Daniela Aragão Daniela Aragão 30/01/2016

Entrevista com a escritora Sônia Rosa

Daniela Aragão: Como surgiu a palavra em sua vida?

Sônia Rosa: Na verdade venho de uma casa sem livros, mas com muitas histórias. Sou carioca, minha mãe baiana. Ela contava muitas histórias para mim, falava versinhos e tinha um apreço pela palavra. Lembro de muitos desses momentos e guardo ainda hoje estes registros. A gente brincava sempre com os sons das palavras. Eu ao seu lado, enquanto ela cantava “ – então tá num tá, taratatá, no tá, então tá”. E este versinho ia se repetindo por muito, muito tempo...

Essa minha amizade com a palavra foi anos após anos se fortalecendo cada vez mais. Quando entrei na escola, rapidamente aprendi a ler e escrever e essa intimidade com a palavra cresceu ainda mais. Algum tempo depois descobri a poesia, então entendi que a palavra poderia expressar meus sentimentos de maneira genuína. Foi neste momento que comecei a escrever diários onde registrava as minhas emoções, meus desejos, meus sonhos e as minhas paixões.

Daniela Aragão: Com quantos anos você iniciou a escrita dos diários?

Sônia Rosa: Por volta de meus onze, doze anos. Mais adiante, quando as paixões adentraram em minha vida, foi muito importante escrever esses diários. Os sentimentos e as palavras se arrumavam no papel em forma de poesia. Digo que a poesia me ajudou a crescer. Ela teve um caráter de autoconhecimento, no sentido de que até hoje quando quero visitar aquela Sônia menina, retorno aos meus escritos. Aquele olhar encantado pelas coisas, o desejo de acertar e mudar a minha história. O amor como material primeiro para a minha existência. O amor sempre foi fundamental em minha vida. O afeto de minha mãe e de minha família como um todo. Digo que tive muita sorte, pois vim de uma família muito modesta, mas muito amorosa e que acreditava em uma vida melhor para todos nós. Era uma família esperançosa. Minha mãe trabalhava como empregada doméstica e meu pai nunca trabalhava, porque ficou doente muito cedo. Era um homem frágil. Eu reconhecia sua fragilidade decorrente de uma doença desde que eu tinha cinco anos de idade.

Minha mãe, por outra lado, parecia uma leoa. Sou a caçula de dois meninos, enquanto eles foram para o campo de trabalho muitos jovens, por volta dos doze anos, eu tive o privilégio de só estudar. Eu morava no subúrbio. Morava em um bairro e estudada em outro – uma distância de mais ou menos meia hora de ônibus. Como havia dificuldades para o pagamento das passagens eu ia e voltava à pé, pois meu projeto de vida era ser professora e não seria uma caminhada de duas horas por dia (ida e volta) que iria me distanciar de meus sonhos.

Apesar de ter sido menina e adolescente sonhadora, não cabia na minha história daquele momento desejar ser escritora. Eram sonhos que não tinham espaço dentro de minha ambiência familiar. Gostava de escrever, mas nunca desejei ser escritora!

Daniela Aragão: Como você diz, os afetos lhe marcam profundamente, neste sentido como você vê a prática pedagógica?

Sônia Rosa: Fui estudando, virei professora, depois pedagoga. Em seguida tornei-me professora pública, onde o afeto sempre marcou minha prática pedagógica. Paulo Freire ainda é o meu grande mestre. Ele fala sobre a generosidade e o afeto no ato de educar. Ele destaca a importância da partilha e do ajudar o aluno a tornar-se sujeito. Penso que minha concepção freireana extrapolou minha condição de educadora. Pessoalmente, torço para que as pessoas tornem- se sujeitos. E que sejam realmente protagonistas de suas histórias. Muito importante que todo esse conhecimento acumulado pela humanidade ao longo da história da sociedade tenha significado para o sujeito desfavorecido socialmente. Alguém com vez, com voz, que diz: eu não quero, não vou, não serei escravizado pelo outro. Com certeza, essa tomada de consciência provoca uma diferença em sua vida e na vida do seu entorno. Acredito muito que quando me vejo como sujeito minha confiança e autoestima aumentam e isto é bom pra viver e conviver; dentro e fora da escola.

Daniela Aragão: Você sempre deu aula para criança?

Sônia Rosa: Durante minha experiência no magistério trabalhei muitos anos como professora primária, dediquei-me sobretudo a alfabetização. Sempre achei fascinante aprender a ler e escrever, a alfabetização sempre foi minha grande militância. Com os adolescentes trabalhei como orientadora educacional. Infelizmente na rede pública do município do Rio de Janeiro não existe mais especialista em educação. Tive muita alegria em poder contribuir, mesmo que modestamente, na formação dos adolescentes das escolas em que trabalhei. O diálogo e as histórias literárias foram meus grandes parceiros para o trabalho relacionado aos valores em transformação. Com as crianças e com os adolescentes.

Daniela Aragão: A escola pública é um grande laboratório.

Sônia Rosa: Com certeza. Quando pequena meu maior sonho era entrar na escola. Entrei aos sete anos e saí recentemente pelas mãos da “aposentadoria”. Tive oportunidade de trabalhar também com os professores. Quem trabalha em escola pública tem uma riqueza nas mãos. As ideias, as emoções, as relações e mesmo os conflitos, são materiais de crescimento, individual e coletivo.

Daniela Aragão: Como deu início sua vida de escritora?

Sônia Rosa: Meu caminho é muito distinto, pois não tive dentro de casa uma formação literária. Isso fez com que eu tivesse que correr atrás para suprir as lacunas. Pude vivenciar outras experiências e tenho muito orgulho de minha trajetória. Fiz vários cursos, li e continuo lendo muito literatura e também livros teóricos afins. Para quem está começando nesta carreira é muito delicado, porque precisa estar provando o tempo todo que pode, que sabe, que consegue. Não é fácil!

Em minha trajetória como escritora não tenho dúvida nenhuma da presença da força e da coragem como elementos fundamentais para a continuação da caminhada. Não sair do foco. Escrever, ler, estudar, se encantar, contar histórias para os meus alunos e para os meus filhos.

Daniela Aragão: Toda a sua escrita é voltada para o universo infantil?

Sônia Rosa: Sim, todas as publicações são direcionadas para o leitor infantil e juvenil, os jovens leitores. Pretendo continuar com este público leitor pelo resto dos meus dias. Quero ter sempre contato com essa pureza, quando desejo uma boa crítica sobre algum texto que acabei de escrever, peço uma criança que leia ou ouça o que escrevi ( quando ainda não sabe ler). Em seguida peço que me diga o que não a agradou. O que gostou é muito fácil, quero saber o que a criança não gostou. Isso é que irá me dar um toque interessante para eu prosseguir. E por vezes, até refazer o texto.

Daniela Aragão: Qual é seu livro inaugural?

Sônia Rosa: Meu primeiro livro é O menino Nito, que escrevi em 1988 e publiquei em 1995. Depois o relancei em 2002 pela editora Pallas. Amo este livro! Levei muitos anos ganhando “nãos” das editoras. É um mercado interessante, mas muito seletivo. Para entrar no “mundo dos livros” foi muito difícil. Já neste meu primeiro livro queria que o protagonista fosse um negro e isso possibilitou um diferencial para a obra. Enquanto eu aguardava a aprovação do Menino Nito eu ia escrevendo outros textos, estudando, fazendo cursos. Fui batalhando aqui e ali, conhecendo pessoas... Hoje já tenho mais de quarenta títulos!

Daniela Aragão: O Menino Nito foi adotado pelo governo federal não é?

Sônia Rosa: Hoje uma das coisas que mais me emociona em minha carreira a qual cuido com muito carinho e esmero é chegar numa escola bem dentro do dentro do nosso Brasil, às vezes até com dificuldade de acesso, e deparar com um livro meu na mão de uma criança.

Quando cheguei em Serra Pelada, no Pará, para conversar com os alunos de uma escola, muitas delas me aguardavam com o livro O Menino Nito nas mãos. Ele foi adquirido pelo governo federal. Este livro está em todas as escolas brasileiras do ensino fundamental. Este fato me emociona profundamente! Chegar até aqui foi uma longa caminhada com muita luta. Nada foi fácil. O meu Menino Nito é um menino negro e lindo e se tornou um companheiro das crianças das nossas escolas. Muita emoção! E alegria!

Daniela Aragão: Poderíamos dizer que você foi se preparando para se tornar uma escritora?

Sônia Rosa: Exatamente. Quando decidi de fato ser escritora comecei a analisar os caminhos que eu deveria trilhar para realizar este desejo. Comecei a frequentar lugares e conhecer pessoas do meio, participar de lançamentos de livros. Fiz muitos cursos na Casa da leitura. Um deles foi um divisor de águas em minha vida, o Curso de Contação de Histórias, em Janeiro de 94, com Francisco Gregório Filho, que é o guru de muita gente pelo Brasil afora. Fui batizada por ele. Era Sônia Regina Rosa, e ele sugeriu que usasse apenas Sônia Rosa, que ficaria bom. Ele acertou em cheio... Eu já contava histórias para os meus alunos, filhos e sobrinhos. O bacana desse curso foi o aprimoramento da forma de contar histórias, e a ampliação de meu acervo bibliográfico. Visitei com mais afinco o escritor Monteiro Lobato, Clarice Lispector, Marina Colassanti, Lygia Bojunga, Bartolomeu Campos de Queiroz e muitos outros. Costumo dizer que a leitura realmente alimenta as ideias, quanto mais você lê, mais tocada você fica. Você se torna mais elástica, mais sensibilizada. Mais pessoa. Bom pra você! Bom pra o mundo!

Daniela Aragão: Como foi seu trabalho no Leia Brasil?

Sônia Rosa: Meu trabalho no nível central da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro me possibilitou um estreitamento com algumas entidades voltadas para a leitura, como por exemplo: o Leia Brasil e a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Cheguei a ser Coordenadora Regional do Leia Brasil.

Com tantos estímulos a minha vida foi mudando e tive a oportunidade de fazer uma história muito diferente dentro da minha casa. Junto com meu marido, tivemos um cuidado especial com a formação literária dos nossos três filhos. E isso rendeu bons resultados para eles.

Sou muito entusiasta com os projetos de formação de leitores realizados pelo governo federal através da aquisição de livros de qualidade para as escolas públicas. A criança por meio desses projetos tem acesso ao que há de melhor no vasto campo da literatura infantil e juvenil, nacionalmente falando. De fato um grande avanço!

Daniela Aragão: A maternidade é diferente para uma mãe que convive com o universo da literatura infantil?

Sônia Rosa: Quando fiquei grávida de meu primeiro filho eu e meu marido começamos a montar a biblioteca dele. Isso fez uma diferença enorme em nossas vidas. Aos três anos ele já fazia poesias orais porque não sabia escrever ainda, mas já expressava as suas ideias. Hoje o Igor se tornou um escritor e acabou de lançar seu terceiro livro: Dinamarca. Minha casa é uma casa leitora. Não só pela presença dos livros nas estantes, mas como também da leitura, propriamente dita, desses livros.

Daniela Aragão: Em seus livros é frequente a abordagem da temática do negro e isso hoje se torna um assunto importantíssimo mediante a abertura dos estudos culturais e da necessidade da abordagem da história da áfrica no ensino fundamental.

Sônia Rosa: Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta é um livro especialíssimo em que eu reli a voz de uma mulher, tal qual minha mãe e minha tia. O que elas mais queriam era que os filhos fossem felizes. Encontro nesta carta, que foi escrita, de verdade, no dia 6 de setembro de 1792 lá no Piauí, a força das mulheres de minha vida. O encontro com esta carta e com esta história aconteceu de uma maneira um pouco mágica... Fui convidada pela Fundação Palmares para escrever um texto para uma revista... Eles sabiam de minha preferência pela temática negra e afro brasileira, tão presentes em meus livros. Para esta encomenda inventei uma história de uma escrava que deixava uma carta como legado para as gerações futuras.

Depois que escrevi o texto busquei outras referências de escravas alfabetizadas dentro do campo real. E foi exatamente neste momento da pesquisa que acabei encontrando a história da Esperança Garcia. Ela foi uma escravizada que escreveu uma carta ao governador da época revindicando que fosse retornada a sua fazenda de origem pra voltar a viver com seu marido e filhos. Muito corajosa e admirável esta mulher! A editora Pallas publicou o livro com muito cuidado e dedicação. O resultado já ganhou mundo: hoje o livro esta no Canadá, Estados Unidos, França e países africanos de língua francesa. É a voz dessa mulher ganhando mundo!

Daniela Aragão: Dentro da questão da negritude você ainda aprofunda a reflexão sobre a trajetória da mulher negra.

Sônia Rosa: Como professora, mulher e negra achei que eu precisava me apropriar do estudo da negritude, pois até como professora, na minha formação, esse conhecimento foi furtado. Aprendemos a dor dos negros africanos escravizados, mas não aprendemos a luta, aprendemos pouca luta. No entanto as lutas foram marcantes, o negro africano escravizado e até mesmo o negro brasileiro escravizado, muitos lutaram até o final da vida. Nasciam com a marca da luta e buscavam a luta para mudar a condição. E cada um lutava como podia. Há as irmandades, e tantas outras histórias de busca de cartas de alforria, lutas jurídicas, fugas, resistências, rebeliões.. Realmente essa é uma história de muita força. Sou muito favorável a lei 10.639, que obriga as escolas púbicas e particulares de todo o território brasileiro a trazerem essas histórias para dentro da sala de aula.

Daniela Aragão: o que é a literatura para a sua vida?

Sônia Rosa: A literatura é um espaço de liberdade, como dizia o escritor italiano Ítalo Calvino. E também de mistério, crescimento, alegria e prazer. Tanto para quem lê, quanto para quem escreve.


Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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