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    Daniela Aragão Daniela Aragão 9/03/2015

    Entrevista com a escritora Marilda Ladeira

    "A poesia de Marilda Ladeira é amadurecida, cheia de revolta, coragem, humor e executada com segurança técnica admirável de que resulta a produção de versos cheios de síntese, homofonias, descobertas verbais e de agilidade dada a frase pela supressão quase constante do artigo. A poesia enigmática da autora falou-me agudamente à sensibilidade pelo que contém de senso da morte, da irremedialidade da vida e da transfiguração mágica do ser amado-tornado extra-humano por força de uma inspiração que se traduz num verso intencionalmente desornado, arquiteturalmente romaico e belo na proporção e precisão de sua expressão geométrica. Fiquei muito grato pela revelação dessa poesia". Pedro Nava

    Daniela Aragão: Como começou sua relação com a palavra?

    Marilda Ladeira: As primeiras lembranças que tive com relação a minha vida como escritora me levam à minha infância, ao meu pai. Ele era telegrafista e naquele tempo o telégrafo era a primeira comunicação que tínhamos na história de transmitir à distância as palavras, as notícias.

    No telégrafo cada sinal da batida do dedo no aparelhinho era equivalente a uma sílaba e se formavam as palavras através daquele tecladinho que transmitia para longe notícias pequenas. Essas notícias pequenas é que começaram a dar ideia de como seria o futuro das palavras, ou o futuro da notícia. A palavra para mim é a sensibilidade do enxergar a ser, vamos dizer, vejo um fato com antecedência da notícia.

    A partir de como você iria transmitir a vivência da vida e da palavra, veio a ser através da palavra que o mundo começou a entender que era preciso comunicar-se. As pessoas tinham que se comunicar e as coisas do mundo iriam evoluir. Afim de que toda a humanidade crescesse junto, isso para mim é a ideia que tenho de crescimento individual e crescimento espiritual.

    O homem é corpo e alma, não apenas corpo. Se o homem é dotado de uma alma, sua evolução tem de ser através desta alma e vem a ser para mim a questão do divino. Ele só pode evoluir através do crescimento íntimo das pessoas. É uma busca de um crescimento interno, vamos entender que foi o que Jesus deve ter pregado na terra quando ele apareceu. Há pessoas que não acreditam em nada, acho muito difícil não acreditar em alguma coisa a mais do que nós.

    O ser humano e de um modo geral tudo o que está em torno dele, que seria a natureza, as coisas vivas, isso é de uma grandiosidade, de uma beleza, de um interior tão rico. É muito difícil a gente acreditar que tudo isso tenha surgido do nada. Não consigo entender a vida sem uma criação e essa criação tem que ser maior do que nós e ainda não tivemos notícia de nada realmente provado que seja maior e mais perfeito que a gente.

    Você desde cedo descobriu a palavra como meio de comunicação com o mundo?

    Essa minha questão da palavra e da relação com as pessoas é estranha, pois fui a terceira filha mulher de um casal. Papai tinha vontade de ter um filho homem, quando fui me casar mais tarde, mamãe me entregou uma carta escrita por ele na qual havia escrito para a minha madrinha (irmã dela), comunicando meu nascimento e dizendo que tinha nascido aquela que deveria ser macho. Acho que toda a minha vida foi um acontecimento em resposta a essa frase. Isso descobri muito recentemente. Toda a minha vida eu briguei com esse meu jeito de ser homem.

    Essa sua força explícita na escrita, no pensar o mundo, na ação. Imagino o quão isso ia contra o comportamento tradicional atribuído as mulheres .

    Isso descobri muito recentemente. Fiz treze anos de análise e me lembro de que numa das sessões coloquei essa carta para discuti-la. Disse ao psquiatra que a carta era um problema em minha vida. Desde cedo me obriguei a ser uma coisa que eu não sabia se tinha jeito para ser, ficava também na dúvida se eu respondia ao que meu pai queria que eu fosse. Foi com ele que aprendi a ser a pessoa que eu era e me tornei, cheguei a uma conclusão muito ligada ao que ele falou.

    Como você associa esse "desejo paterno" à sua produtividade, como você transformou em literatura?

    Acho que desde que me entendo como ser humano eu me questionava sobre o porquê de eu ser mulher. Mas eu não podia ter questionado isso, pois não conhecia essa carta na minha infância, o conhecimento dela só foi se dar próximo ao meu casamento. Eu brincava com menino, jogava peão, mexia com bolinha de gude.

    Eu era muito mais amiga de meu irmão que nasceu depois de mim. Eu competia com esse meu irmão como se eu fosse homem, eu andava em muro, subia mangueiras, brincava de super homem, Tarzan. Não tinha nenhuma relação com a palavra, a não ser com papai. Essa relação com a palavra atrelada ao papai durou até eu completar onze anos, tive pouco tempo de contato com ele. Nesse tempo curto tive a impressão de que ele fez de tudo para enfiar na minha cabeça que eu tinha que escrever, que eu tinha que ser escritora, inteligente, aquilo que ele deveria ter sido.

    Ele tinha aptidão para a literatura, sabia todos os poemas de todos os poetas antigos, Olavo Bilac e vários outros poetas parnasianos e românticos. Sabia versos de cor. Com seis anos eu já sabia ler, ele lia para mim "Os Lusíadas", Platão, Dante Alighiere. Com oito para nove anos eu já conhecia a vida de todos esses homens da literatura famosos e trágicos e as vastas dúvidas do ser.

    Fui uma das primeiras mulheres formadas em jornalismo, fiz parte da primeira turma de jornalistas de Juiz de Fora. Papai sempre me aconselhava a estudar. Essa vontade de saber as coisas, pegar as notícias, o que eu tinha que aprender para entender essa ligação que a palavra tinha a ver com o sentimento, a vida, o crescimento das pessoas. Aonde eu tinha que buscar razões, caminhos de ida e caminhos de volta, tenho poemas falando sobre isso. Como seriam os meus caminhos, o que poderia levar uma pessoa a um caminho que seria ou não o caminho dela.

    A sua manifestação escrita inicial foi através da poesia?

    A poesia foi a manifestação literária que primeiramente chegou até a mim através de meu pai, que sabia de cor muitos poemas. Junto com a poesia vieram as demais modalidades de textos. Beatriz, a mulher de "A divina Comédia", a tragédia que foi aquele amor. Esperar que ela pudesse algum dia vir a amá-lo. A tragédia do homem que quer de qualquer maneira trazer a mulher para ele. A minha cabeça não entendia porque a Beatriz tinha que gostar de Dante. Como criança eu pensava naquilo.

    Depois mais tarde vim a ler Descartes, "penso, portanto existo". Eu questionava se não seria existo, portanto penso. Inverti a perspectiva. Dante não queria obrigar Beatriz a gostar dele, na verdade ele não queria era que ela decidisse. O meu pensamento era o contrário, digamos, para obedecer ao meu pai eu buscava o homem na relação de dois.

    A figura de seu pai é sempre presente em todo o seu percurso de criação literária?

    Sim, sempre. Permanentemente na questão da minha escolha profissional. Eu achava que o pai era tudo na vida da gente. Naquele tempo a mulher não valia nada para decidir a vida. Uma das coisas que eu acreditava era que poderia libertar a mulher, pois o que imperava era o homem, a mulher era obrigada a não saber de nada. Isso na minha vida causava inquietação. Com relação ao namoro, o que permitia o meu namorado sair de minha casa para ir a uma casa de necessidades, vamos dizer, um puteiro. A gente era namorado, noivo, ia casar e não podia ter contato nenhum com namorado.

    Você foi tomada por alguma influência do existencialismo? Simone de Beauvoir por exemplo entrou na sua construção do feminino?

    Não. Quando fui escrever nunca pensei sobre o que iria dominar minha escrita. O domínio do ser homem ou mulher na minha escrita não tem especificamente nada voltado para esse sentido. Há predominantemente a questão da mulher poder mandar o tanto quanto o homem no mínimo, ela não podia ceder e nem ficar por baixo. Se tivesse que acontecer uma escolha esta teria que ser bilateral. Todos os dois tinham o mesmo direito de ser o que achassem que fosse melhor para cada um.

    Você entrou na primeira equipe do jornal "Tribuna de Minas".

    Sim, fiz parte do grupo que fundou a "Tribuna de Minas". Eu fazia toda a parte de criatividade do jornal, pois antes de começar a trabalhar nele, tive a primeira agência de publicidade de Juiz de Fora e talvez do interior do Brasil. No período de 1968 a 1970 não há nenhuma mulher dirigindo uma agência de publicidade, exceto eu. Devo ter sido a primeira mulher a dirigir uma agência de publicidade. Isso consta do anuário brasileiro de publicidade. Eu já era mocinha em Belo Horizonte e fiz um estágio na Macanerison em Belo Horizonte, uma das grandes daquele tempo.

    Quando entrei para a secretaria das finanças, também fui trabalhar com os grandes homens daquela época em Belo Horizonte. Trabalhei com Tancredo Neves, Geraldo Alckmin e Alberto Valadares. Eram pessoas de um conhecimento muito grande na cidade e no Brasil. Meu pai era muito ligado ao Juscelino Kubitschek, eles eram amigos, chegaram a fazer juntos até o segundo ano de medicina.

    Casei com 22 anos, nunca falo que casei com 22, mas com 21, não sei por que. Escondia, pois naquele tempo tínhamos que casar cedo, donzela. Tínhamos que aparentar que tínhamos pouca idade e estávamos sendo guardadas para o casamento. Isso eu achava uma aberração da natureza. Minha mãe já começava a colocar para dentro de casa as samambaias às dez da noite e fechar as janelas.

    Era muito difícil ser mulher, você não podia absolutamente nada. Você não tinha o direito de escolher um sapato, uma roupa, tinha aquilo certo para se usar. Você tinha que ter dois sapatos, um para sair e outro para ir a escola. Não era porque a gente não tinha dinheiro, era assim mesmo. Os homens sempre tinham uma certa regalia, eles podiam escolher as coisas e as mulheres tinham que contentar com o que as mães e os pais estabeleciam.

    Você entrou na Tribuna já nos anos oitenta e sentiu muita barreira sendo mulher ?

    Comecei a quebrar as barreiras, me lembro de que nessa questão fui uma das primeiras a brigar no "Clube das Indústrias". O centro industrial era o local em que se reuniam os diretores lojistas e era fechado para as mulheres. Elas não entravam lá, e eu já tinha a agência de publicidade e nisso eu lidava direto com as empresas, portanto tinha que lidar com os homens. A agência antecede a minha entrada no jornal.

    Eu estava grávida da Izabella (a última dos filhos) quando montei a agência "Prevendo" de publicidade. Inaugurei a agência em 1968, uma época de intensa ditadura em que qualquer coisa ligada a comunicação tinha que obrigatoriamente passar pela análise da censura.

    Na ocasião eu trouxe uma peça de Belo Horizonte com Jonas Bloch chamada "Ooo Minas Gerais". Ele inclusive decorou a minha casa que veio a ser uma das primeiras casas de Juiz de Fora que teve sua parte interna revelando de fato a personalidade de uma mulher. As meninas que foram criadas lá dentro junto com as minhas filhas chamavam a minha casa de "Pensão alegre". Eu queria que as pessoas vissem que a minha casa se diferenciava das demais, por ser de uma mulher que queria mudar as coisas.
    Nessa época também criei a "Festa das nações", com todo o pessoal do bairro Bom Pastor e chamei aquele pessoal todo borbulhando de criatividade, Geraldo Moutinho que veio de Belo Horizonte participou ativamente.

    O livro "Preto no branco" reúne uma série de crônicas que você escreveu para o jornal "Tribuna de Minas". Suas crônicas são tocantes pela sua forma de escrita cheia de lirismo. Você é panorâmica e minuciosa na apreensão de cada detalhe da cidade. De certa forma seu livro adquire uma importância imensa como uma espécie de retrato de uma cidade que não mais existe.

    Essas crônicas dizem muito da minha relação com as coisas e com essa parte da censura cobrindo o período dos anos oitenta. José Luiz Ribeiro disse que esse livro vai marcar a história, pois dou os caminhos para a pesquisa. Ele foi meu professor de português na faculdade e me marcou muito.
    Quando coloquei a caneta para escrever a dedicatória para ele, revi a sua caneta vermelha corrigindo os meus trabalhos, principalmente na acentuação e na pontuação. São duas coisas que não dou a menor importância, acho que não faço questão, a palavra para mim já está imbuída de seu som próprio. Ela tem o igual ao contrário, ela tem o avesso.

    Ainda é possível ter Juiz de Fora como pano de fundo de sua escrita?

    Eu tenho muito pesar por ter escrito este livro e não ter avaliado este trabalho mais atentamente na época. Rodrigo Barbosa e José Luiz Ribeiro apontam os vários enfoques e não faço de minhas crônicas histórias. Pego a crônica com um olhar de quem vê o conteúdo como um todo, eu desmancho aquela história do meu olhar. Pego os dados mais confiáveis, não é só a visão daquele momento que está sendo retratada por mim. Dentro daquele momento tem vários enfoques. Há toda uma história desse período que recobre os anos oitenta numa perspectiva de crescimento, o que aconteceu e mais ainda o que não aconteceu. A história de nossa cidade hoje em dia está muito mais para o que não aconteceu, do que para o que aconteceu.

    E os escritores contemporâneos?

    Sou apaixonada por Clarice Lispector, se eu estiver viva até lá meu próximo livro será "Conversa com Clarice". Sou completamente apaixonada pela sutileza de Clarice, que é muito maior que a minha, ela penetra e não deixa a resposta. Às vezes acho que necessito de explicar um pouco daquilo que escrevo. Ela deixa que a pessoa desvende. Há uma escola que nasceu em Mariana chamada Audravismo, é um grupo que tem uma forma de escrever que não importa com o que o leitor interprete. Cada um pensa à sua maneira a respeito do que eu escrevo, do jeito que eu quero interpretar.

    Mais que Umberto Eco com a "Obra aberta"?

    Pois é, mais que Clarice com a obra fechada. Cada um que lê Clarice interpreta de um jeito. Acho por exemplo que a biografia dela escrita recentemente por um americano está toda equivocada. Há um modismo em torno da Clarice atualmente, mas a maioria das pessoas de fato não sabe quem é Clarice. Nem a própria Clarice eu acho que sabia quem era ela. Acho que temos muito em comum na forma de enxergar as coisas. Há muito da marca da perda da mãe da escritora logo quando ela veio para o Brasil.

    Ela sofreu muito a perda da família, posteriormente depois com o casamento com o diplomata e na verdade gostando de uma outra pessoa. A paixão que ela alimentava pelo Lúcio Cardoso e sendo ele homossexual. Clarice não fala sobre isso abertamente, mas tenho um amigo da época do jornal que foi um dos primeiros a fazer um mestrado com base na obra de Clarice. O livro dele foi publicado e é belíssimo, considero o cara que mais entende de Clarice. Inclusive ele me agradece.

    A minha vida foi tão diversificada, com tantos caminhos que trilhei que numa dada hora cheguei a não entender aonde que eu estava e para que caminho ia continuar.

    Este livro que você pretende lançar sobre Clarice Lispector consiste em observações suas sobre as obras?

    É um bate papo ficcional. Faço perguntas e repondo com palavras dela, mas comento as perguntas que faço.

    É fantástico, pois ao mesmo tempo que você relê a obra desta grande escritora experimenta a sua própria linguagem.

    É uma experiência de linguagem. A maioria das pessoas afirma que não entende Clarice, pois ela não afirma nem deixa de afirmar. Ela não faz questão da opinião dos outros, ela expressa o que sente sem prescindir de opiniões.

    Você percorre os romances, contos e crônicas?

    É variado. Algumas crônicas por exemplo não são crônicas, mas reflexões sobre coisas que aconteciam no dia a dia. Eram mais resenhas que propriamente crônicas. Os que dei ênfase são principalmente "A paixão segundo GH", "A hora da estrela" e "Água viva". "A maça no escuro" não consegui chegar num ponto.

    Acho que muito do que Clarice colocou em seus livros revela um histórico de penitência, como se ela estivesse usando aquela forma de dizer para primeiro se penitenciar, quando ela não sabia se acreditava em Deus. O grande problema dela é o acreditar ou não em Deus. Quando Clarice começa a falar da morte ela passa a acreditar em Deus. Acreditar em Deus demanda na autora um tempo muito longo, praticamente ela não afirma se Deus existe ou deixa de existir, ela comenta como se Deus fosse um amigo particular, um personagem.

    É um grande exercício de experimentalismo com a linguagem o que você está elaborando.

    O que Clarice escreve tem duas, três, quatro interpretações. Foge a interpretação comum. Ela sabe, não faz isso de brincadeirinha não, faz de verdade. Ela sabe que a vida tem dois, três caminhos para você escrever sobre ela. A vida é muito doída, eu ainda sofro muito.

    Em seu processo de escrita você elimina muita coisa?

    Não dispenso nada, não destruo nada. Hoje escrevo no computador e acho que isso é que vai acarretar futuramente a perda dos registros. Na hora que tudo pifar acabou.

    Seu livro inaugural é mais voltado para uma dicção poética.

    Meu primeiro livro traz a poesia como condutora e conta com a apreciação de Pedro Nava na abertura. Este livro foi uma espécie de grito de liberdade, como Nava fala tão bem. Lancei- o em 1968 e era tudo absolutamente diferente do que esperava-se de uma expressão escrita de uma mulher.

    Antes de Adélia Prado com "Bagagem".

    Não que eu me ache nada melhor que Adélia Prado, eu apenas via coisas que não aceitava na poesia escrita por mulher. A obrigatoriedade da palavra expressar o sentimento dela, pois a nossa língua é de uma riqueza absurda. Vamos dizer, desde o princípio dos tempos quando Camões escreveu aquela grandeza que é "Os Lusíadas", demorou muito para ser traduzido. Eu já lia Camões desde o tempo do ginásio.

    Não me lembro assim de uma grande poetisa quando eu tinha sete anos, fui encantada por Cecília Meireles, acho que só ela. As demais poetisas vieram muito depois. Não gosto de Adélia Prado, acho que ela deixa o pensamento muito proposital, ela conduz muito a imagem que constrói. Eu não deixo isso acontecer com a minha poesia, eu camuflo intencionalmente.

    Tenho uma profunda admiração pela terra, pois acho que a terra é a aceitação da morte. Eu já tinha isso desde cedo por causa de meu pai, que cedo sabia que iria morrer. Essa sensação primeiro de que a gente é eterno, de que a morte é um lugar comum de nós todos e não há escolha, pois todos iremos morrer, apenas cada um de um jeito.

    A única coisa que é capaz de fazer crescer é a dor, não há outra forma de crescer espiritualmente sem a dor. Eu acho que vivemos uma cultura absolutamente alienada. A liberdade da mulher que procurei encontrar e achava que tinha conseguido não aconteceu, tenho a impressão de que a mulher não entendeu até hoje.

    A liberdade da mulher para mim não estava atrelada a questão de aparecer, mas de crescimento, de aceitação da naturalidade do crescimento. A liberdade não teria que ser uma atribuição só do homem ou só da mulher, ela teria que crescer junto. Isso até hoje não foi entendido. O mundo hoje está voltado quase que para uma tendência do nada, a pessoa não acredita mais na sua força e semelhança com Deus. Esse Deus que é o fruto da beleza, acho completamente desumana essa falta de encarar a sensibilidade de escolha de cada um no sentido da verdade individual.

    Na questão da criação literária, você adentrou também no universo lúdico da infância.

    Acho que a infância é a que está mais disposta a isso, a criar, inventar. É preciso que a educação da criança mude o mais rápido possível para que ela entenda o que é a palavra. A palavra tem que ser entendida com o que ela representa, o que ela é. Se a criança conseguir entender o sentido da palavra, ela irá crescer muito antes do que ela está estudando. Antes de tudo o sentido verdadeiro da vida.

    Você não se prende a gênero?

    A crônica para mim é o gênero mais difícil na literatura. Costumam dizer que o nosso cronista maior é Rubem Braga e que pelo fato de não ter escrito um romance não é escritor. Rubem Braga escreveu o romance do nosso século, ou do nosso milênio, pois ele escreveu todas as crônicas possíveis brasileiras e do mundo. Se pegarem para analisar sua obra, irão deparar com a apreensão da história do mundo nesse tempo em que ele viveu. Principalmente a história do Brasil.

    O que resume a existência da palavra para você em sua vida?

    Eu não sei viver sem a palavra, ela é um condimento indispensável em minha vida. Eu me alimento da palavra e tenho uma certeza muito grande de que eu existo. Sou um ser humano perfeito do ponto de vista da criação. Acho que Deus é responsável e faz parte da criação. Dois mil anos após o desaparecimento de Jesus, não sei dizer se foi bom ou não, acho que a vinda de Jesus e o que ele pregou de sacrifício e esperança são palavras que para mim funcionam como se fossem um foco de luz, esperança, sacrifício, dor, fé, luz. Palavras que revolucionam qualquer tipo de profecia. A palavra é aquilo que conduz você a análise dessa situação o qual nós fomos jogados. "E tu homem quem és? Um sutil grão de areia arrebatado por esse imenso turbilhão de mundos em volta do teu trono alevantado do universo nos seios mais profundos". Eu tinha oito anos quando meu pai dizia isso para mim.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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