ao ingressar no "Colégio Rio de Janeiro" é que fui fazer som com novos colegas de escola.
    Quem me recebeu nessa escola foi o Fernando Barroso, que hoje é cirurgião e também músico. Ele me recebeu muito bem e promovia uns encontros musicais na casa dos seus pais.

    O ambiente musical do colégio também me favoreceu muito; fui colega do Lobão, trocávamos informações musicais, eu mostrava minhas músicas no violão para ele, enquanto ele me mostrava o rock como era, botava uns discos e tocava bateria igualzinho ao disco. Era impressionante como ele já tocava bem bateria. Mas também me mostrava as primeiras canções no violão. Tínhamos uns 16, 15 anos nessa fase.
    Com o Zé Renato fiz amizade emprestando-lhe um violão; a "tia Elza", professora de música,solicitou o "empréstimo" pra aquele moreninho magrelo e tímido pracaramba... (risos). Depois viemos a ser competidores dos festivais e depois, viramos amigos e parceiros nas composições.

    Depois, comecei a participar de uma turma com ele e também Fernando Barroso, outros colegas e o Claudio Infante (com 11 anos de idade!), fizemos um grupo que foi para os Estados Unidos e ficou um mês tocando para brasileiros num hotel.

    Também conheci o José Luís Oliveira, que veio a tocar comigo junto com Fernando Barroso no meu primeiro show no Rio. Ele tocava flauta, então eu fazia os arranjos de boca, criava as frases de boca e ele repetia as frases na flauta. Não tinha nada de partitura, era a coisa de vivência, criar as frases na hora. Exercitar muito o ouvido. Conheci ali também o Mú Carvalho, nos tornamos parceiros e grandes amigos.
    Tinha também uma galera mais voltada para outras artes como o Guilherme Karam, que era do teatro e também das artes plásticas. Ele fazia esculturas e expunha lá na escola. A Flory Menezes, também artista plástica e, do teatro, a Cristiane Torloni, a Andréa Dantas e a Lúcia Veríssimo. Com pessoas de tudo quanto é área, o colégio Rio de Janeiro foi importantíssimo para a minha formação.

    Depois comecei a conhecer outras pessoas, o Mário Adnet e o Luiz Fernando Gonçalves, que é tio do Mário. Luiz Fernando se tornou o meu parceiro principal, pois eu tinha um monte de músicas sem letras e ele começou a fazer letras para mim. A galera aparecia em sua casa para deixar melodias num gravador de rolo, na intenção dele fazer letras. Me tornei seu principal parceiro por causa disso, dessa afinidade e por eu ter uma bagagem grande de músicas. Íamos acertando uma e outra, com umas letras muito profundas, muito a ver com aquilo que eu nem sabia que tinha dentro da minha música. Ele foi me revelando as palavras do texto no espaço sonoro. Então esse espaço de contato com gente da música foi se ampliando.

    Daniela Aragão: Você é compositor, instrumentista, mas sobretudo um grande cantor.

    Claudio Nucci: Gosto muito de trabalhar com a voz . Sempre gostei muito de vocalizar, quando conheci melhor o Zé Renato eu ia para a casa dele, ele ia para a minha casa e ficávamos tocando violão e cantando. Um ótimo exercício!

    Daniela Aragão: Há uma certa semelhança no cantar de vocês, não sei se daria numa semelhança de timbres.

    Claudio Nucci: É uma semelhança de intenção vocal. Por estarmos no mesmo ambiente, nos influenciamos mutuamente. O Zé Renato na época tinha gravado um disco (com a produção do Mauro Assunção, que posteriormente virou meu parceiro no "Quero Quero" e em outras músicas). Aparecia foto do Zé Renato no disco que circulava na escola. Isso era um estímulo.

    Vários amigos, vários parceiros. Sobretudo essa fase deu pra gente uma vivência de um Brasil musical novo que estava surgindo. Ouvíamos juntos muita coisa, tinha um disco novo do Hermeto Paschoal, íamos para a casa do outro para ouvir o disco. Ouvíamos o disco novo do Hermeto, do Milton Nascimento, de Chico Buarque, de Edu Lobo, de Tom Jobim, MPB4, Quarteto em Cy, Sueli Costa, muitas coisas diferentes e ótimas. Ouvíamos e tentávamos tocar aquilo e fomos nos agrupando.

    Daniela Aragão: Daí então foi se formando o Boca livre?

    Claudio Nucci: Uma das células principais do Boca Livre começou com dois grupos "semi profissionais". Um era o "Cantares", com o Zé Renato e Juca Filho, poeta e parceiro de Zé Renato e que hoje é roteirista (depois ele seria um de meus principais parceiro também). Tinham umas figuras ótimas nesse grupo "Cantares" que apresentava uma sonoridade mais acústica.

    O grupo que formei, foi com o Mario Adnet (violão e voz), Claudio Infante (bateria) eZé Luís (flauta) era mais eletrificado.Posteriormente entrou o Márcio Rezende (flautista brasileiro formado nos Estados Unidos e que voltou ao Brasil com uma musicalidade incrível) e o Paulinho Soledade (guitarra). Ricardo Mará (Tetê era o apelido dele) fazia o baixo.

    Foi um aprendizado para mim o "Semente" e para o Zé Renato o "Cantares"; eram grupos irmãos, a gente se frequentava, uns aos shows dos outros. Tinham músicas que eu compunha com o Zé Renato e com o Juca que faziam parte do repertório do "Semente"; outras que eram só do "Cantares"...
    "Toada" por exemplo, é uma dessas.A canção já existia em 1977, 1978, quando o Boca livre se reuniu pela primeira vez. Com essa contribuição para o repertório e com o entrosamento mútuo natural,tínhamos Zé Renato e eu, tipo um amálgama, todas condições de somarmos ao Boca Livre.

    Daniela Aragão: E o Maurício Maestro?

    Claudio Nucci: O Maurício Maestro é da outra "célula principal", fez parte do "Momento Quatro", uma geração acima da nossa, com o Davi Tygel,o Zé Rodrix e o Ricardo Villas, (aquele grupo que eu assistia na TV, cantando "Ponteio" com o Edu Lobo).

    Um dia o Davi Tygel, que estava gerenciando o espaço cultural "Concha Verde", no Morro da Urca e fazendo contato com uns grupos novos, entre eles o "Cantares" e o "Semente", nos convidou para fazermos um trabalho vocal. Virou o Boca Livre.

    Daniela Aragão: A formação inicial se deu com quantos integrantes?

    Claudio Nucci: Quatro. Um quarteto...A ideia sempre foi um quarteto porque o Maurício Maestro, que é o arranjador, o cérebro harmônico-melódico do Boca Livre, sempre imaginou uns arranjos com quatro vozes.
    O que aconteceu com a minha chegada e a de Zé Renato, foi a valorização desse timbre mais agudo que possuímos como característica do nosso som.E esse "amálgama vocal", creio, levou o Boca Livre para uma coisa mais brilhante, mais luminosa em termos de tessitura vocal, um vocal mais agudo.

    O Maurício e o Davi seguravam uma região mais média e grave, sem descolar muito das vozes agudas. Esse timbre do Boca Livre foi um diferencial na cena dos vocais naquela época. Não existia um vocal como aquele, pela própria característica de cada participante.

    Se há um parâmetro de comparação como vocal, o Boca Livre pegou muita coisa brasileira, mas jogou algumas informações sonoras (de emissão) que você ouvia em alguns grupos lá de fora, como é o caso do "Crosby, Stills, Nash e Young"(quarteto de música folk americana, moderna, jovem). Os timbres também eram agudos, tinha não uma semelhança de trabalho, mas um clima parecido.

    Fora os timbres, que são importantes, o Maurício Maestro – pra mim – foi o grande revolucionário do vocal naquele tempo, com essa concepção de arranjo. A partir daí começaram a pintar vários outros grupos, uma espécie de "boom" dos vocais. Apareceu o "Céu da Boca", tinha o "Viva Voz" que também era um grupo misto de vocal.


    Daniela Aragão:E como o Boca Livre ganhou mais espaço profissional?

    Claudio Nucci:O Maurício, que estava trabalhando com o Edu Lobo como baixista, lhe contou que estava formando um outro quarteto.O Edu se interessou em ouvir e um dia então fomos na casa do Edu para fazer uma audição. Ele ficou encantado e nos convidou para fazer parte do disco "Camaleão".

    O Boca livre começou a testar a forma de gravar antes da participação com Edu Lobo, um pouco mais cedo, com Hermínio Bello de Carvalho produzindo o disco de um artista paraense chamado Vital Lima. Gravamos um monte de coisas no disco do Vital, ouvindo começamos a gostar do nosso trabalho.

    Edu, depois de gravarmos com ele, nos convidou para fazermos parte do novo show "Camaleão" e depois fizemos um "Projeto Pixinguinha" juntos, onde tínhamos uma janela para testarmos o nosso repertório. O público aprovou e começamos a acreditar mais no nosso trabalho. Daí, resolvemos mostrar o repertório e os arranjos para as gravadoras.

    Daniela Aragão: Então vocês ainda não tinham gravado aquele primeiro disco que se tornou antológico?

    Claudio Nucci: Ainda não. Mostramos para algumas gravadoras quando decidimos fazer nosso disco , só que nenhuma delas quis a gente! (risos) Então por falta de opção, fizemos um disco "independente" (que na verdade dependeu do investimento das nossas famílias).

    O movimento independente já estava acontecendo com outros artistas como Danilo Caymmi e Antonio Adolfo,por exemplo, entre muitos outros... Então nos informamos. Descobrimos que não é assim, só fazer o disco. É preciso divulgar, é necessário sair com o disco debaixo do braço para vender, etc.

    Daniela Aragão: Vocês conseguiram fabricar quantos discos no início?

    Claudio Nucci: Como disse, as famílias ajudaram a bancar.Gravamos o disco no estúdio Sonoviso, com o Toninho Barbosa como técnico de som, prensamos mil LPs e esses discos começaram a se esgotar.Daí, prensamos mais dois mil e foi vendendo feito água.

    Daniela Aragão: E nenhuma gravadora se interessou?

    Claudio Nucci: Daí não tinha mais gravadora. Era um esquema independente, nos juntamos com um pessoal de um escritório (Harpa) que trabalhava também com Edu Lobo, pra conseguirmos shows e divulgação. Teve um cara importante da Eldorado Discos que descobriu o potencial e resolveu distribuir o disco e divulgar. Esse passo fez toda a diferença.

    Mas ollha: Divulgar naquela época era tão natural, que você chegava com um disco, entregava na rádio e o programador colocava o LP numa fila. Ele ouvia o disco inteiro, ou pelo menos um trecho de cada música e decidia se o disco ia tocar na rádio ou não. Era da atribuição do programador da rádio, ele era contratado para isso.

    Por isso, tivemos muito respaldo de radialistas, da independência que eles tinham. Hoje em dia você ter música numa rádio é quase você contratar um espaço publicitário. O jabá instituído, salvo raríssimas exceções!

    Daniela Aragão: Foram quantos anos de existência do Boca livre?

    Claudio Nucci: O Boca Livre existe até hoje, mas teve alguns recessos e mudanças. Na verdade eu participei do Boca Livre de 1978 até 1980 e depois retomei o grupo em 99 até 2003 que foi outra formação, dessa vez só com Maurício Maestro, Lourenço Baeta, Fernando Gama e eu. Trabalhamos, entre outras coisas, no projeto "Mundo", do artista panamenho Ruben Blades; gravamos o CD com ele e viajamos por alguns países, no show.

    Na verdade, saí do Boca livre porque queria fazer uma carreira solo junto com o grupo, dentro da própria gravadora do Boca livre, uma coisa que foi rechaçada pelos outros componentes do Boca Livre.Fui tirado do grupo por uma intransigência de todas as partes, cabeças em momentos diferentes, mas também houve um fato marcante, nesse exato momento:

    O Lourenço Baeta (que acabou entrando no meu lugar) tinha sido convidado para fazer parte de um show em "trinca" (Nana Caymmi e Boca Livre) como participação especial. Até aí, nada de mais...
    Mas a história é que justamente ele, coincidentemente, tinha sido o primeiro a ser convidado para estar no Boca Livre antes de mim, mas na época estava com um projeto para gravar um disco próprio numa gravadora e por isso não quis entrar no Boca Livre.

    Quando as coisas rumaram para uma oportunidade de cisão do grupo comigo, por eu estar apresentando uma opinião diferente, fui comunicado de que não estava mais no Boca Livre e o Lourenço Baeta então entraria no meu lugar, sendo que no show que iria acontecer, eu seria o convidado especial. Tudo isso decidido em uma tarde só... Imagina! Mas quem participa ou participou de grupo, sabe bem que isso é possível, são muitas cabeças, muitos egos.

    Daniela Aragão: E qual foi essa divergência entre você e os outros do grupo?

    Claudio Nucci: Eu cantava o "Quero quero" dentro do show do Boca Livre e a canção era super bem recebida, então sugeri gravarmos essa música no próximo disco do Boca Livre.Os outros não toparam, a princípio, achavam que era uma música muito pessoal. Comecei então na tentar a fazer algo com essa música, pra não perder o embalo e convidei alguns músicos para tocarem comigo,banquei um estúdio para fazer uma fita "demo". O produtor do Boca Livre na época (João Mário Linhares) ficou sabendo disso por mim e deu a maior força, mas ostrês outros componentes do Boca não gostaram dessa minha iniciativa da "demo" quando falei pra eles e tomaram isso como uma afronta. Na verdade, eu só queria que a música fosse gravada...Ou pelo Boca, ou por mim. Sugeri usarmos a nossa gravadora para isso, mas fui voto vencido. Foi assim.

    Daniela Aragão: E quais são seus principais parceiros?

    Claudio Nucci: Tem o Luiz Fernando Gonçalves, que mostrou com suas letras precisamente sintonizadas com as intenções melódicas, que as minhas músicas poderiam se tornar canções. Esse é o primeiro e principal parceiro letrista. O Juca Filho (autor de "Toada" e "Acontecência", entre outras), que me foi apresentado pelo Zé Renato, é importantíssimo, definitivo;e tem também o Paulinho Tapajós. Dele, gostaria de destacar a importância histórica (importância dele e do Mú Carvalho também), pois "Sapato Velho" foi a primeira música com minha participação a ser gravada, em 1977 pelo Quarteto em Cy, num LP chamado "Querelas do Brasil". Posteriormente ela foi gravada pelo Roupa Nova.

    Outro que destaco é o Chico Chaves, fiz com eles poucas músicas, mas é um cara importante no meu percurso. Um artista muito ligado as artes plásticas e poeta também. Ele sacou o temada letra de "Quem tem a viola" que é uma canção importante e tenho outras com ele, já gravadas. Mauro Assunção que me deu a parceria em "Quero quero", muito significativo.

    Cacaso foi uma história à parte: O conheci quando o Boca Livre gravou suas parcerias com Edu Lobo.Meses depois disso,ele me chamou para ir a sua casa. Me lembro que lhe falei: - E aí rapaz, de onde você é?Você tem tanto assunto, fala de tantos lugares, é do nordeste? Ele respondeu "– Sou de Uberaba, depois fiquei um tempo no interior de São Paulo". Disse a ele que soudo interior de SP e ele me mostrou,num cadernão manuscrito, um poema que dizia: "Ê chão preto, terra boa é Barretos!". Fiz nossa primeira música em parceria, uma moda de viola e aí começamos a explorar esse veio, essa "mina" do interior. Cacaso pré definiu que esse seria nosso assunto na parceria. Fizemos muita coisa boa nesse caminho, meu terceiro disco na Odeon foi quase todo com letras de Cacaso. Tinha música com Juca Filho também e foi o primeiro disco que Jacques Morelembaum arranjou inteiro.

    Daniela Aragão: Você tem um trabalho sobre Caymmi também, gravou um disco inteiramente em sua homenagem na ocasião da celebração de seus noventa anos.

    Claudio Nucci: Sim, tenho um disco sobre Caymmi proposto pela Lua Music. Fiz uma leitura super respeitosa de Dorival. Escolhi o repertório, toquei violão de aço junto com a voz, respeitei o processo Caymmiano ao colocar simultaneamente voz e o violão. Pretendi gravar um disco de forma orgânica e Dorival Caymmi lembra imediatamente violão e voz, né? Mas tem arranjos sobre essa base (do Lipe Portinho) e percussões do Marcos Zamma.

    Daniela Aragão: Então o condutor é a sua voz e violão?

    Claudio Nucci: Exatamente, para manter a integridade de Caymmi que é o "cantautor", aquele artista que faz a coisa acontecer no violão e na voz simultaneamente. Esse método tem uma organicidade que vale a pena, tem os defeitos que valem a pena, tem o momento que vale a pena. É algo que nunca vai se repetir, o lance do momento inédito em que você flagra violão e voz juntos. A interpretação pura, como se eu estivesse ao vivo ali respeitosamente cantando ao mesmo tempo para todos que irão ouvir o disco. Foi isso o que pensei, num modo "Dorival Caymmi", ele faria dessa forma... muito melhor que eu, naturalmente! (risos).

    Daniela Aragão: O que mais lhe toca na obra de Dorival Caymmi?

    Claudio Nucci: É como ele é simples, fundamental nas ideias musicais. As células musicais que ele escolheu para trabalhar são muito simples. Muito concentradas e bem escolhidas. É uma simplicidade total, mas ao mesmo tempo não é nada simplório, pois há uma densidade e uma ourivesaria no tratamento. Para fazer esse primeiro disco, fui até a sua neta Stella Caymmi e peguei um monte de discos dele para ouvir tudo. Comecei a ouvir "Caymmi e orquestra", Caymmi e Aloísio de Oliveira produzindo, "Caymmi e seu violão". Eu ficava viajando muito mais nos álbuns que mostravam Caymmi e seu violão, do que nos que privilegiavam concepções de orquestra e tal.

    E também me referenciei muito nesse primeiro CD, nas harmonias de Dori, nas interpretações de Nana e nos caminhos de intenção do canto de Danilo, para as músicas do pai, sem dúvida todos eles inovadores, mas respeitosos com a obra.

    Dorival Caymmi é a essência pura, é aquilo "que o cara vai assoviar na rua". Mesmo se tiver algum refinamento, como em algumas músicas que ele fez como "Das Rosas", que são composições muito sofisticadas melódica e harmonicamente, tudo em Caymmi é especialmente "cantábile".

    Daniela Aragão: Sarah Vaughan gravou "Das Rosas".

    Claudio Nucci: Pois é. Caymmi foi revolucionário com o simples. Impactante. Como o diretor da Rádio Nacional disse, quando o escutou pela primeira vez: "Esse homem é um telúrico!". Completamente fora do que existia, Caymmi traçou o ineditismo popular, criou uma obra que todo mundo hoje reconhece. A Bahia imaginária que Caymmi criou foi a que vendeu o Brasil para o exterior. Ele criou uma memória pictórica nas descrições contidas nas letras das canções e na forma simples de apresentar tudo. Muito concentrado, denso. Sintético, original, minimalista, nada mais, nada menos.

    Daniela Aragão: E você retoma essa proposta de gravar Caymmi dez anos depois.

    Claudio Nucci: Pois é Daniela, e com outras canções bem diferentes. Mantenho a organicidade do violão e voz e de maneira ainda mais radical. Percebi ao ouvir novamente o violão de Caymmi, que ele tinha uma afinação diferente. Todo violão é normalmente afinado, de baixo pra cima, (mi, si, sol, ré, la, mi). A afinação de Dorival era um tom abaixo disso (ré, la, fa, dó, sol, ré) então o violão soa mais grave, mais misterioso. Se é que existe, soa como um "violão barítono". Pra dar esse efeito, peguei um outro violão Takamine que tenho para cordas de aço e coloquei cordas mais grossas, mais pesadas, pra não ficarem frouxas. Isso me permitiu cantar as músicas no mesmo Tom de Caymmi e o violão ficou confortável nas mãos.

    Daniela Aragão: Confortável pra cantar também?

    Claudio Nucci: Sim confortável. Muitas pessoas imaginam que a voz de Caymmi era muito grave, mas ela era mais encorpada, com harmônicos mais escuros, pois ele era na verdade um meio tenor, não era um baixo. Eu consigo alcançar essas notas que ele faz, ainda mais com a minha idade hoje. E quando se canta uma música que está no tom original, há uma magia no resultado.
    Daniela Aragão: E esse repertório?

    Tem uma toada que minha mãe e meu pai me mostravam quando eu era criança, "Peguei o Ita no norte". Também escolhi "Maricotinha", "Milagre", "SodadeMatadeira", "Sargaço Mar", "Eu Cheguei Lá", Canção da Partida" (Minha Jangada) e outras canções que eu não tinha interpretado antes. Tem uma música inédita de Dorival e Danilo Caymmi que é "O anjo da noite" e uma homenagem autoral: Um samba meucom letra do Juca Filho, a última faixa do CD, "Da Cor de Algodão".

    No CD, que tem a produção do Luiz Fernando Gonçalves e foi mixado pelo Giovanni Bizzotto, colocamos percussões depois do violão, com o Rafael Lorga e o Renato Paquet, que fazem só madeira e couro commuitas sutilezas detoques inspiradosno recôncavo baiano, sem "acariocar" muito as coisas. E fora isso tem um coro, que gravei com a Dri Gonçalves, pra representar o povo que canta junto e jamais vai se esquecer da obra desse gênio.

    Daniela Aragão: Interessante você revelar que fazer essa nova homenagem ao Caymmi dez anos depois da primeira e justamente coincidindo com os cem anos do compositor, possibilitou uma adequação maior sua a obra deste grande compositor, ou seja, você mergulhou mais fundo, mais maduro. Até sua voz encorpou e permitiu que você interpretasse com total fidelidade aos tons originais.

    Certa vez num especial sobre Chico Buarque transmitido pela TV, apareceu um emocionante encontro dele com Caymmi, em que ambos passeavam pela praia com idênticas camisas listradas vermelha e branca. Em dado momento Chico Buarque diz que desde muito jovem, Caymmi já trazia em si o peso do tempo impresso no corpo, na composição. Uma sabedoria internalizada. Talvez hoje então você esteja ainda mais afinado com essa sabedoria Caymmiana.

    Claudio Nucci: Sim, a sabedoria tranquila de Caymmi... Quando comecei a gravar eu ria sozinho, pois gravo só. No estúdio que tenho em sociedade com o Giovanni Bizzoto, o "Doispor2", há um terminal de controle dentro da sala de gravação com um "display" e os controles da gravação. É uma coisa bem solitária, sou eu que me gravo, não tem técnico do outro lado. Isso pode soar meioestranho, mas para mim é um momento de solidão boa e construtiva, de intimidade. É o momento de eu estar mais sintonizado e concentrado.

    Todo o tempo em que gravei este trabalho busquei o espírito Caymmiano, ficava ouvindo direto as coisas dele, percebendo as inflexões e adaptando para a minha forma de fazer. Contudo sempre respeitando cada uma das canções, o tempo, a forma, um pouco entrando no arcaico, buscando o profundo de cada canção.
    Como referência, fui ouvindo vários registros dele de uma mesma canção para ver como se deu o nascimento e desenvolvimento dela. Sempre me perguntando como hoje eu faria isso, para mostrar para o ouvinte como é que ela foi concebida.

    Daniela Aragão: E você, que teve a oportunidade de conhecer, se lembra do Caymmi como pessoa?

    Claudio Nucci: Eu me recordo de algumas conversas que tive com Caymmi, na calma das tardes de Rio das Ostras, depois do almoço, quando frequentei sua casa, no início dos anos 80. Na varanda ele se sentava e contava um monte. Eu só ouvia, meneava a cabeça (pra não atrapalhar), viajando naquele momento privilegiado por ser tão comum, normal natural, simples.

    Um dia, me contou como chegou ao Rio e conheceu a Rádio Nacional, falou de seus amigos (Almirante, entre muitos deles, era sempre presente) Caymmi pintava um quadro muito detalhado quando descrevia cada cena vivida. Era pictórico por excelência, um grande contador de histórias!

    Outras vezes, só comentava os fatos cotidianos e sempre tinha uma tirada humorística pra tudo!


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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