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    Entrevista com o compositor e cantor Paulinho Pedra Azul

    Daniela Aragão Daniela Aragão 28/09/2019


    Daniela Aragão: Como começou a música em sua vida?

    Paulinho Pedra Azul: Lá em casa sempre foi muita gente, oito irmãos.  Meu pai sempre gostou de música, era fiscal do estado aposentado e faleceu no ano passado com noventa e dois anos. Ele tinha um bom gosto musical, era muito festeiro. Festa lá em casa era pelo menos uma a duas vezes por mês. Ele arrumava sempre um motivo para ter festa. Como ele viajava muito, trazia as coleções de discos. Era muito difícil para os discos chegarem em nossa cidade, pois vivíamos no interior. Pedra Azul é uma cidade pequenininha do Vale do Jequitinhonha, quando chovia ninguém saía e ninguém chegava por causa dos atoleiros. Meu pai trazia vários discos, música italiana, música francesa, americana, jazz. Trazia as big bands. Ele chamava todos nós e pedia para que cada um escolhesse o disco que quisesse escutar. Eu escolhia um, minha irmã outro. E íamos colocando e meu pai pedia para que fôssemos comentando as músicas.

    Daniela Aragão: Seu pai já abria em você o ofício apurado da escuta e observação.

    Paulinho Pedra Azul: Sim. Interessante que meu pai era semi-analfabeto, mas tinha essa sensibilidade musical. Eu dizia, por exemplo,  que tinha gostado de uma música italiana, e ele informava que a  tal  música era do filme “Candelabro Italiano” e quem cantava  era Gigliola Cinquette . Ele dava a ficha toda. Outro falava de mais uma música e meu pai dizia que a música era japonesa e voltava às origens dela. Era sempre assim e minha mãe perto curtindo. Então lá em casa entrou tudo quanto é tipo de música, uma diversidade musical muito grande. Meu irmão mais velho começou a tocar violão primeiro, O Carlos ganhou o primeiro festival que foi organizado pelo Saulo Laranjeira  e o Heitor de Pedra Azul. Foi um festival que levou mais de cinco mil pessoas. Hippies na época, foi um escândalo em Pedra Azul. Música em Pedra Azul foi sempre constante. Tem também a parte folclórica, do boi de janeiro. As manifestações culturais das igrejas, tambores, corais, procissões.

    Daniela Aragão: E como entrou o violão em sua vida?

    Paulinho Pedra Azul: Foi por intermédio do meu irmão que começou a tocar. Peguei o violão dele escondido, sem ele saber e um dia um tio nosso que estava nos visitando com minha tia pediu para o Carlos tocar. Eu falei que tocava também e ninguém acreditou,  pois eu tocava escondido. Peguei então o violão, toquei, meu pai ficou impressionado. Meu irmão a partir daí descobriu que eu roubava o violão dele à noite (risos). A partir daí nunca mais larguei o violão. As influências externas foram chegando, Roberto Carlos, Beatles, Gonzagão,  Jackson do Pandeiro. Depois a moçada mais nova, Fagner, Djavan, Belchior, Gonzaguinha. Tudo da MPB, morei em São Paulo durante quatorze anos e lá fui escutando Elomar, Xangai.

    Daniela Aragão: A composição veio com o violão. Tudo junto?

    Paulinho Pedra Azul: Veio tudo junto. Com dezesseis, dezessete anos já compunha coisas que gravei no meu primeiro disco. “Ave cantadeira”, “Vagando”, “Jardim da fantasia”.

    Daniela Aragão: Gostaria que você falasse desse disco que é uma obra prima. Quando comecei a tocar violão sempre cantava “Jardim da fantasia”. Esse disco é antológico, pertence ao acervo dos grandes álbuns que se tornaram atemporais e referenciais.

    Paulinho Pedra Azul: Dei uma sorte, na época as pessoas tinham uma sensibilidade. As pessoas eram mais ligadas na MPB do que hoje. Esse disco foi muito importante para mim, pelo fato de ter demorado dois anos para eu iniciar a gravação e contar com a participação do Wagner Tiso. Vinte cordas da orquestra sinfônica de São Paulo, os músicos de base muito interessantes, Heraldo do Monte  na guitarra, Roberto Sion no sopro, Chico Medori do grupo Medusa, que era casado com a cantora Claudia. Claudio Bertrami no baixo, Toninho Carrasqueira na flauta. Diana Pequeno participou de uma faixa, Dominguinhos, Zé Gomes no violino. Foram quarenta músicos que tocaram nesse disco.

    Daniela Aragão: Um estrutura que não se tem mais.

    Paulinho Pedra Azul: Foi a última gravação com orquestra dentro da RCA. A partir dali foram só teclados, cordas eletrônicas. Meu disco foi o último que teve uma grande produção. Acho que por isso que ele recebeu vários prêmios de cantor revelação, conjunto de músicas de um disco só. Tocou “Cortinas de ferro”, “Vagando”, “Ave cantadeira”, “Cantar”, do Godofredo Guedes. Quem fez a gravação do “Cantar” foi o regional do Evandro, o melhor grupo de choro da época. Tudo foi do melhor, menos a minha voz, eu tinha 24 anos, estava ali  morrendo de medo de cantar.

    Daniela Aragão: Imagino que tenha sido uma explosão de emoções.

    Paulinho Pedra Azul: Com certeza Daniela. Eu estava totalmente emocionado e isso até me enfraqueceu fisicamente. Eu até adoeci durante a gravação. A emoção tomou conta, eu encontrar com Wagner Tiso, com esse pessoal todo. Eu vi vinte cordas da orquestra sinfônica dentro do estúdio, com aquele arranjo maravilhoso do Wagner. Uma música como “Cortinas de ferro”, muito densa e super atual. Pessoas na época não sacavam muito. Uma música revolucionária que mostrava a insatisfação  com a situação que nós vivíamos na época. Um resquício da ditadura. Foi uma coisa que me incomodou, embora eu não tivesse vivido exatamente na época. Os resquícios estouraram perto da gente e nós recebemos os estilhaços dessas bombas. Enfim, por outro lado tivemos toda uma influência romântica de muito amor. Superamos tantos problemas e conseguimos viver uma época tão bonita. Que não nos roubem ainda o resto que sobrou.

    Daniela Aragão: “Jardim da fantasia” sem dúvida nenhuma é um disco referência. Tem Elis e Tom, Tom e Edu, Terra dos pássaros, do Toninho Horta. Creio que inevitavelmente você sempre tem que recorrer a alguma música desse seu disco inaugural.

    Paulinho Pedra Azul: Começo meu repertório em qualquer situação, em qualquer lugar, qualquer ano começo a escrever assim, música número um “Ave Cantadeira”. “Cortinas de ferro”, ainda mais agora com certas situações que a gente não quer que volte. Um alerta para que as coisas não voltem a ser como um dia já foram, para que as coisas permaneçam mais doces. Não estamos vivendo o terror agora não, vamos conseguir superar isso. Somos muito fortes. Eu prefiro a doçura ao amargo. Eu prefiro que as coisas deem certo. Não deixem voltar os tempos tenebrosos, não precisamos disso. Não interessa quem está lá em cima, interessa quem está embaixo que somos nós.  Não acredito em nada lá de cima mais, a não ser Deus.

    Daniela Aragão: Depois desse grande disco, como deu rumo a sua carreira?

    Paulinho Pedra Azul: A RCA tinha um cast muito interessante de muitos que gravaram por lá. Maria Bethânia, Tavinho Moura, Diana Pequeno, Fagner gravou por lá um disco muito lindo todo orquestrado. O Fagner que é agitado, ali gravou um disco bem calmo. A RCA tem um casting enorme que vai de Nelson Gonçalves a Azimuth. Até a nossa turma, que morria de medo de não gravar um disco. Foram segurando a gente para gravar até não aguentarmos mais. O meu disco “Jardim da fantasia” é o único da história da RCA que não saiu de catálogo até hoje. Foi lançado em 82 e completa trinta e sete anos que permanece em catálogo. É o único disco que eles não conseguiram tirar de catálogo, pois não parou a venda. Acho isso muito interessante, pois as músicas falam de coisas de agora. É um disco importante na minha carreira. Depois eu saí da gravadora, que já é uma outra história. Eles me pediram uma série de coisas para fazer o segundo disco e não consegui. Então saí. Fiz então um disco independente,  que é o “Uma janela entre os meus olhos”.

    Daniela Aragão: Como foi a gravação deste segundo disco?

    Paulinho Pedra Azul: Foi o contrário desse, poucos amigos tocando, pois eu não tinha grana. Aluguei o estúdio da RCA. Fui gravar de madrugada, eles tiraram a fita de doze canais, que era ponta de linha que tinha chegado no Brasil e mudaram para o de oito canais, que era o que tinha antes. Estratégia para cobrar metade do aluguel pra mim. Fui gravar de madrugada para o pessoal não saber e os diretores gerais da gravadora não saberem que eu estava gravando. Gravava uma hora da manhã, duas horas. Gravei todas as vozes e violões num período de quatro horas. Coloquei sem clique, sem ritmo. Sem partitura, sem nada, totalmente free. Foram cerca de seis, sete músicos amigos na empreitada. Foi um disco que vendeu tanto quanto o primeiro. Nele tem “Precisamos de amores”, “Noites sem luar”, uma série de coisas que também restaram do repertório que eu tinha feito do primeiro. Um disco muito simples.

    Daniela Aragão: Essa maneira de fazer, esse calor. Estúdio foi se tornando um espaço muito frio. Muitas vezes um músico vai colocar um baixo, uma guitarra e nem sabe de quem é o disco. Não conhece a voz do cantor, seu feeling. E um trabalho no calor da hora gera um resultado diferente, é vivo.

    Paulinho Pedra Azul: Com certeza. Muitas vezes o baixista nem sabe em que disco ele está tocando. Isso acontece muito. O maestro vai lá, rege. Segue na partitura  e quando termina o cantor vai colocar a voz. O artista não está ali cantando, dando a voz guia. Nesse disco com o Wagner foi o contrário, vinte e quatro horas por dia eu estava ao redor deles. Eu queria aprender tudo. Como era algo muito grande, último disco, última produção da RCA, fui saber disso depois. Vi que era o momento de acontecer daquela maneira. Eu estava tão tímido que cantei pra dentro.

    Daniela Aragão: Você é mineiro, mas da outra ponta de Minas. Como é que fica sua relação com os mineiros Beto Guedes, Lô Borges, Wagner Tiso?

    Paulinho Pedra Azul: Eu já tinha uma certa ligação com o Wagner, pois fez os arranjos e fiquei ligado nele. Eu morava em São Paulo, não passei por Belo Horizonte. Eu nunca tive ligação com o Clube da Esquina, até eu gravar alguns discos. A relação que eu tinha era de admiração,  pois parti de Pedra Azul direto pra São Paulo. O Lô, o Beto, todos moravam em Belo Horizonte. Cheguei em São Paulo sem conhecer ninguém. A primeira vez que fui a Belo Horizonte escutei uma música que parecia minha. Daí escutei outra “Os ratos soltos na casa” (cantarola). Falei : - gente que música mais maluca, essa música é um filme. Aí me informaram que era do disco do Lô, do Clube da Esquina. Comprei o disco do tênis e a partir dali comecei a conhecer o Clube da Esquina. E nessa época eu já tinha gravado meu quarto, quinto disco. Com um tempo fui me influenciando pela amizade, fiquei muito amigo do Beto, do Fernando Brant, Tavinho Moura. Tavinho cantou no meu disco, Toninho Horta tocou música minha e dele. Comecei a perceber que eu estava convivendo com o Clube da Esquina, de uma forma muito espontânea, mais pela amizade do que pela música. Sentávamos na Cervejaria Brasil e eram duzentas pessoas conversando. Fui ficando por ali, fazendo amizade, até ficarmos bem mais próximos. Nunca participei de discos deles, alguns deles participaram de discos meus. Até hoje ainda não tive essa oportunidade ainda.

    Daniela Aragão: O Bituca está morando aqui em Juiz de Fora.

    Paulinho Pedra Azul: Pois é, mandei recado pra ele. Depois ele fica danado e diz que não avisei que eu vinha. Mandei recado. Fico doido para o Bituca aparecer num show meu, só que se ele aparecer eu travo, não canto. Só fico olhando pra ele, o que você ta fazendo aqui rapaz, vira de costas que eu vou cantar (risos). Já tivemos oportunidade de encontrar, bater papo. Amo aquele cara, pra mim é o maior cantor do mundo, assim como Elis Regina é a maior cantora do mundo. Acho que o Milton cantou em todas as alturas e todas as baixuras possíveis. Tem uns que cantam bonitinho, Frank Sinatra que eu gosto, Djavan, mas igual ao Bituca nenhum.

    Daniela Aragão: Um fato interessante é que você por ser de Pedra Azul traz uma marca muito própria de mineiridade e com caráter universal. Minas entranhada em você, como quando você se reconhece na música do mineiro Lô Borges.

    Paulinho Pedra Azul: Eu senti isso. Quando vim a Belo Horizonte pela primeira vez foi para conhecer a escada rolante da Galeria do Ouvidor e o Nero, que é o cabeleireiro. Eu fui subir numa escada rolante pela primeira vez na vida. Me lembro de que eu tinha uns doze anos e subindo a Galeria do Ouvidor,  comecei escutar “os ratos solto na casa”. Achei a melodia tão maluca, falei : - nossa que maravilha, esquisita mas maravilhoso. Uma música muito sofisticada, ao mesmo tempo muito simples, a melodia simples. Letras do Marcio Borges, Ronaldo Bastos, Murilo Antunes meu amigo de Pedra Azul.

    Daniela Aragão: Como se dá essa vasta amizade com os músicos de Juiz de Fora?

    Paulinho Pedra Azul: Eu vinha muito a Juiz de Fora fazer show, desde o primeiro disco. Desde quando eu tinha vinte seis anos. Muitos já partiram. Eu fazia show no Teatro São Mateus, no Teatro Solar. No Solar eu costumava lotar os três dias, sexta, sábado e domingo. Construí aqui uma relação muito boa. Depois fiquei um tempo sem vir. A relação com Juiz de Fora sempre foi muito forte, tem amigos de minha mãe que  moram aqui. Amo Juiz de Fora.

    Daniela Aragão: Fale então desse seu show no Teatro Central.

    Paulinho Pedra Azul: Teatro Maravilhoso, um patrimônio fantástico. Vou fazer amanhã para concluir esses trinta e cinco anos de carreira que estou comemorando. Lancei quatro discos, Primavera, Verão, Outono e Inverno. O Inverno vai sair no mês que vem.

    Daniela Aragão: Um ciclo.

    Paulinho Pedra Azul: São ao todo trinta discos gravados. Esses quatro discos que fecham o ciclo das estações contabilizam sessenta e cinco músicas remasterizadas. Músicas que cantei nos discos dos meus amigos e amigas. Não são necessariamente músicas que tem a ver com o tempo, são resultantes da temporalidade que eu construí. O último agora por exemplo, eu não canto em nenhuma faixa, somente as pessoas que participaram. Faço uma homenagem às pessoas que interpretaram minha obra. Vinte letras minhas. Já saíram Primavera, Verão e Outono. O Inverno fecha essa tampa. Deu sessenta e cinco músicas e eu fiz sessenta e cinco anos dia três de agosto.

    Daniela Aragão: Tem algo que alinhava essas estações?

    Paulinho Pedra Azul: Uma coisa muito louca. Um disco alinhava o outro. Eu pensei a princípio separar as que pareciam com cada estação. Impossível. Uma fala de verão, mas está no Primavera. Outra fala de frio, mas está no Verão. Elas vão se misturando e como foram músicas que aceitei cantar de amigos, porque eu me identifiquei, a letra é como se fosse minha. Tudo que eu cantei foi como se eu tivesse escrito. Sessenta e cinco temas que falam de tudo, reconciliação, casamento, separação, filhos, ida, volta, morte, vida, renascimento. A vida.

    Daniela Aragão: O que é a música para a sua vida?

    Paulinho Pedra Azul: É a vida para a minha música. A música registra tudo o que acontece na minha vida. Tudo o que eu quero e que eu não consegui. A música pra mim é tão natural como a vida é. Os amigos, a mulher, os filhos. Tenho dois filhos maravilhosos. Sou profundamente apaixonado pelos meus amigos, cada um com seus defeitos e suas virtudes. As viagens pelo Brasil todo. As oportunidades que eu tenho de não pagar avião, não pagar hotel, não pagar comida e ainda pegar um troco e voltar pra casa.

    Daniela Aragão: Joyce falou “e se eles descobrirem que a gente ainda se diverte”.

    Paulinho Pedra Azul: Joyce falou tudo. Olha que eu ainda quero muito fazer uma música com a Joyce. Quero fazer uma parceria com ela. Então a música é isso tudo.

    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

    Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

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