Daniela Aragão Daniela Aragão 28/07/2015

Entrevista com a jornalista e escritora Beatriz Coelho Silva (Totó)

Daniela Aragão: Como começou a música em sua vida?

Beatriz Coelho: Acho que a música começou antes de mim. Mamãe contava uma história engraçada, ela dizia que conheceu meu pai dançando com ele o bolero Sempre no meu coração, do compositor cubano Ernesto Lecuona. A partir dali eles se apaixonaram e eu existo por causa de uma música. Desde criança tinha muita música em minha casa, meus pais gostavam muito de música, compravam muitos discos. Meu pai tocava piano, embora não fosse um virtuose do instrumento.

Daniela Aragão: Nesse ambiente estimulante musicalmente floresceu algum músico?

Beatriz Coelho: Meu irmão aos treze anos já tocava num conjunto de baile de Juiz de Fora, que se chamava Sambalanço. Nós morávamos numa casa na rua Doutor Villaça e o ensaio acontecia por lá, pois tínhamos uma sala de música com piano. Sempre convivi muito com os músicos amigos de meu irmão.

Daniela Aragão: A música acontecia não somente na sua casa, mas também nas proximidades não é?

Beatriz Coelho: Com certeza. Nessa mesma rua tinha um conjunto de rock chamado The Devils, que depois virou Homens SomQuatro. Sempre vivi no meio de música. Não tenho talento para música, mas tenho um irmão que toca e uma irmã que canta muito bem. No entanto tornou-se médica e não quis prosseguir nesse caminho do canto.

Daniela Aragão: Esse encontro com os músicos foi se ampliando ?

Beatriz Coelho: Quando me tornei adolescente comecei a frequentar o universo dos músicos de Juiz de Fora. Bilinho, Chico Teixeira, Márcio Hallack, Marcio Itaboray, Guto Gomes. Andávamos para cima e para baixo juntos até eles criarem o conjunto A Pá. A criação deste grupo se deu na época em que eu estava me mudando para o Rio de Janeiro a trabalho.

Daniela Aragão: Você foi para o Rio de Janeiro para trabalhar como jornalista?

Beatriz Coelho: Sim, quando me mudei pra lá as únicas pessoas que eu conhecia eram Alceu Valença, que ainda não tinha estourado com Coração Bobo, o maestro Jaime Álem e a mulher dele, a cantora Nair de Cândia. O emprego que arrumei era para ser redatora de política do jornal O Globo, isso significa que eu saía da redação por volta de meia noite, uma hora da manhã. Então, eu saía do jornal e me encontrava com músicos que trabalhavam na noite, tocando em boates, gafieiras e clubes de jazz.

Daniela Aragão: A convivência com os músicos então só foi ampliando.

Beatriz Coelho: Através Jaime Álem e Alceu Valença, fui conhecendo outros músicos que tocavam na noite carioca. Eu tinha um carro, saía do trabalho e existiam umas três ou quatro boates entre Ipanema e Leblon como a Special e 706. Os músicos naquela época tocavam uma hora e meia e folgavam uma hora e meia, então eu chegava, recolhia alguns amigos, íamos para o Baixo Leblon no intervalo do set, depois eu devolvia cada um e ia para casa dormir.

Daniela Aragão: Nesse contratempo você foi morar na Europa não é?

Beatriz Coelho: Exatamente. Estive por lá no período de 1980 a 1982, quando retornei Leonel Brizola havia vencido a eleição e eu ainda mantinha meus contatos no jornal O Globo. Ana Maria Bahiana, que era crítica de música do jornal, largou a função, pois foi convidada para dirigir o MIS (museu da imagem e do som). Fui então chamada para substituí-la como repórter de música no jornal entre os anos de 1983 a 1986.

Em seguida fui para o jornal Última hora. Numa época fiz crítica musical também. Meu contato anterior com músicos me ajudou muito a fazer este trabalho.

Daniela Aragão: Fale um pouco sobre sua experiência no O Globo.

Beatriz Coelho: Foi muito bacana. Recordo-me de que uma das primeiras pessoas que entrevistei foi o Ezequiel Neves, produtor do Barão Vermelho na ocasião. Ele estava deixando de ser crítico de música para ocupar a função de produtor da banda. Achei-o muito metido, pois disse assim “estou adorando não ser mais crítico de música, pois não existe nada melhor do que você entrar na loja que quer e comprar o disco que quer e ouvir”. Depois, vi que ele tinha razão.

Daniela Aragão: Ele deve ter dito isso supostamente pelo volume de discos que recebia para ouvir.

Beatriz Coelho: Quando eu escrevia sobre música no Globo recebia de trinta a quarenta discos por semana. Tinha que ouvir todos, pois mesmo no meio deles sempre aparecia muita coisa boa.

Daniela Aragão: Você ouvia tudo?

Beatriz Coelho: Sim, era meu trabalho. Ouvia todos. Eram discos que vinham de gravadoras grandes, gente independente, gravadora pequena. Eu era repórter especializada no assunto, tinha por função estar atenta a tudo o que estava acontecendo. Não é como hoje em que você vai até a internet e ouve uma música do cara.

Daniela Aragão: Não dava era para escolher entre montanhas de discos o que você queria ouvir não é?

Beatriz Coelho: Não dava tempo para ouvir o que eu gostava. Aconteciam coisas engraçadas, uma pessoa que você nunca ouviu falar deixava um trabalho com uma capa feia, uma apresentação visual nada agradável, mas com um conteúdo musical maravilhoso.

Daniela Aragão: Você tinha autonomia para escrever sobre o que desejasse em meio às escutas diversas?

Beatriz Coelho: Não total. Mas eu conseguia, sempre fui capaz de dizer “isso é bom e vamos fazer uma matéria”. Sempre tive uma credibilidade juntos aos meus chefes e editores para fazer tal tipo de coisa.

Quanto a esses lances de credibilidade, certa vez aconteceu algo engraçado. Um rapaz que era oficial da PM me entregou um disco de choro e no meio da conversa falou que se eu fizesse uma crítica que lhe agradasse eu teria certas facilidades com a PM. Fiquei muito aborrecida com isso. Imaginei qual facilidade eu teria com a PM se não sou bandida e nem estávamos mais num contexto de ditadura.

Por dever de ofício, ouvi o disco que era muito bom. O homem tocava super bem, tinham uns choros muito bons. Fiquei na dúvida, se eu fizesse uma crítica boa o cara poderia achar que eu estava querendo facilidades com a PM, mas se eu não fizesse seria uma sacanagem, pois o PM era um bom músico. Cheguei então no meu chefe, que na época era o Luiz Pimentel e pedi uma opinião. Ele sugeriu-me fazer a matéria e não comunicar. Em geral eu sempre avisava ao artista quando a matéria saía.

Daniela Aragão: Suas matérias saíam semanalmente?

Beatriz Coelho: Não tinha uma matéria semanal, quase todos os dias eu publicava, pois não cobria somente música. No Globo foi basicamente música, na Última Hora foi mais música que outras coisas e no jornal O Estado de S. Paulo, entre 1997 e 2007, era música e todas as outras coisas, até porque tinham críticos de música de São Paulo.

Daniela Aragão: Emocionante deve ter sido sua entrevista com Tom Jobim não é?

Beatriz Coelho: Tom Jobim tinha vendido Águas de Março para ser jingle da Coca Cola e me mandaram escrever sobre essa história. Pediram a princípio que eu ligasse para o Tom, imagina como fiquei. Na época O Globo não era o jornal mais prestigiado do país, era o Jornal do Brasil. Liguei para o telefone que me deram e atendeu ele mesmo, com sua voz característica. Pensei, não estou falando com deus.

Diante daquela voz e não acreditando que poderia de fato ser o Tom, pedi que o chamasse e ele falou “Sou eu minha filha”. Tom tinha uma característica muito engraçada, por exemplo, eu perguntava por quanto ele vendeu “Águas de março” e ele falava do passarinho, do jardim botânico e chegava ao ponto da pergunta sempre com tudo se ligando. Fiquei falando com ele durante uma hora e meia. Não investiu o dinheiro, pegou o cachê e levou todos os músicos para Nova York. Muito bem humorado, depois de uma hora e meia, falou: “Não posso te dar essa entrevista agora não, pois na hora que tocou o telefone eu estava saindo para ir ao shopping com a minha mulher, mas me liga amanhã que a gente continua a entrevista.”

Daniela Aragão: E você ligou?

Beatriz Coelho: Não tive coragem, mas no terceiro dia chegou um recado para mim na redação dizendo que Tom havia me ligado para finalizarmos a entrevista. Daí conversamos mais um pouquinho, mas Tom era de lua e já nessa segunda entrevista falou muito pouco.

Daniela Aragão: Fale sobre a biografia que escreveu sobre o músico Wagner Tiso.

Beatriz Coelho: Nos anos 2000, havia a coleção Aplauso, publicada pela editora da Imprensa Oficial do estado de São Paulo, sobre a qual eu sempre fazia matérias. São livros muito bons contando a trajetória de vida e criação de artistas de vários segmentos. Certa vez o cineasta Rubens Edwald Filho, que era curador da coleção, me sugeriu escrever um livro. Fiquei pensando até me decidir por Wagner Tiso, um artista muito querido por mim e tantos ouvintes e que eu já conhecia relativamente a obra e nutria grande admiração.

Foi um trabalho muito prazeroso de fazer. Embora eu não tivesse nenhuma formação em história, Wagner, por ser uma pessoa muito querida, me facilitou muito o processo de escrita. Todas as pessoas próximas a ele que eu buscava, foram me abrindo portas.

Daniela Aragão: O cineasta Ruy Guerra trouxe uma contribuição inesquecível não é?

Beatriz Coelho: Os deuses e os mortos, de Ruy Guerra foi o primeiro filme em que Wagner Tiso fez a música. Quando liguei para o Ruy, ele me disse que só possuía uma única cópia deste filme em vídeo cassete, na verdade a única que existia. Mesmo assim ele me emprestou, pois era para contribuir com o livro sobre o Wagner. Saí com aquela fita pela rua como se estivesse carregando um cálice sagrado.

Daniela Aragão: Quanto tempo demandou a escrita do livro?

Beatriz Coelho: Gravei trinta horas de entrevista com o Wagner.

Daniela Aragão: Um dos pontos altos do livro é o tom coloquial que o aproxima do leitor.

Beatriz Coelho: A característica dessa coleção é manter o fluxo como se o artista estivesse contando na primeira pessoa. Sendo assim, temos que escrever na sintaxe do entrevistado, com Wagner Tiso foi fácil por ambos sermos mineiros. O jornalista Xico Teixeira me ajudou muito me sugerindo que eu fosse escrevendo à medida que ia colhendo as informações. Assim eu ia tendo uma ideia melhor durante o percurso e sentindo a evolução, os possíveis buracos que necessitavam ser preenchidos.

Daniela Aragão: Você fez entrevista somente com ele?

Beatriz Coelho: Fiz com a Giselle Goldoni, que era sua mulher e produtora. Ela foi produtora de Wagner Tiso durante a maior parte de sua carreira, de 1977 até há poucos anos.

Daniela Aragão: Como Wagner Tiso é um dos músicos que mais compôs para cinema, você recorreu a outros cineastas além de Ruy Guerra não é?

Beatriz Coelho: Entrevistei os diretores dos filmes em que ele compôs as músicas. Tudo isso aparece contado na primeira pessoa, por exemplo, Wagner fez vários filmes com o cineasta Walter Lima Junior como Inocência, Os desafinados, Chico Rei, Ele, o boto. Além de músicas para televisão e televisão.

O que costumava acontecer é que Wagner às vezes comentava algo sobre Inocência e na verdade na confusão da memória se referia a Ele, o boto. Tudo isso eu tinha que verificar. É complicado lembrar os fatos com exatidão.

Daniela Aragão: Você entrevistou o Walter Lima,que devia saber os detalhes por ser o autor do filme.

Beatriz Coelho: Walter Lima disse que se sentia um músico frustrado e o Wagner queria fazer cinema. Então eles diziam que alguns filmes eram considerados ruins, mas tinham trilhas maravilhosas, como no caso do clássico americano Sansão e Dalila.Isso o Walter havia me contado, mas ao transcrever para a redação eu transpunha para a fala do Wagner, pois era um pensamento de ambos.

Daniela Aragão: Você teve acesso a toda a filmografia de Walter Lima, da qual Wagner Tiso fez a trilha?

Beatriz Coelho: Revi todos os filmes, exceto a um feito em Portugal. Silvio Tendler também me contou fatos muito interessantes que o Wagner não se lembrava. O jornalista e pesquisador Sérgio Cabral, pai do ex-governador do Rio de Janeiro, que é meu amigo de longa data, quando soube que eu estava escrevendo este livro me deixou o arquivo pessoal dele à disposição. Tudo isso então contribuiu bastante.

Daniela Aragão: E a proposta para escrever um livro sobre a Orquestra Tabajara e Severino Araújo?

Beatriz Coelho: Nos anos 1980,quando eu estava no Globo, andava muito com o pessoal do Circo Voador, fazia matérias e tal. Tinha a Orquestra Tabajara que fazia a Domingueira Voadora. No fim dos anos 1990, quando saí da TV Globo, onde fui roteirista do Video Show durante nove anos, o produtor da Domingueira Voadora, Fernando Libardi, me convidou para escrever a história da Orquestra Tabajara e de Severino Araújo. Eu faria o livro e ele conseguiria os patrocínios e assinaríamos a autoria juntos.

Daniela Aragão: Como foi entrevistar Severino Araújo?

Beatriz Coelho: Pois é, fui entrevistá-lo, só que sua vida não era marcada por nenhum fato trágico ou que eu considerasse marcante. Ele era um operário da música com uma trajetória de vida normal e, naquela época, eu achava que vidas normais não davam bons livros. Hoje penso diferente. Então, aconteceu um fato interessante: uma amiga que me contou que havia conhecido seu marido nos anos sessenta num baile com a Orquestra Tabajara, em Governador Valadares. Pensei, pronto, achei o livro, vou contar a história dos bailes, que Severino Araújo vinha fazendo desde os anos 1930, ou seja, sete décadas.

Daniela Aragão: Daí então você iniciou uma pesquisa pela história dos bailes?

Beatriz Coelho: Consegui conversar com Celso Furtado, que me relatou como eram os bailes nos anos 1930, em João Pessoa, onde Severino Araújo era o maestro da Orquestra Tabajara e Furtado, um jovem estudante que frequentava seus bailes. Colhi o testemunho de um homem que viveu nos anos quarenta. O projeto estava prosseguindo, mas no meio do caminho o Fernando Libardi morreu e não consegui levar adiante. Fiquei frustradíssima.

Daniela Aragão: Após o sucesso do livro sobre Wagner Tiso aconteceu mais algum convite da coleção Aplauso?

Beatriz Coelho: Rubens Edwald Filho me propôs escolher mais um e elegi Alceu Valença. Não foi tão tranquilo porque ele é pernambucano e eu tive dificuldade de escrever com a sintaxe dele, da forma como ele fala.O livro era narrado na primeira pessoa e Alceu não se reconhecia no texto e refazia tudo. Como o livro ficou mais com a cara dele, propus-lhe que ele próprio assinasse o texto como autor e eu como pesquisadora. Alceu topou, mas a coleção acabou. Acho que é um projeto para os próximos anos.

Daniela Aragão: Como você vê hoje o espaço da crítica musical nos jornais?

Beatriz Coelho: Parei de fazer crítica, pois na época em que eu escrevia você tinha trinta, quarenta e sessenta linhas quando era algo fora do comum. Um disco significa pelo menos seis meses na vida de uma pessoa. Mesmo eu falando muito bem do disco, não me considero capaz de resumir um período de seis meses a um ano da vida de uma pessoa em trinta linhas. Mesmo que eu diga que o disco é maravilhoso e estimule o leitor a comprar, considero muito pouco.

Hoje a crítica se tornou uma coisa muito rasa no geral, exceto no teatro. A crítica é você situar a obra dentro de um contexto e hoje em dia num jornal você vê “gostei”, “não gostei”. Crítica não é isso.

Daniela Aragão: A crítica atualmente está mais do que nunca a serviço do mercado e acredito que isso compromete a verdadeira opinião dos críticos. O que vende é em muitos casos o que deve ser obrigatoriamente exaltado, sem que muitas vezes de fato a obra tenha uma valor significativo.

Beatriz Coelho: Discordo disso.Não acho que a crítica está a serviço do mercado nem que seja obrigada a exaltar o que vende. Até porque as críticas são feitas e publicadas antes de o disco ser posto à venda. Nem acho que a opinião dos críticos é comprometida. Aliás, opinião não é crítica. São coisas diferentes. Vejo, pelo contrário, que muitos discos ou artistas exaltados pela crítica não têm resultado nenhum de venda. O que ocorre é um patrulhamento muito grande com relação a certos artistas. E função de crítico não é julgar por seu gosto pessoal. Se o artista acredita no que faz, faz com esmero e seu público gosta, o problema não é da música, mas do crítico que não gosta daquilo. Gosto cada um tem o seu e todos têm que ser respeitados.

Daniela Aragão: Muitas vezes já aconteceu de artistas execrados pelos críticos na verdade serem sucesso de público.

Beatriz Coelho:A jornalista e escritora Léa Penteado, em seu livro A verdade é a melhor notícia, diz que quando era assessora de comunicação no Canecão, tinha um problema constante. O artista que dava mais público era Oswaldo Montenegro e, no entanto, era massacrado pela crítica.

Daniela Aragão: Diante disso como você entende a função da arte?

Beatriz Coelho: Para mim a função de toda arte, mesmo que seja uma arte de protesto mostrando situações terríveis é apontar um caminho, te fazer entender o mundo. Se a pessoa vai entender o mundo com o Xitãozinho e Xororó, com Tom Jobim, Ramones ou Bill Evans, isso é direito dela.

Daniela Aragão: Você não acha que hoje há uma imposição massificadora?

Beatriz Coelho: Considero que hoje há infinitamente menos imposição. Você não tem somente a televisão e o rádio para buscar música, tem a internet, youtube. Antigamente havia a gravadora que lançava o disco, que era um produto caro e não existiam outras alternativas para sair fora daquilo. Hoje em dia você grava em casa, no seu computador ou pequeno estúdio e joga na internet. Hoje é mais fácil para a pessoa procurar seu próprio caminho, mas dá trabalho.

Daniela Aragão: Transformou-se toda a relação do artista com a execução, venda e distribuição do produto “disco” a partir da substituição da gravadora pelo independente.

Beatriz Coelho: Exatamente, dá trabalho. Pois a pessoa tem que vender, correr atrás para solucionar as questões de direitos autorais.

Daniela Aragão: Então há uma democratização muito maior?

Beatriz Coelho: Claro. Há uns quinze anos li uma entrevista do presidente mundial da Warner, ele dizia que a globalização econômica significou uma regionalização cultural. Desde os anos trinta até os anos oitenta, noventa havia um artista que vendia no mundo inteiro. Beatles, Frank Sinatra. Rolling Stones, Elvis Presley, Frank Sinatra. Eles faziam contrato, por exemplo, de dez milhões com a gravadora e vendiam no mundo inteiro. Os últimos artistas desse segmento foram Madonna e Michel Jackson, depois não conseguiram fazer mais nenhum.

Daniela Aragão:Como se dá então essa regionalização no mercado fonográfico atual?

Beatriz Coelho: Hoje em dia cada país tem a sua Madonna, seu Frank Sinatra. Aqui no Brasil temos a Ivete Sangalo, que seria a nossa Madonna, aquela artista que agita, faz grandes shows. Só que a Ivete Sangalo não vai vender na China, pois a China tem a sua Ivete Sangalo. Angola tem a sua.

Antigamente para se produzir um clip para a televisão tinha que se fazer um filme que custava caro. Além disso, ainda era obrigatório pagar a televisão. Hoje em dia o sujeito faz, coloca no youtube e vai divulgando entre os amigos.

Daniela Aragão: Parece-me que há um ressentimento digamos dos ícones formadores ou que fizeram parte da história da nossa MPB. Os artistas que ainda estão aí e que passaram pela Bossa Nova, por exemplo. Comenta-se que as pessoas não conhecem mais Tom Jobim.

Beatriz Coelho: Conhecem sim, vá num baile, numa roda de samba. As pessoas cantam Wave, Chega de saudade.Entre numa gafieira, numa discoteca e coloque Anphibious, do Moacyr Santos, todo mundo vai sair para dançar.

Daniela Aragão: Como você vê a recepção a Bossa Nova em seu próprio território de fundação e consolidação?

Beatriz Coelho: O que acontece no Rio de Janeiro é que o público não sai de casa para ouvir Bossa Nova. Acho que hoje em dia o que está faltando é a divulgação das pessoas novas, é difícil um compositor novo chegar e mostrar o seu trabalho. É muita gente fazendo música e a produção musical é algo muito trabalhoso. Um som bonito, com arranjo bom, um bom produtor, tudo isso custa caro.

Daniela Aragão: Aproveitando essa conversa sobre produção independente que rende bastante, soube que você está escrevendo um livro e publicando no calor da hora na internet. É por aí?

Beatriz Coelho: Há muitos anos escrevi um pequeno romance E ela nunca me deixou ir embora...É uma história que se passa toda no meio musical, em que conto sobre pessoas que conheci. Publiquei num site especializado e tive mais de mil e quinhentos leitores. Dizem que é um número muito bom porque, no Brasil, dois mil leitores é bom, cinco mil, um sucesso. Está lá ainda, no site.

Agora estou lançando o livro Negros e Judeus na Praça Onze. A história que não ficou na memória, pelo sistema de crowdfunding, a vaquinha eletrônica. O livro, que não é de ficção, conta como esses dois grupos conviveram no bairro carioca, quando o samba, o choro e as escolas de samba estavam nascendo. Em 20 dias consegui o piso para garantir a publicação e as vendas ainda continuar no site da editora. Quem comprar recebe o livro em outubro.

Daniela Aragão: Outra via em que se discute a música é o espaço acadêmico.

Beatriz Coelho: A obra acadêmica não circula, deveria circular. Fiz duas pós- graduações, um dos motivos que me levou a academia foi justamente contestar a linguagem acadêmica. Os jargões acadêmicos são muito limitadores. No entanto há pessoas importantes nessa área como José Miguel Wisnik e SantuzaCambraia, que nos deixou precocemente há pouco tempo.

Daniela Aragão: Você chegou a participar de uma associação de pesquisadores de música popular não é?

Beatriz Coelho: Não, eu não participava da Associação, às vezes cobria suas reuniões, quando trabalhava no jornal O Globo. Faziam parte Zuza Homem de Mello, Sérgio Cabral, Ary Vasconcellos, Jairo Severiano e José Ramos Tinhorão. Jairo Severiano foi a primeira pessoa que eu soube que tinha um computador em casa, ele colocou todas as informações musicais coletadas por ele ao longo de suas pesquisas. Ele era funcionário do Banco do Brasil, mas pesquisava profundamente a música popular. Eles eram muito generosos, mas aconteciam brigas horrorosas, pois Sérgio Cabral achava que tudo era música popular brasileira e Tinhorão não considerava nem Milton Nascimento música popular brasileira.

Daniela Aragão: Tem algo que musicalmente hoje está te tocando?

Beatriz Coelho: O bar Carioca da Gema, que foi a primeira casa de samba da Lapa, aberta há 15 anos, faz um concurso de novos sambistas anualmente. Eles recebem material do Brasil inteiro e dez são escolhidos. O júri é formado por jornalistas, compositores. Os que tiram o primeiro e segundo lugar fazem uma temporada na casa e ganham um bom cachê. Isso lhes dá oportunidade de ficarem conhecidos no circuito do Rio de Janeiro. Tenho visto muitos sambistas ótimos aparecendo. Deve haver outras portas de entrada com esta em outros gêneros musicais.

Daniela Aragão: Fale mais um pouco sobre Negros e Judeus na Praça Onze.

Beatriz Coelho: O livro foi monografia de conclusão de uma especialização em história na UFF (Universidade Federal Fluminense). Entre os anos 1900 e 1940, negros filhos e netos de ex-escravos e os judeus que fugiam de perseguições na Europa e Oriente Médio foram morar na Praça Onze. Conviveram muito bem no mesmo espaço, tanto que há muitos sambas citando judeus “Comprei meu terno Salomão a prestação”, coisas assim.

Daniela Aragão: Como você teve acesso essa história?

Beatriz Coelho: Havia um líder da comunidade judaica no Rio de Janeiro chamado Samuel Malamud. Ele era tão rico, que quando morreu foi feito um leilão de seu acervo que continha mais de duzentas obras incluindo Portinari, Picasso e muitos outros importantes. Sua filha realizou uma exposição sobre o pai e fui fazer uma matéria. No meio da conversa, me contou que seu pai viera para o Brasil nos anos 1920 e fora morar na Praça Onze.

Daniela Aragão: Essa desconhecida harmonia entre negros e judeus lhe instigou a pesquisa?

Beatriz Coelho: Com certeza. Fui inicialmente pesquisar se havia existido algum tipo de conflito e não encontrei nenhum registro policial. Daí fui descobrindo que na verdade não eram duas culturas diferentes que conviviam, mas muito parecidas. Apesar de fisicamente negros e judeus apresentarem traços distintos, tinham muitas semelhanças.

Daniela Aragão: Você poderia detalhar algumas semelhanças?

Beatriz Coelho: Negros e judeus vinham de um passado trágico, a escravidão e as perseguições. Não eram bem vistos pela sociedade por não serem católicos, vinham “com uma mão na frente outra atrás”. Alguns judeus chegavam apenas com a roupa do corpo. A mulher não tinha que ser virgem para casar, a virgindade não era um valor no mercado matrimonial. A mulher tinha um papel preponderante nas famílias, não chegava a ser um matriarcado, mas não era totalmente submissa ao marido como na sociedade católica, cristã, tradicional. Ambos adoravam música e festa.

Daniela Aragão: Há algum traço que diferencia as duas culturas?

Beatriz Coelho: O diferenciador é que os judeus possuíam a tradição da escrita, a organização formal. Por exemplo, na Praça Onze tinham uns dez jornais e associações judaicas de diversas colorações políticas. Já os negros não possuíam a tradição da escrita, nem a organização formal, embora muitos deles fossem cultos e as escolas de samba e ranchos fossem um exemplo de boa organização coletiva. Existe uma lenda de que os judeus pagaram os primeiros desfiles das escolas de samba, pois era um comércio. Não tive acesso a nenhum dos livros de ouro, o que não quer dizer que não existam, né? Naquela época chamavam-se todos os judeus e árabes de turcos, tanto que Cartola falou: “quem pagou este samba foi um turco lá da Praça Onze”. Esse cara era árabe, judeu? Não se sabe.

Daniela Aragão: O livro é narrado sob uma perspectiva absolutamente histórica?

Beatriz Coelho: Você tocou num ponto crucial, minha orientadora na época sugeriu que eu desse continuidade a esse trabalho numa dissertação de mestrado ou tese de doutorado, mas as circunstâncias da vida me encaminharam para outras coisas. Contudo, seria necessário que eu colocasse personagens, gente que viveu lá. Consegui dois judeus e uma negra, mas não os identifiquei a pedido deles.

Daniela Aragão: O que é a música para você?

Beatriz Coelho: Música para mim é diversão, prazer, entretenimento. Conta minha vida, me explica a vida. Quando Herbert Vianna sofreu o acidente foi chegando gente sem parar na porta do hospital, um cara colocou na janela do prédio em frente um cartaz “muita força”. De repente, um amigo dele falou: “Aí, já estão os abutres em cima do Herbert”. O pai de Herbert contestou: “Você está enganado, não são abutres. São pessoas que gostam dele, que o consideram um amigo porque sua música embalou seus momentos bons e ruins. Explicou-lhes o que essas pessoas sentiam.” Para mim, esta é a função da música... da arte, em geral.


Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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