Aline Maia Aline Maia 3/02/2014

Pílulas de Cidadania

Algumas questões a serem consideradas em ano eleitoral

Protestos e CidadaniaCertamente você se recorda das manifestações que levaram milhares de pessoas, principalmente jovens, às ruas de várias cidades brasileiras, no último ano. Talvez você tenha até participado do movimento. No mínimo, acompanhou a ampla cobertura na TV, nas rádios, nos jornais e revistas, na internet. Na pauta de reivindicações, em resumo, a cobrança por justiça, o clamor por dignidade humana e respeito aos cidadãos, o anseio por um país sem corrupção...

Por que lembrar este fato agora? A resposta é muito simples. Mais do que nunca, o "gigante precisa estar bem acordado". Estamos em ano eleitoral, momento oportuno e legítimo para retomar as questões levantadas nas manifestações de 2013. Mas a conclamação popular será um pouco diferente. As multidões com cartazes, faixas e gritos ensaiados de protesto deverão fazer coro de forma individualizada, mas muito potente: mobilizar a consciência, sair de casa e ir para as urnas com a convicção de que a mudança começa na tecla confirma após alguns dígitos. Um ato – direito e dever - que concentra o poder de alterar a história de um país. Do nosso país. Para o bem ou para o mal. Essa é a questão.

Em ano eleitoral – e também de Copa do Mundo no Brasil -, é preciso ter atenção para não se distrair em amenidades. Refletir sobre a situação da saúde, da educação, do emprego e da habitação no país pode ser um primeiro passo em preparação ao tão esperado outubro de 2014 – que vem depois de junho e julho... Como pílulas de cidadania, listo alguns aspectos que não podem ser desprezados. Fatos já noticiados nas mídias, nos últimos meses, e que precisam ser relembrados. Pequenas doses para motivar a reflexão e nos orientar quando chegar o momento de ação.

Educação: 2014 começou com uma informação constrangedora para o Brasil (eu ao menos assim considero). O país figura na oitava posição em número de analfabetos adultos no mundo. O dado é de um relatório divulgado pela Unesco. O Brasil tem mais de 10 milhões de analfabetos, segundo o estudo que avaliou a educação em 150 nações. No ranking, estamos atrás da Índia, China, Paquistão, Bangladesh, Nigéria, Etiópia e Egito. Ainda segundo o relatório, o Brasil cumpriu a meta de investir em educação 6% do PIB. Porém, nos países ricos, o investimento por aluno é três vezes maior. Nesse contexto, emerge, além da necessidade de aumentar os investimentos em educação e aplicar o dinheiro de maneira mais eficiente, a urgência em melhorar a qualidade do ensino. É sabido que apenas colocar mais crianças e adolescentes nas escolas não é garantia de aprendizado.

Emprego: o contexto da educação impactará diretamente na questão de emprego e renda. E neste panorama encontramos situações em certo ponto destoantes. Se, por um lado, segundo algumas pesquisas e pesquisadores, o Brasil vem melhorando o índice de pessoas empregadas, por outro, amarga grande apagão de mão de obra em algumas áreas técnicas e de base. Mas, estudiosos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também destacam um outro aspecto instigante: a ideia de que o país estaria em pleno emprego seria equivocada, porque apesar da taxa de desemprego estar atingindo os menores percentuais da história, a participação também estaria muito baixa. Haveria uma grande parcela de pessoas em idade ativa optando por não trabalhar, sobretudo mulheres e jovens. (Será?!)

Habitação: no fim de 2013, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou que o déficit habitacional no Brasil caiu, em termos absolutos, 6,2% entre 2007 e 2012. Segundo o estudo, o país registrava déficit de 5,59 milhões de habitações em 2007. O número correspondia a 10% do total de habitações no país, à época. Em 2012, o déficit total caiu para 5,24 milhões de habitações (8,53% do total). No entanto, no mesmo período, aumentou o índice que considera o peso que o pagamento de aluguel tem em relação à renda domiciliar. O estudo considera nesta situação domicílios cujo aluguel corresponde a, pelo menos, 30% da renda domiciliar. O número de domicílios cujo valor do aluguel se enquadrava nesta situação subiu de 1,75 milhão em 2007 para 2,29 milhões em 2012. Nesse quesito, a fatia da população mais afetada se enquadra na renda de até três salários mínimos.

Saúde: o IBGE divulgou um relatório em que avalia indicadores sociais brasileiros de 2013. No que diz respeito à saúde, o estudo aponta que são necessários esforços extras para "melhorar a qualidade dos serviços, tornar a saúde pública mais equânime, homogênea no território e capaz de enfrentar os crescentes desafios ligados à dinâmica demográfica". O relatório complementa: "A ampliação dos gastos públicos em saúde se mostra um elemento chave para o financiamento atual e futuro do sistema de saúde brasileiro". Bem, acredito que para muitos brasileiros, principalmente para aqueles que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS), esta constatação não é de todo novidade. Mas, ao constar em um documento, não poderá ser alegada como desconhecida por nossos gestores...

Pílulas, pílulas, pílulas...


Aline Maia é jornalista e professora universitária. Doutoranda em Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Tem experiência em internet, rádio e TV. Interessa-se por pesquisas sobre mídia, juventude e cidadania. Atuante em movimentos populares e religiosos.

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