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    Lauro de Almeida: exemplo de coragem e resistência

    Aos 80 anos, professor busca a revisão da anistia, movendo processos para recuperar patentes militares

    Eduardo Maia
    Repórter
    7/09/2014
    Lauro de Almeida Mendes

    Exemplo de resistência e coragem, o professor aposentado do curso de Física da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Lauro de Almeida Mendes (foto ao lado), guarda consigo uma parte da história do Brasil. Presenciou momentos importantes como as transições entre duas ditaduras, a do Estado Novo (1937-1945) e Militar (1964-1985). Natural de Entre Rios, na Bahia, iniciou sua carreira na Escola Militar de Fortaleza. Foi preso e considerado subversivo após sustentar o juramento feito à Constituição de 1946, na renúncia de Jânio Quadros. Absolvido pela auditoria da 9ª Região Militar, foi reformado e teve a carreira militar encerrada.

    Fora da instituição militar, em 1966, já morando em Juiz de Fora, buscou refazer sua vida. Graduou-se em Matemática pela UFJF, onde também se pós-graduou em Física e prestou concurso no Instituto de Ciências Exatas (ICE), lecionando por 37 anos. Hoje, aos 80 anos e 64 de casamento com Ivanir Vieira Mendes, busca a revisão da anistia, movendo processos para recuperar patentes militares.

    "Eu não gosto de falar muito do que passou. De vez em quando me causa uma dor, porque eu me preparei também para ser um general. Estudei, me preparei intelectualmente, fiz os cursos que estavam ao meu alcance. Me saí muito bem em todos eles. Hoje eu gostaria que a Comissão de Anistia se apressasse a analisar os processos. Vou fazer 81 anos, já faz quase 50 anos que fui reformado e até agora não julgaram meu caso", lamenta.

    Resistência

    Quando servia na Artilharia Divisionária 4 (AD4) de Pouso Alegre, vinculada à 4ª Região Militar, Lauro foi questionado pelo general sobre quem deveria substituir o presidente Jânio Quadros após a sua renúncia em 1961. Num ato de clareza, respondeu com base nos princípios constitucionais.

    "Eu disse a ele: o senhor e eu juramos esta Constituição e ela diz que no caso de vacância do presidente, assume o vice. Eu tinha 26 anos, com o meu sangue de jovem, eu disse: 'General, eu não vim aqui em absoluto para cortar ou quebrar a história. Temos que dar o lugar certo a que a Constituição manda'. Como é triste romper a ordem constitucional, qualquer que seja ela. E não era das piores, as pessoas estavam aprendendo a fazer democracia. Eu queria ser militar, defender a Constituição, a ordem. Era o ponto mais sublime que eu ia fazer", lamenta.

    Ainda que não concordasse com os princípios do presidente João Goulart, o capitão seguiu aos preceitos da Constituição. Posicionou-se contra a tomada do poder pelos militares em 1964, à época vinculado à 9ª Região Militar, no Mato Grosso do Sul. Foi preso após declamar o poema "O beijo do papai", de Eustórgio Wanderley, em uma festa de militares, sob acusação de que fazia apologia ao regime comunista russo. Diante da recusa em responder aos questionamentos de um general, foi também acusado de insubordinação. Meses depois, no ano de 1966, ao ser julgado pela auditoria militar, foi absolvido por unanimidade.

    Sobre o regime ditatorial, mostrou-se contrário desde o princípio e lamenta como as ações foram conduzidas pelos generais de forma abrupta.

    "Como o povo brasileiro relutou ao sentir a quebra da democracia nascente! Foi muito difícil aceitar um presidente que não fosse eleito pelo povo. O povo brasileiro ficou atônito com a substituição abrupta do presidente por um general, a situação que vimos foi Castelo Branco, que não soube manobrar as forças políticas, fez uma outorga da nossa independência para os americanos. Chegou a dizer que tudo o que era bom para os EUA era bom para o Brasil. Você vê que a forma muito subserviente de uma nação de tratar a outra. A ideia de Justiça e a ideia de prazo. Ele sabia que em seis meses, iria passar o governo adiante. E pensou que em pouco tempo conseguiria equilibrar tudo e restabelecer a ordem", relata.

    Almeida relembra bons momentos vividos na academia militar, onde se formou, mas discorda das ações de um grupo que manifestava o interesse pelo poder republicano. "Me formei em uma escola militar, que era disciplinada, cumpria rigorosamente ao que a Constituição mandava. Ali não se fazia política, éramos profissionais das Forças Armadas, das forças de terra do Exército Brasileiro. Não éramos levados a querer que tomar o poder", conta.

    O capitão reformado relata um episódio em que o fez entender ideais de um grupo no Exército movido por interesses políticos. "Quando Getúlio suicidou, em 1954, eu era um cadete. Um major, que era chefe do meu curso, com grande demonstração de alegria, disse o seguinte: 'o comandante da Academia Militar mandou que avisasse aos senhores que o presidente da república suicidou'. Eu estava no segundo ano do curso, para mim foi um choque. Eu senti neste dia que havia dentro do Exército um número de oficiais que não queria, em hipótese alguma, que um civil fosse o presidente da República. Tinha saído Dutra. Depois entrou Getúlio, Juscelino e Jânio. Quando Juscelino foi eleito, houve uma porção de revoltas pequenas em que alguns militares, alguns mal informados e possivelmente com ânsia de poder e truculência, que a presidência voltasse para um general".

    A liberdade

    O processo para conseguir suas patentes militares se dá por valores que o capitão adquiriu ao longo da sua trajetória. Entre eles, considera como fundamental a independência garantida pela ordem democrática do Estado de Direito. Apesar de fazer críticas às tentativas de intervenção de nações europeias e dos Estados Unidos, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, o ex-capitão valoriza elementos que simbolizam a união nacional e conquista pacífica de seus direitos.

    "Para nós, a Independência tem outro significado. Tão logo o Brasil ficou independente, muita gente botou os olhos aqui: Inglaterra, Holanda, a França. Depois os Estados Unidos. A independência para nós não é tanto contra os portugueses. Era se ver livres contra as garras que os americanos colocaram sobre a gente. Isso evidentemente gerou correntes contrárias, que apoiavam aos americanos. Independência para nós é a alegria de ter uma conquista sem ter uma gota de sangue derramada, sem confrontos de vidas partidas e uma nação unida", destaca.

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