Paula Faria Paula Faria 25/08/2014

O Império da Teledramaturgia Clássica

Uma história de amor impossível, vilões bem demarcados, um heroi não tão bonzinho, grandes reviravoltas e personagens que vão da pobreza à fortuna num passe de mágica. Estes são alguns dos traços que claramente descrevem a atual novela das 21h, "Império", escrita por Aguinaldo Silva. Pois bem, mas qualquer telespectador atento pode concluir que estas mesmas características também definem uma série de outros enredos televisivos de sucesso.

Há quem diga que todas as telenovelas só fazem repetir a mesma estrutura melodramática com roupagens diferentes. Pode ser verdade. Mas isso não tira seu mérito, afinal de contas as novelas diárias estão no ar no Brasil há mais de cinquenta anos e continuam gerando os comentários do ponto de ônibus e das filas dos supermercados a cada novo capítulo. Então, podemos dizer que o fato de seguir os padrões já clássicos da teledramaturgia brasileira é, decididamente, um trunfo para "Império".

Depois de seu primeiro mês no ar, a trama de Aguinaldo Silva já mostrou a que veio. Tendo como ponto de partida, na primeira fase, a história do amor proibido entre José Alfredo (Chay Suede) e a mulher de seu irmão, Eliane (Vanessa Giácomo), "Império" parece ter conquistado o público, tendo como alicerces exatamente os pilares da teledramaturgia, como o triângulo amoroso, o mistério da paternidade, a disputa pelo poder e a contraposição entre a pobreza e a riqueza. Mas, apesar do enraizamento nessas características já clássicas, o telespectador foi surpreendido ao se deparar, por exemplo, com a bela atuação de Alexandre Nero, que interpreta José Alfredo na segunda fase da novela.

Não que o grande talento do ator seja uma novidade. Seu potencial já pôde ser avaliado em novelas como a segunda versão de "Paraíso" - de Benedito Ruy Barbosa, no ar em 2009, trama na qual ele dava vida a Terêncio, o braço direito do protagonista Zeca (Eriberto Leão) - e "Fina Estampa" - de Aguinaldo Silva, no ar em 2011, em que Nero vivia o homofóbico Baltazar. A novidade é poder vê-lo interpretando seu primeiro protagonista na Rede Globo, e em horário nobre. E é melhor ainda observá-lo como um anti-herói, um homem com uma personalidade complexa, que carrega uma morte nas costas e fica com a mulher do irmão já no primeiro capítulo da trama.

Ao mesmo tempo em que se percebe a aclimatação poética que simboliza o amor verdadeiro entre Eliane e ele, há o adultério cometido contra o próprio irmão. Enfim, fica claro que José Alfredo não é um heroi tradicional, já que a trajetória do personagem torna sua índole no mínimo questionável. Mas, se por um lado sua personalidade é construída com base em uma intensa dramaticidade, por outro, suas manias, seu vocabulário e o uso de algumas expressões em inglês dão um tom cômico ao personagem, atingindo um equilíbrio que tem agradado ao telespectador.

Diferente de José Alfredo, Cristina (Leandra Leal), sua suposta filha, tem se mostrado uma mocinha típica dos folhetins. Uma jovem doce e batalhadora que luta para manter a família unida. Já nos primeiros capítulos ela passa pela tragédia da morte da mãe e luta para ganhar a vida e tirar o irmão da cadeia. Mas ela também toma atitudes práticas, como a de aceitar o dinheiro de Maria Marta (Lília Cabral) para refazer sua vida após a morte da mãe. Em troca, personagem de Lília Cabral exige que a jovem não procure mais seu marido, José Alfredo, e não tente fazer o teste de DNA para provar que é filha dele. Ora, as mocinhas dos folhetins tradicionais jamais aceitariam uma proposta dessas e seguiriam tentando provar sua filiação da maneira mais nobre possível. Então, podemos entendê-la como uma mocinha nem tão clássica quanto parece. Cabe lembrar que Leandra Leal sempre se saiu muito bem no papel das heroínas. Não me lembro de ter lido grandes críticas a suas interpretações, mas confesso que tenho vontade de vê-la como vilã.

E por falar em vilã, quem também tem ganhado destaque e recebido muitos elogios em "Império" é Cora (vivida por Drica Moraes), que ganhou o apelido de "dona Cobra". Trata-se de uma personagem interesseira, que se apoia numa religiosidade superficial e num falso moralismo para tentar manipular, primeiramente, a irmã e, depois, a sobrinha. Devido à bela atuação de Drica Moraes, a megera já vem sendo comparada a Carminha, a inesquecível e engraçadíssima vilã interpretada por Adriana Esteves em "Avenida Brasil", no ar em 2012. A meu ver, e sem nenhum demérito para Drica Moraes, esta comparação é bastante precipitada, pois Carminha já virou um ícone de nossa teledramaturgia. Portanto, prefiro dar tempo ao tempo e assistir ao desenvolvimento de "Império", para depois analisar a força e a popularidade de sua principal vilã.

Outro ponto forte de "Império" é o desafio imposto ao ator José Mayer, que interpreta um homem casado que mantém um relacionamento homossexual nunca assumido publicamente. Esse tipo de novidade é sempre muito interessante por fugir aos estereótipos tão associados à imagem de alguns atores. Tony Ramos, por exemplo, costuma dar vida a personagens centrados e compreensivos, enquanto Antônio Fagundes geralmente interpreta figuras autoritárias. José Mayer sempre foi o galã e muitas foram as piadas a respeito do sucesso de seus personagens com as mulheres, já que eram vários os relacionamentos amorosos de cada um deles. Vê-lo no papel de um homossexual, ainda que não assumido, é, sim, um motivo para prestar mais atenção à trama. A própria aflição do personagem diante da possibilidade de seu romance com Leonardo (Klebber Toledo) se tornar público já é um fator de destaque para a movimentação do enredo.

Outro aspecto que me tem chamado a atenção é a fidelidade dos empregados a Maria Marta, com destaque, é claro, para o mordomo Silviano, vivido por Othon Bastos. Ele chega a dar conselhos à esposa de José Alfredo, se mostrando capaz de muitas coisas por ela, enquanto ela o classifica como seu melhor amigo. É uma cumplicidade atraente para o telespectador, embora repetitiva. Para mim, está ótimo. Só não espero que aconteça algum assassinato ou outra atrocidade ao longo da trama e que, no fim, a gente descubra que a culpa foi do mordomo.

Também tenho que comentar o bom encadeamento do enredo na transferência da primeira para a segunda fase. Os atores que dão vida ao mesmo personagem em diferentes épocas são parecidos fisicamente, suas interpretações são ótimas e, apesar do pouco tempo de sua participação, Chay Suede, Marjorie Estiano e Adriana Birolli tiveram grande importância para a captura da atenção do telespectador nos primeiros capítulos da trama. Além disso, seus personagens estão sendo muito bem continuados por Alexandre Nero, Drica Moraes e Lília Cabral, num enredo bem mais ágil que o de sua antecessora, "Em Família" - que também teve seus méritos e deméritos, diga-se de passagem.

Enfim, estou satisfeita com o desenrolar de "Império". Apesar de minhas pequenas críticas, a história me prendeu e, agora, só me resta continuar acompanhando e fazendo novas observações. Sua base nos pilares do folhetim tradicional e seu enredo envolvente mostram que a telenovela continua tendo seu lugar na vida cotidiana do brasileiro, contrariando os críticos, que ainda insistem em afirmar que este gênero televisivo está em constante decadência.


Paula Faria é jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, além de especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais, pela mesma instituição. Também é publicitária pela Faculdade Estácio de Sá e desenvolve pesquisas relacionadas à comunicação, cultura e identidades, mais especificamente sobre ficção seriada televisiva e música popular brasileira.

Conteúdo Recomendado

Comentários

Ao postar comentários o internauta concorda com os termos de uso e responsabilidade do site.