Paula Faria Paula Faria 18/03/2015

Pode isso, Aguinaldo?

Nem mesmo Carminha, de "Avenida Brasil", e Nice, de "Anjo Mau", reunidas na estreia de "Babilônia" me fizeram deixar para traz a decepção com o desfecho de "Império". Afinal de contas, o comendador, José Alfredo, morreu ou não morreu? É claro que a intenção de nosso querido (leia-se "querido" com a entonação do personagem Theo Pereira) Aguinaldo Silva era exatamente a de deixar esta dúvida. Seria o personagem José Alfredo imortal? Teria ele ressuscitado? Ou ele poderia ser um fantasma que passou a assombrar a família Medeiros de Mendonça e Albuquerque? Ou, ainda, numa possibilidade mais folhetinesca, teria ele elaborado mais um plano mirabolante com a ajuda de Josué (Roberto Birindelli) para parecer morto? O autor não quis esclarecer essas dúvidas. Certamente sua intenção era a de romper com o happy end e deixar algumas lacunas para o telespectador preencher. A ideia é boa. Mas não funcionou.

As telenovelas são obras abertas, sujeitas às mais variadas possibilidades de desfechos, que podem ser inspiradas tanto na vida real quanto em qualquer espécie de obra de ficção, vinda do cinema, da literatura ou do teatro. Resumindo: o autor pode tudo. Ou quase tudo. A infinita possibilidade de enquadramentos é um elemento importante para o sucesso de uma novela. Contudo, a ficção seriada televisiva tem seu fundamento no melodrama e no folhetim, e é aí que a liberdade criativa do autor perde sua soberania. Trocando em miúdos: um anti-herói cheio de trejeitos que conquista a simpatia do público sendo interpretado brilhantemente por um ator em ascensão precisa ter um final feliz. E um final feliz não é simplesmente a sugestão de que ele está vivo, como ocorreu no final de "Império". O público esperava cenas relativamente longas e com diálogos em que ficasse claro que ele solucionou seus conflitos.

Aguinaldo Silva repetiu o que já tinha feito em "Fina Estampa" com a personagem Tereza Cristina (Christiane Torlone): a vilã supostamente morreu em um naufrágio, mas reapareceu sorridente no último capítulo, diante da perplexidade de Griselda (Lília Cabral). E o telespectador ficou sem saber se Griselda estava tendo uma alucinação ou se Teresa Cristina não havia morrido. Sem problemas. O final feliz da mocinha não foi afetado. O máximo que poderia acontecer seria ela ter que continuar enfrentando as armações da rival. Se, no último capítulo de "Império", tivéssemos algo parecido, como uma dúvida sobre a morte de José Pedro/Fabrício Melgaço (Caio Blat), não haveria tanta insatisfação. E, por falar nele, a revelação de que o misterioso Fabrício Melgaço era, na verdade, o primogênito do comendador foi completamente incoerente. O personagem de Caio Blat era, a princípio, um sujeito ambicioso, porém inseguro e completamente dependente da aprovação e das orientações da mãe. Mesmo sob a influência de Silviano (Othon Batos), não faz sentido que ele tenha se tornado o grande vilão, cheio de planos maquiavélicos, ainda mais sem que sua mãe, Maria Marta (Lília Cabral), tomasse consciência de tudo. Como um homem que, apesar dos protestos da esposa, não consegue deixar a casa dos pais, tem a competência para se tornar um vilão que atira no próprio pai com o objetivo de sucedê-lo? Enfim, ao invés de surpreender, a identidade de Fabrício Melgaço causou indignação.

Já começamos a nos acostumar e até a torcer para que alguns antagonistas se deem bem ao final das novelas. Foi o caso da já citada Carminha (Adriana Esteves), de Avenida Brasil. Mas ainda não aceitamos a possibilidade de o protagonista não ter um final feliz. Desde a última sexta-feira, tenho ouvido tudo, menos elogios ao desfecho escolhido pelo autor de "Império" para o núcleo central da novela. Frases do tipo "um novelista tão conceituado não poderia ter feito isso com seu público" ou "o comendador não pode simplesmente morrer com um tiro pelas costas" ainda estão pipocando nas redes sociais. Mesmo com a imagem final, que insinua a segunda ressurreição do comendador, a sequência que marcou o encerramento de "Império" foi a do filho matando o pai e a queda dramática e em câmera lenta deste último. É isso que contou para o telespectador. E é por isso que eu digo: em termos de telenovela, a regra nem sempre é clara, mas, matar um mocinho tão carismático, definitivamente não pode, Aguinaldo.

PS: Só para não dizerem que eu só fiz reclamar do último capítulo de "Império", devo dizer que gostei de três coisas: o sucesso das exposições de Salvador (Paulo Vilhena), o lançamento do livro "O abominável homem de preto" pelo pseudojornalista Theo Pereira (Paulo Betti) e a presença de Aguinaldo Silva na frente das câmeras, como um entusiasta do livro de Theo, levantando a bandeira da liberdade de expressão/imprensa e assinando sua trama como um pai orgulhoso dos filhos.


Paula Faria é jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, além de especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais, pela mesma instituição. Também é publicitária pela Faculdade Estácio de Sá e desenvolve pesquisas relacionadas à comunicação, cultura e identidades, mais especificamente sobre ficção seriada televisiva e música popular brasileira

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