Daniela Aragão Daniela Aragão 19/10/2015

Entrevista com o poeta e professor Anderson Pires

Daniela Aragão: Como se deu a sua descoberta da palavra?

Anderson Pires: Com a literatura na verdade por volta dos meus quatorze para quinze anos. Sempre gostei muito de história em quadrinhos e eu tinha uma coleção de bonecos, super heróis. Eu inventava muitas histórias e já nessa época assistia a muitos filmes. Então a partir dos filmes e de minhas brincadeiras com os bonecos fui criando minhas próprias histórias. Meu tio advogado, já falecido, foi meu primeiro crítico.
Ele me deu uma máquina de escrever Remington e me disse que estava se tornando meio ridículo eu brincar com bonequinho, um cara grandão dizia ele, pois eu era já muito alto. Ele então sugeriu que eu começasse a escrever as histórias que criava nas brincadeiras com os bonecos. Comecei a escrever a partir daí e já mostrar. Nunca fui muito de esconder. Fazia os fanzines na escola. Ía nos Xerox, pedia apoio e distribuía. Eu gostava, mas meu tio era o meu pior crítico, apontava erros de concordância, pontuação etc. Eu pegava muito o que envolvia o cotidiano e inseria coisas que não tinham muito a ver. Por exemplo, acontecia um fato na escola, eu descrevia esse fato, mas só que inseria na história um alienígena por exemplo. Eu fazia seriado deixando os leitores na expectativa do que viria acontecer.

Daniela Aragão: Esse tipo de narrativa da experiência cotidiana misturada a certo tom fantástico permaneceu por muito tempo?

Anderson Pires: Lá para os meus dezenove, vinte anos a coisa ficou bem mais séria. Nesse período eu praticamente abandonei a escola, ia somente para socializar. Tinha sido um aluno “nerd” até o segundo ano científico, no terceiro tive uma mudança muito drástica. Já estava saindo da adolescência, entrando na juventude.

Esse movimento se dava em Angra dos Reis, cidade em que nasci e vivi durante a juventude.  Eu ainda era virgem nessa época, embora já começasse a sair com algumas meninas. Os relacionamentos tinham uma certa solidez, não havia muito de sexualidade, mas de cumplicidade, algo bem diferente do que hoje vivenciamos. Estava começando a beber. Peguei um período de história em quadrinhos com autores fabulosos como New Gamon, Alan Moor, Frank Millen, Laerte, Angeli, Gonzale. Eu lia muito a revista Bizz também e tinha uma alta gama de informação sobre contracultura que rapidamente foi me levando para os beatniks. Bukovsky... tomei um tapa com Dostoievsky em “Crime e castigo”, principalmente “Os irmãos Karamazov” que levei seis meses para ler.

Daniela Aragão: Por meio de seu tio você cedo já foi dialogando com um  interlocutor crítico.

Anderson Pires: Em Angra não tinha livraria. Meu tio, que era o meu principal crítico, fazia hemodiálise três vezes por semana num hospital no Rio de Janeiro. Eu o acompanhava sempre nessas idas ao hospital que duravam de onze da manhã até as quatro da tarde. Nesse intervalo eu costumava rodar pelo centro do Rio, visitar as livrarias. Comecei a tomar contato com autores que até então não tinha acesso em Angra.
Vim de uma cultura meio underground, punk, faça você mesmo era o lema. Como eu não tinha grana para comprar os livros, às vezes “roubava” um na cara dura. A livraria da Estação Botafogo era o meu alvo predileto, comprava o livrinho de promoção, mantinha minha sacola nas mãos e ia colocando os outros caros. Um dia foi engraçado, pois meu tio foi olhando e somando os preços e tive que justificar para descrédito dele que minha mãe e meu pai tinham me dado o dinheiro. Foi neste processo que comecei a pensar a literatura como um tipo de existência.

Daniela Aragão: A literatura não desponta em sua vida  exclusivamente como refúgio, sua catarse solitária. Poderíamos dizer que desde o princípio ela existiu aliada a vivência e participação no mundo que transcende os limites da folha de papel?

Anderson Pires: Nunca fui um cara anti- social. Eu andava com o pessoal da escola, que era uma galera que lia revista Biss e ouvia rock. Depois a noite eu jogava sueca com um bando de caras malandros ao som de pagode. Isso não me implicava nenhum conflito, pois ao mesmo tempo em que sou um cara muito social, sou também reservado para algumas coisas. Sempre tive meu mundo próprio.

Daniela Aragão: Parece-me que a literatura lhe deu mais armadura para lidar com os contrastes da existência. 

Anderson Pires: A literatura para mim foi um modo que encontrei muito naturalmente de me colocar em determinados setores que eram muito radicais. Quando terminava a pelada com os colegas, a brincadeira era porrada, já na escola a brincadeira era acertar o músico que tocou na faixa tal dos Stones. Então eram ambientes muitos diferentes, ao mesmo tempo eu tinha certa noção de que não me integrava inteiramente em nenhum dos dois.

Daniela Aragão: Você transitava muito bem entre os dois universos não é?

Anderson Pires: Exatamente, eu possuía justamente uma possibilidade, que era circular pelos dois ambientes. Tentei muitas vezes integrar as tribos fazendo festas em minha casa, mas ninguém se misturava. Eu circulava pelos dois lados e não estava disposto a me restringir exclusivamente a nenhum dos dois, pois achava cada um isoladamente limitado. 1986 foi o ano tanto do rock nacional, quanto do pagode. Zeca Pagodinho, Bezerra da Silva, Almir Guineto. A literatura de certo modo me deu auto-confiança, eu conseguia me expressar através dela,  que me proporcionava certa ética de existência. Me trouxe uma noção de identidade muito cedo, descobri que meu campo seria por meio da literatura. 

Daniela Aragão: Fale sobre suas primeiras leituras de poemas em público.

Anderson Pires: Voltei para Angra, ficava na casa de minha tia, concluía o segundo grau e aos finais de semana voltava para Itaguaí. Eu tinha uma banda com meus amigos em Itaguaí e escrevia poemas. Eu fazia umas leituras para abrir a banda. Tinha o Dinho na guitarra e eu na voz. Tudo fluía bem, fizemos apresentações em Angra. Em Paraty nos apresentamos na Festa do Divino, o bar era um Casarão. Quando terminei a leitura pulei em cima de uma mesa e saí pela janela ouvindo a galera gritar UauUau. Dei a volta pelo casarão e tentei entrar novamente no bar. Só que o dono me proibiu, no mesmo instante tinha um rapaz ao lado com a namorada e que se amarrou na apresentação. Ele era dono de um bar no Rio de Janeiro chamado Garas, lá na época estavam tocando o pessoal do rock alternativo. Ele nos propôs uma terça feira no bar dele.

Daniela Aragão: Então a performance valeu a pena.

Anderson Pires: Eu estava lendo Artaud e meus colegas achavam meio escatológico. Acreditavam que não estávamos preparados ainda para uma apresentação no Rio e então não fizemos. Na minha cidade eu já estava sendo visto como uma figura meio folclórica, me chamavam de poeta marginal e eu odiava isso. Lá em Itaguaí você poderia ser preso ou morto se dissesse uma coisa dessas, era 82, enquadrão da morte. A palavra marginal não era legal. E eu não tinha nada a ver com esse rótulo.

Daniela Aragão: E a entrada no curso de Letras?

Anderson Pires: Um amigo de Angra me ligou dizendo que ele e mais uns três amigos nossos iriam fazer vestibular em Juiz de Fora e me convidou, pois precisavam de mais um para dividir apartamento. Eu conhecia Juiz de Fora só por ser a cidade do Itamar Franco e pensava ser aqui uma cidade histórica (risos). Fiquei muito animado, pois tinha passado por Ouro Preto e achado a cidade fantástica. Por desconhecimento às vezes pensamos em Minas Gerais e colocamos tudo num bloco só e não é bem assim. Na Universidade fiz as amizades que me definiram muito bem na cidade e seguem fortes até hoje. Fiquei amigo de André Monteiro, Erika Kelmer, Elza. A Ana Carolina (a cantora famosa) foi minha cicerone durante os meus primeiros meses na cidade. Cheguei muito leve, ficava o dia todo na Universidade e assim aconteceu um movimento semelhante ao ocorrido em Angra. Eu conhecia desde as pessoas mais voltadas para a arte como o André Monteiro e a Ana Carolina, até pessoas de outras cidades.

Daniela Aragão: A universidade possibilitou a abertura de diálogos literários?

Anderson Pires: Meus horizontes ampliaram. Meu direcionamento sempre foi para a literatura, nunca achei que seria capaz de fazer outra coisa. Tanto que minha carreira então foi acontecendo sem muitos tropeços, sem muitas decepções.

Daniela Aragão: Você se tornou professor de literatura da UFJF e deu continuidade a escrita, sobretudo a poesia.

Anderson Pires: Me inclinei mais para a criação poética. Eu já escrevia poesia antes de entrar para a universidade, mas muito calcado com letra de música. Em 2000 participei de um Fanzine chamado Urgue, em que lançávamos as quintas feiras num bar chamado “Inconsciente coletivo”. Eu fazia uma novelinha intitulada “Os paranóias”. Já cursando o doutorado na Puc fui conjecturando algumas possibilidades de escrever um romance. A editora 7Letras estava investindo em novos autores.

Daniela Aragão: Um romance inédito?

Anderson Pires: Escrevi um texto chamado “Os sexistas” e mostrei para o Leandro Salgueirinha, que era um colega que havia publicado pela 7Letras. Em 2004 comecei a refazer o romance, até que me toquei que aquilo tudo era uma grande merda. Naquele momento eu achava que era um processo meio neurótico ficar escrevendo narrativa, pois é um lance que se você acerta, acerta muito. A narrativa te abre muitas possibilidades de ganhar dinheiro se você acerta num livro, dois livros. Os escritores escrevem para isso, daí abre-se a possibilidade para se escrever para cinema, televisão. Toda a nossa cultura de massa é narrativa. Por outro lado você escreve toda hora com esses sonhos e acaba se tornando muito isolado. Eu estava escrevendo algo meio realista, tinha adultério, um personagem negro, questão racial, o cara não se entendia como negro e tal. Daí fui achando tudo muito falso.

Daniela Aragão: Interessante você tocar nos desafios do gênero romance, pois é difícil pensar em alguém nos dias de hoje que está pretendendo escrever a grande obra, o grande romance. Como disse um amigo meu dia desses “Todo mundo quer ser poeta ou se acha poeta”. O que você acha que dificulta a existência de gente criando narrativa, enquanto na poesia se tem uma proliferação incessante?

Anderson Pires: Acho que ficou muito fácil hoje “fazer poesia”. A rigor, há os que possuem uma preocupação com a palavra, o rebuscamento, a conquista de uma sintaxe nova.  Ao mesmo tempo se faz isso com uma mentalidade século dezenove Mallarmé, que acho que não é legal. Parte dos poetas que pensam a poesia são melancólicos, depressivos e que considero o centro mundial do desânimo. Sempre o discurso, ah poesia não tem leitores, não tem espaço para a poesia. Os caras criam parâmetros de consagração que são muito fechados. Sempre terá lugar para a poesia, a poesia ainda ocupa um lugar nobre. Sempre terá uma categoria no prêmio Jabuti para a poesia.

Daniela Aragão: Contudo parece-me impossível viver de poesia e hoje talvez o lugar que os poetas encontraram para viver e produzir é a universidade.

Anderson Pires: Exatamente. Foi um lugar que eu entre tantos outros encontraram e é um lugar criado pela poesia moderna. A grande força da poesia moderna está na sua força social, anti-capitalista. Então não dá para você achar que vai ganhar dinheiro, pois há uma filosofia que é exatamente o oposto disso. Também grande parte dos poetas tinham outras fontes de renda, Cabral e Vinícius eram diplomatas, Drummond funcionário público. Oswald vivia de renda. Mário de Andrade era um pouco mais proletário, professor do Conservatório de Música, mas vinha de uma classe média relativamente estável. Devemos perceber que no Brasil até a década de 30 não existia faculdade de letras.
Você olha a poesia americana, inglesa, quase todos os poetas davam aula na universidade, até o Guinsberg. Para a poesia manter esse pensamento anti-capitalista o poeta precisa ter uma fonte de renda e ela está no trabalho de docência. Para mim está muito claro que essas distinções muito categóricas entre poeta, professor, teórico, romancista é uma tendência ultrapassada e que não se sustenta nos dias de hoje em que todas essas dicotomias são questionadas.   

Daniela Aragão: O que está faltando?

Anderson Pires: Falta ambição. Ambição perto da loucura, da megalomania. O mais difícil não é escrever uma obra, é convencer as pessoas disso. Nesse sentido o trabalho que eu fazia tentando escrever um romance  era impossível de convencer as pessoas, pois ninguém sabia o que eu estava fazendo. A atitude de escrever um romance é muito solitária, o romancista, o prosador é muito fechado. Voltei-me então para o poema através das amigas Érica e Elza, que quando fizeram o “Livro de sete faces” me convidaram para participar. A poesia tem um lance interessante, que é o impacto imediato e isso permite que se vá construindo condições de consagração relativamente alternativas aos meios legitimadores.

Daniela Aragão: Fale sobre o “Eco Performances poéticas”.

Anderson Pires: A poesia permite um espaço democrático. O primeiro “Eco” realizei juntamente com André Capilé, Juliana e Carla Machado. A partir da entrada do Pedro Paiva, a proposta ganhou a forma definitiva que é a entrada da música, do DJ, do MC, do convidado, do microfone aberto. Acho que a poesia realmente permite um espaço democrático de circulação de textos poéticos. O que criticam é o valor, quem vai separar a boa da má poesia? Há uma separação imediata que na verdade é o aplauso do público. Vi isso muito claramente na chegada de um cara chamado Thiago Rattes.  Casa lotada, quando ele terminou a leitura foi um eco de palmas.

Daniela Aragão: Você não acha que muitas vezes conta mais a performance que propriamente a força poética do texto? Vê-se um poeta ler seu texto causando impacto forte, mas depois uma leitura no suporte da folha de papel não sustenta.

Anderson Pires: Daí já é uma segunda instância, ali o poema funciona no espaço da oralidade. O lance do físico é importante, mas nem tanto. Já vi gente que foi, fez firulas, cuspiu fogo e a recepção foi fria. Quando o leitor está lendo em sua casa já está buscando um outro valor, então entra o crítico. A crítica de poesia é muito complicada, pois é quase totalmente feita por poetas. Sinto falta hoje de uma crítica de poesia que não seja feita por poetas. Eles tendem a valorizar o que se aproxima do trabalho deles e desvalorizar o que se afasta. Isso complica a relação de valor, pois acaba que muitos poetas são mais valorizados pelo ciclo que frequentam que pela qualidade da obra. Geralmente estes que são valorizados pelo ciclo são os que mais reclamam a falta de leitores. Nos últimos dez anos a poesia ganhou muito mais espaço. Quase em todos os grandes centros acontecem saraus. Cep no Rio, Coperif em São Paulo. O Eco está indo para oito anos de existência.

Daniela Aragão: Você publicou recentemente sua tese de doutorado “Mário & Oswald: uma história privada do modernismo”, um trabalho de fôlego que traz uma contribuição considerável. Como se deu essa revisão da poesia destes dois pilares?

Anderson Pires: Quando fui fazer doutorado na Puc, cursei uma disciplina com Júlio Diniz em que o curso era Mário, Oswald, Drummond e Manuel Bandeira. Particularmente acho que Drummond e Bandeira como poetas estão muito mais a frente que Mario e Oswald. Embora a poesia de Oswald tenha um lance intelectual muito forte e a de Mário um lance inovador acentuado. A construção poética de Bandeira e Drummond está num outro lugar. Mario e Oswald são muito fortes como presenças intelectuais, como personas. Esse aspecto me chamava muito a atenção.

Daniela Aragão: O lance da crítica sempre te interessou muito não é?

Anderson Pires: Sim, principalmente a crítica musical. Li e leio até hoje. Li muito a Biss e gosto de estudos de perfis. No final do curso dado por Júlio Diniz percebi que havia uma verdadeira guerra entre Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Oswald era considerado um porra louca, o sujeito que gostava dele não gostava de Mário, que era considerado muito certinho. Totalmente dicotômico. Quando fiz o trabalho final da disciplina do Júlio li o texto de Antônio Cândido, que me deu um estalo “Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade”. Cândido diz que Oswald tinha a fama em São Paulo de ser um cara libertino por ter se casado quatro vezes, mas todas foram na igreja. Isso caiu na minha base e o livro de Moacyr Werneck mostra que embora Mário fosse um acadêmico, um escolástico, era um boêmio. Mário passava o dia lendo e a noite bebendo, usava cocaína. Era um grande de um porra louca e ainda tem o lance do homossexualismo. O comportamento de Mário de vida se encaixava muito mais nos moldes da contracultura que Oswald. No entanto Oswald que sempre foi visto sob essa perspectiva.

Daniela Aragão: O Mário de Andrade como apolíneo e o Oswald de Andrade como dionisíaco.

Anderson Pires: Com certeza, firmaram estes pólos como se fossem estanques. Você pode acordar apolíneo e dormir dionisíaco, a coisa não é assim tão dicotômica. Comecei a encaminhar minha tese para o pensamento dessa dicotomia criada em torno de Oswald e Mário. Não no sentido de quebrá-la, mas investigar o motivo dela ser criada e com qual propósito. Lyotard em “A condição pós-moderna” diz assim: “Desde Platão as instâncias legitimadoras se legitimam”.

Daniela Aragão: Oswald de Andrade rompe com certo formalismo apresentado na tradição lírica brasileira.

Anderson Pires: O que acontece na poesia brasileira é que ficamos muito presos ao conteúdo do discurso e considera-se a forma inócua. A grande força da poesia de Oswald deriva de seu fazer sintético, que nada tinha a ver com a tradição lírica brasileira, que é séria e dramática. A poesia Oswaldiana é sintética, anti-discursiva e irônica, mas tem uma função enorme. Quando ele faz as paródias da carta de Caminha, uma releitura da história oficial brasileira “Minha terra tem palmares...”. Ele diz para Gonçalvez Dias, minha terra tem luta de classes, tem um herói que poderia ser nacionalmente reconhecido, mas que não entra nos livros de história, no caso o Zumbi de Palmares. Quando ele escreve em forma de poema piada mostra que a história oficial do Brasil é uma piada. 

Daniela Aragão:  Ao problematizar a construção poética de Oswald de Andrade você inevitavelmente deu uma revisada na proposta dos concretos.

Anderson Pires: A concepção da poesia como um jogo intelectual, uma proposta ideológica e uma visão de mundo questionadora ressoa muito no concretismo. Percebendo tudo isso olho com mais atenção Haroldo de Campos, como ele está lendo Oswald de Andrade. Ele buscou em Oswald uma forma de legitimar o concretismo, sendo assim está sempre procurando em Oswald o que ele tem de concreto para encaixar. Acho que Oswald não iria se sentir a vontade dentro daquele ambiente formalista. A rigor Mario teria muito mais a ver com a disciplina teórica dos concretos que Oswald, que era um indisciplinado teoricamente.
Haroldo consegue resgatar uma poesia de Oswald que não era considerada de valor. Tanto que Manuel Bandeira quando fez a apresentação da poesia moderna brasileira na década de 50 não inclui Oswald com a “Poesia Pau Brasil”, que foi um marco assim como a “Paulicéia Desvairada”, de Mário. Manuel Bandeira disse no prefácio que não colocou, pois considerava Oswald como poeta um “romancista de férias”. Ele não tinha aquele elemento sério, dramático que o Mário tem aos montes.

Daniela Aragão: Oswald de Andrade é uma referência para os poetas contemporâneos.

Anderson Pires: Quando Haroldo traz a poesia de Oswald e isso atinge uma geração de leitores, vai atingir também uma geração de poetas como Leminsky, Chacal, Waly Salomão. O pessoal da poesia marginal leu Oswald organizado pela edição de Haroldo de Campos, que reúne as poesias de Oswald e as coloca em circulação. Ao mesmo tempo que a poesia concreta legitima a poesia de Oswald coloca o valor de sua própria teoria. Eles não fazem isso somente com Oswald, mas também com Gregório de Matos, Sousândrade. Haroldo em particular vai pegar a história oficial, canônica e vai criar uma história alternativa da poesia brasileira. Hoje por exemplo ninguém escreve um livro sobre a história da literatura brasileira sem colocar Sousândrade e isso se deve ao Haroldo.


Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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