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    Fernando Fiorese lança novo livro nesta terça no Fórum da Cultura

    A obra é resultado do documentário inacabado de dois amigos que fizeram a rota Rio/Bahia gravando entrevistas de moradores das proximidades da BR-166

    Angeliza Lopes
    Repórter
    26/10/2015
    fiorese

    A viagem de 1.600 km dos dois amigos, Humberto e Murilo, deixou as fitas de um documentário não editado sobre o trecho mineiro da Rio-Bahia – BR-116, para dar forma as 280 páginas do livro "Um Chão de Presas Fáceis", de Fernando Fiorese. A obra será lançada nesta terça-feira, 27 de outubro, às 20h, no Fórum da Cultura. As histórias da rodovia contadas através de andarilhos, prostitutas, professoras, comerciantes, crianças, lavadeiras, caminhoneiros, donas de casa, trabalhadores rurais e muitos outros personagens que vivem nas cidades às margens ou próximas da estrada, trazem um panorama contemporâneo do que é o cotidiano destas regiões dos vales Jequitinhonha, do Mucuri, do Rio Doce e a Zona da Mata.

    ACESSA.com - Como surgiu a oportunidade de escrever sobre as histórias da BR-116, mais conhecida como rodovia Rio/Bahia?

    Fernando Fiorese - Conheci um professor que tinha tentado fazer um documentário junto com um amigo (Humberto e Murilo), com o intuito de flagrar os depoimentos, histórias de vida de pessoas que viviam em cidades próximas ou às margens da rodovia. Um dos amigos morreu em um acidente, por isso todo o conteúdo ficou guardado. Em primeiro lugar, foi entregue a mim o filme que eles tinham feito que nunca chegou a ser editado, com os depoimentos, que eram o principal material que eu tinha para reconstituir estas histórias, das diferentes regiões dos vales do Jequitinhonha, do Mucuri, do Rio Doce e a Zona da Mata. Além disso, Humberto me entregou caixas de papelão com vários materiais que eles tinham juntado durante a pesquisa, como cópias de textos extraídos de livros, folhas manuscritas e datilografadas, recortes de jornais e revistas, registros de diálogos, impressos variados, bilhetes e anotações diversas, desenhos, fotografias, souvenirs de numerosos tipos e alguns outros itens. Depois do acidente, o conteúdo ficou parado e recebi o material apenas com as exigências de não copiar o filme e devolvê-los depois que terminasse. O que eu fiz foi organizar, acrescentar informações, em um modelo dentro da perspectiva do roteiro que os dois amigos fizeram, de toda a extensão da cidade de Divisa Alegre, na fronteira com a Bahia, até Além Paraíba.

    ACESSA.com - O que compõe a obra? Entrevistas, dados históricos?

    F.F - São depoimentos de personagens que contam sobre a Rio/Bahia, suas vidas e de como é, afinal de contas, viver a beira desta rodovia. Também acrescentei outras informações históricas e geográficas. A história da viagem dos amigos não está no livro. Até existia um diário do Murilo, que seria interessante de ser publicado. No entanto, se incluído nesta obra, ela ficaria muito extensa, a família também não queria que determinadas partes que eu julgava interessantes e significativas fossem publicadas. Ficou inviável falar da viagem neste primeiro momento.

    ACESSA.com - Quando o conteúdo foi gravado e quanto tempo demorou para se transformar em livro?

    F.F - A viagem começou em junho de 2011. Em 2012 aconteceu o trágico acidentes, deixando o conteúdo parado. Comecei a trabalhar no material em 2012 e consegui concluir em 2015.

    ACESSA.com - Como o livro é resultado de um conteúdo compilado, inicialmente, para um documentário gravado, a obra trouxe elementos diferentes?

    F.F - Não temos um narrador. Normalmente, identifico as pessoas pelo primeiro nome e o lugar onde se encontravam - rua, praça e a cidade, pois tinham informações a respeito anotadas. O que fiz foi decupar as narrativas e reproduzir com a máxima fidelidade possível a linguagem das pessoas, pois isso implica em um certo modo de falar que é específico de cada região. Tentar flagrar esta linguagem é a forma como as pessoas veem a vida. Já que não tinha imagem e o som, o que eu tentei foi reproduzir a linguagem.

    livroACESSA.com - É possível dizer que o livro mostra outra Minas pouco vista e lida atualmente?

    F.F - A intenção era realmente mostrar estas regiões que possuem representações literárias, mas pouco divulgadas. Como a Zona da Mata, que tem um grande representante que é o Luiz Ruffato, que escreveu uma pentalogia intitulada como "Inferno Provisório" que narra o que é esta região de Minas. Em geral, estas representações literárias existem, mas são pouco conhecidas, além disso existem outros tipos de representações, como no Vale do Jequitinhonha com artesanato e música expressiva.

    No entanto, no domínio da literatura são poucos os autores que registraram estas regiões mais contemporaneamente, por isso, a pretensão era tomando a Rio/Bahia como uma espinha dorsal - implantada em Minas a partir dos anos 30, mas asfaltada 1963, para narrar o cotidiano atual destes lugares. Quando é colocada uma estrada atravessando regiões com características muito específicas, ela traz informações, pessoas e riquezas, mas, ao mesmo tempo, traz muitos problemas. Como foi divulgada tanto da propaganda do governo de Getúlio Vargas que começou a estrada, quanto na de João Goulart, de fato a rodovia integrou regiões afastadas, mas também interferiu nas culturas, práticas e modos de vida destas regiões. Além disso, acabou se tornando rota de fuga, que parece ser bem comum a maioria. As pessoas acabam fugindo da Zona da Mata e dos Vales para São Paulo e Rio de Janeiro. É uma rota de fuga, principalmente, para a juventude que vê um caminho para escapar de interior. Eu imaginada que este costume fosse mais comum nas décadas de 60 a 80, mas há três anos estava conversando com alguns jovens de Cataguases e todos tinham como planos pegar a Rio/Bahia e ir para Rio de Janeiro, São Paulo ou por outra estada para Belo Horizonte. Parece que a estrada é um chamamento para outras experiências, ela amplia o horizonte, com outras visões de mundo que despertam para o desejo de ir além de onde estão.

    ACESSA.com - Acha que é possível o material se tornar documentário?

    F.F - Não quis insistir com Humberto nesta proposta, pois por mais que eu mostrasse amigos que poderia indicar, que são referência do cinema em Juiz de Fora, via que ele não demonstrava interesse. Acho que os planos de tornar o material em um filme se foi junto com a morte de um dos amigos. Por isso, vejo que poder colocar todo este conteúdo na mão de uma outra pessoa que transformaria aqueles relatos em um trabalho já serviria como homenagem.

    ACESSA.com - Você chegou a conhecer algum dos personagens?

    F.F - Em alguns dos momentos senti necessidade de conhecer paisagens referidas no documentário, mas não tive a oportunidade de encontrar nenhum dos entrevistados, pois a maioria era andarilhos, prostitutas, caminhoneiros, e não permanecem em um mesmo local por muito tempo.

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