Paula Faria Paula Faria 8/01/2015

Sobre o Rejuvenescimento de Cora

Desde a substituição de Drica Moraes por Marjorie Estiano em "Império", há cerca de um mês, algumas pessoas vêm me perguntando o que eu achei da arriscada decisão de Aguinaldo Silva. Então, resolvi opinar aqui a respeito disso e mais algumas coisas. Há alguns meses, eu afirmava, nesta coluna, que precisava de tempo para avaliar se a personagem Cora, de "Império", seria tão marcante para nossa teledramaturgia quanto a inesquecível Carminha, vivida por Adriana Esteves em "Avenida Brasil" (novela escrita por João Emanuel Carneiro, exibida em 2012). Agora posso dizer, com toda a certeza, que não. Aliás, acredito até que esta comparação não deveria ser feita, por serem duas personagens concebidas em moldes muito diferentes por autores que seguem linhas de criação também muito diversas. Porém, se tenho que fazer a confrontação entre as duas vilãs, digo o seguinte: Carminha, concebida dentro de um universo relativamente realista, que retratava o subúrbio do Rio de Janeiro, começou despretensiosa. Era apenas mais uma megera engraçada, mas foi ganhando a simpatia do telespectador e entrou para o ranking das grandes antagonistas da teledramaturgia brasileira. A seu favor, além da boa interpretação de Adriana Esteves, contaram a abordagem da ascensão social da chamada classe C, o simpático universo do fictício bairro do "Divino" inspirado em Madureira e a assimilação pelo telespectador dos motivos que levaram Carminha a ser tão má.

Já Cora, talvez por ser também uma vilã suburbana, foi cobrada e comparada a Carminha desde o início de "Império", em julho do ano passado. E não há diálogo bem escrito que resista a tanta cobrança. Devido a inúmeros tropeços pelo caminho, a expectativa em torno da personagem não se satisfez. Não se trata de uma crítica ao talento ou ao trabalho de Drica Moraes, que já viveu papéis memoráveis na teledramaturgia da Rede Globo, como a divertida Márcia, de "Chocolate com Pimenta" (trama escrita por Walcyr Carrasco, exibida entre 2003 e 2004), que foi, para mim, sua melhor atuação na TV. No entanto, Cora não obteve tanto destaque quanto se esperava e, obviamente, os problemas de saúde da atriz contribuíram para isto, pois prejudicaram o andamento da trama.

Mas os imprevistos acontecem e exigem providências imediatas, principalmente quando se trata de uma obra aberta. Sendo assim, como estudiosa do tema, não condeno a atitude de Aguinaldo Silva, que optou por rejuvenescer a vilã de "Império", trazendo de volta Marjorie Estiano, que interpretou Cora na primeira fase da trama. As opções eram as seguintes: matar a personagem, dar de presente a ela uma viagem sem previsão de volta, trocar a atriz por outra de idade ou aparência similar ou recorrer a Marjorie Estiano. As duas primeiras alternativas implicariam no desaparecimento da principal vilã do enredo. É claro que, caso Drica se recuperasse de seu problema de saúde, seria possível inventar uma ressurreição/morte forjada ou um retorno da viagem, mas haveria o risco de a trama persistir até o fim sem sua principal vilã. Há quem argumente que outra antagonista poderia surgir, ganhando destaque a partir de algum dos núcleos não protagonistas, mas acredito que isso descaracterizaria a essência do enredo.

Então, fazer Cora desaparecer não seria uma solução viável. Entre trazer uma outra atriz da mesma idade de Drica ou rejuvenescer a vilã, creio que esta última foi mesmo a decisão mais acertada. Por quê? Porque, como eu já havia afirmado há alguns meses, houve uma continuidade absolutamente verossímil entre as aparências dos personagens da primeira para a segunda fase de "Império", ao contrário do que ocorreu, por exemplo, em "Em Família" (trama de Manoel Carlos, exibida em 2014), em que a tia Juliana (Vanessa Gerbelli), teoricamente 10 anos mais velha, parecia, na verdade, ter 10 anos a menos que a sobrinha Helena (Júlia Lemmertz).

Assim, em "Império", como a Cora vivida por Drica Morais se parece muito com a Cora de Marjorie Estiano, ninguém melhor do que esta última atriz para substituir a primeira. Não se trata somente da semelhança física, mas das expressões, do tom de voz utilizado em algumas frases, dos movimentos das mãos, entre tantas outras coisas. Esses detalhes certamente seriam esquecidos se a escolha fosse a de substituir Drica Moraes por outra atriz da mesma idade. Além disso, de qualquer forma, teria que haver a "desculpa" da cirurgia plástica para a mudança de aparência. Ora, se a personagem vai fazer uma cirurgia, é melhor que seja para rejuvenescer. É inverossímil que Cora pareça 30 anos mais jovem, mas Aguinaldo Silva já está bem acostumado aos recursos do realismo fantástico, sabe se utilizar comicamente dele e, além disso, esta era a opção menos prejudicial ao andamento do enredo, que seria afetado de qualquer forma. Por outro lado, o retorno de Marjorie também contribuiu para a melhora da audiência de "Império", por ter gerado muitas matérias na imprensa e comentários nas redes sociais e despertado a curiosidade do telespectador.

Enfim, em minha opinião, a solução mais óbvia, ou seja, a de matar a personagem, nunca é a melhor alternativa, porque, dessa forma, o autor perde uma figura em torno da qual muitos acontecimentos se desenvolveriam. Por outro lado, acredito que o suposto retorno de Drica Moraes, este sim, causaria sérios danos à trama, tornando-a ainda mais inverossímil. Tudo bem se o autor quer se utilizar do realismo fantástico para rejuvenescer miraculosamente uma personagem, mas como justificar seu envelhecimento em seguida? Dizer que a personagem vivida por Marjorie Estiano era uma falsa Cora e que a verdadeira está retornando não seria aceitável, uma vez que, em várias cenas, Marjorie revela conhecimentos e sentimentos íntimos, que só a verdadeira Cora poderia demonstrar.

Esta suposta nova substituição está cumprindo seu papel de incitar milhares de opiniões e fazer "Império" virar assunto diário por todo o país, mas, pelo menos por enquanto, não parece ser um dado concreto. Sem mais, resta-nos, de novo, aguardar pelas cenas dos próximos capítulos.


Paula Faria é jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, além de especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais, pela mesma instituição. Também é publicitária pela Faculdade Estácio de Sá e desenvolve pesquisas relacionadas à comunicação, cultura e identidades, mais especificamente sobre ficção seriada televisiva e música popular brasileira

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