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    Aline Maia Aline Maia 16/12/2014

    Favela: território de sobrevivência e criatividade

    cidadaniaConstrução histórica e social (e, também, midiática), as favelas e periferias fazem parte do cenário urbano brasileiro há muitas décadas. No entanto, tal presença não é livre de conflitos e contradições: discursos de ausência de civilização e de criminalização do território e de seus moradores permeiam as relações sociais, empurrando cada vez mais para as margens geográficas e simbólicas a diversidade que compõe as regiões periféricas e faveladas. Paralelamente, é notável a absorção, por todo canto das cidades (principalmente nos grandes centros), de músicas, danças e outras produções originadas nestes lugares.

    O desafio é: livrar-se dos estereótipos de violência e de carência que atravessam o imaginário quando se fala em favela (seja em Juiz de Fora, no Rio de Janeiro ou em qualquer parte do Brasil) para dar lugar a uma concepção de espaço rico, plural, produtivo culturalmente e que é parte da cidade – não um apêndice. Estaríamos mais próximos de conceber, então, a favela como um território de sobrevivência e também de criatividade.

    Sobre este assunto entrevistamos a antropóloga Adriana Facina, professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Adriana pesquisa a produção cultural em favelas cariocas e acredita que são necessárias "políticas públicas que de fato mudem a vida das pessoas" para assim conseguirmos acabar com a estigmatização de determinados grupos sociais. Facina também defende a diversidade como um valor e a importância da arte produzida na favela como via de compreensão deste lugar enquanto parte da cidade, e não um território de exceção. Confira a seguir:

    Aline Maia - Por que pesquisar favela?

    Adriana Facina - Eu comecei a pesquisar funk, depois produção cultural de favelas e periferias. A favela acaba sendo o contexto de onde certo tipo de produção estética e artística me interessa. É um contexto onde as pessoas estão muito envolvidas com sobrevivência, tem uma série de precariedades aí, não só materiais, mas de direitos. E que tipo de produção cultural, que tipo de criação artística acontece neste contexto? É uma criação extremamente rica e, ao mesmo tempo, muito criminalizada. Então meu interesse em pesquisar favela vem daí.

    Geralmente, o senso comum rejeita o conceito de tolerância por considerar que este representa uma atitude neutra de quem não quer aceitar o outro, mas apenas 'tolerar', suportar o diferente. A partir de suas pesquisas e experiências sobre a favela e os favelados, como define tolerância e como percebe esta prática em relação a grupos sociais recorrentemente marginalizados?

    - Tolerância, na verdade, é um valor liberal, que tem a ver com uma concepção de liberdade individual, aquele famoso ditado "Minha liberdade começa onde termina a do outro". Teria muito mais a ver com uma sociedade individualista e encapsulada do que propriamente com o convívio com a diversidade. Acho que o mais interessante para a construção de uma sociedade democrática é o convívio e a troca, tendo a diversidade como um valor. Porque com a tolerância parece que a gente está dizendo que o ser diverso é ruim, que a gente tem que tolerar, mas que o melhor seria convivermos só, entre iguais. Isso é bastante perverso. Eu acho que a criminalização dos grupos sociais que têm a ver com a favela, mais especificamente os artistas que eu estudo, está totalmente relacionada a isso. Tanto é que as pessoas são criminalizadas, no entanto, o tipo de arte e cultura que elas produzem é consumido, absorvido, relido e reapropriado das mais diversas formas. Então, na verdade, o que não se tolera é o favelado, e não propriamente a arte que ele produz.

    Há muitas décadas, as periferias fazem parte das cidades brasileiras, principalmente das maiores, inseridas nos processos de crescimento urbanístico. O processo de surgimento destes espaços não foi livre de conflitos, de forma que os cidadãos favelados e periféricos sofreram e ainda sofrem o estigma da marginalidade e da criminalização da pobreza. O que pensa sobre isto?

    - Se a gente for ver o surgimento das áreas onde a pobreza habita e a sua criminalização, não tem só a ver com os processos de crescimento urbanístico. As periferias sim, que foi a expulsão das populações mais pobres dos centros, das áreas mais valorizadas. Mas sempre existiram entre nós, na História das nossas cidades, estes lugares de concentração da pobreza, da população escrava ou ex-escravizados, onde a marginalidade e a criminalização foram sempre presentes. Isso é um processo de longa duração entre nós. A criminalização e marginalização das favelas e periferias hoje é mais um capítulo desta história. Quando a gente fala que a favela surge no início do século XX isso não significa dizer que os territórios da pobreza marginalizada surgiram naquele momento. Isso é muito mais antigo, com os próprios quilombos e os cortiços. Sempre tivemos esta marca que é uma desigualdade brutal, que tem a escravidão como seu símbolo máximo, e produz na configuração das cidades estas zonas, estes enclaves vistos como lugares de perigo, de falta de civilização, que deveriam ser controlados, civilizados, enfim, dependendo de como cada momento histórico vai lidar com isso.

    Você acha possível acabar com essa estigmatização de determinados grupos sociais, como os favelados?

    - Acabar com a estigmatização de determinados grupos sociais não depende só de questões que têm a ver com a ordem do simbólico. Elas são muito importantes, mas dependem de políticas públicas que de fato mudem as vidas das pessoas, que integrem os favelados, os pobres da cidade, de formas mais igualitárias, e não de formas subalternizadas como a gente tem hoje. Isso implicaria você ter outra cidade, portanto, outra sociedade: mais permeável, mais acessível, mais aberta ao diálogo entre os diferentes. O diferente não pode significar esta desigualdade brutal que a gente vive. Então isso implicaria outro esquema de transporte público, outro tipo de investimento e de organização da educação pública, da saúde pública, do direito a moradia. Na verdade, a gente tá falando de direitos de cidadania básica. Enquanto estes direitos não estiverem garantidos, vai ser muito difícil a gente propor acabar com a estigmatização destes grupos sociais. O máximo que a gente consegue é uma integração meio carnavalizada, meio folclórica.

    Em muitos conteúdos midiáticos dos anos 1990, encontramos os moradores de favelas e periferias reduzidos a estereótipos de bandidos, marginais... Representações perversas para sujeitos que por muito tempo foram invisíveis nas 'telonas' e nas 'telinhas', conforme a pesquisadora Esther Hamburger. Considerando a favela como uma construção histórica, social e, também, midiática, você percebe nos meios de comunicação uma mudança na forma de representação do espaço favelado atualmente?

    - Sim, percebo uma mudança. Por um lado você tem a continuidade destas representações perversas, só que elas são mais mediadas, acredito. Temos toda uma história de movimentos sociais e lutas políticas que hoje impedem discursos muito abertos, muito explícitos de racismo, de discriminação, de preconceito em relação a esta população. Então acho que são discursos mais mediados, mais sutis. Não é que esta perspectiva tenha desaparecido, mas ela se coloca de outras formas e isto é mérito das lutas políticas, das lutas sociais que defenderam os direitos destas populações, inclusive o direito à representação. Então acho que temos mudança neste sentido.

    Você acredita que o crescimento do poder aquisitivo de camadas populares nos últimos anos interfere nestas representações?

    - Certamente interfere. Numa sociedade como a nossa, a inclusão via consumo é uma inclusão muito importante. Ela não se confunde com a cidadania, mas ela também tem a ver com uma determinada forma de cidadania. Você consegue ter uma coisa que parece ser esdrúxula, mas é o que ocorre, de você ter acesso ao consumo, cada vez mais 'democratizado', sem que isso esteja relacionado a ampliação de direitos. Para dar um exemplo, nas favelas do Rio de Janeiro nunca tivemos tantas tv's modernas, inclusive muitas com TV a cabo. No entanto, o 'caveirão' continua entrando. Então acho que interfere nas representações, mas não resolve todos os problemas de déficit de cidadania.

    Em uma de suas pesquisas, você liderou um mapeamento cultural na Favela de Acari, no subúrbio do Rio de Janeiro. Na sua opinião, qual a importância da produção artístico-cultural nas favelas para o estabelecimento de um novo olhar sobre a própria favela e seus moradores?

    - Primeiro é uma importância em si: muita coisa boa se faz, independentemente de seus efeitos sociais ou políticos. Muita coisa criativa, inovadora, está sendo feita nas favelas do Rio de Janeiro hoje e Acari é uma delas. Mas, além disso, há este impacto simbólico, político, importante que é você ver a favela não só como espaço de ausência, ou de carência e de violência, mas também de potência, de criatividade, de talentos. Isso é muito importante para entender as favelas como parte da cidade e não como território de exceção, como o poder público as trata e, frequentemente, a grande mídia, os grandes meios de comunicação.

    Você acredita em uma produção cultural genuína da favela? Ou o que temos hoje, de alguma forma, sempre apresentará vestígios de uma Indústria Cultural imperativa?

    - Eu não acredito em produção cultural genuína. Esta ideia de genuína, autêntica, são ideias construídas. Em cada período você vai entender como isso se dá. Estas culturas são culturas híbridas que, obviamente, dialogam, sim, com a Indústria Cultural. O interessante é que, quanto mais investimento público para que estas produções culturais possam ter autonomia e que estes sujeitos possam viver da sua arte, menos a Indústria Cultural será imperativa. Mais este diálogo vai ser não subalternizado, mas um diálogo que faz parte de um dado de nosso mundo contemporâneo. Não tem como pensar em cultura sem pensar em Indústria Cultural. Ela media muito da produção cultural, do consumo cultural. A questão é: em que termos? Quanto mais opções as pessoas tiverem, quanto mais democratizada for a cultura, quanto mais acesso a políticas públicas de cultura que se contraponham muitas vezes ao mercado e que criam alternativas - não só alternativas de produção e fruição, mas alternativas de fazer a vida, de garantir a vida das pessoas com seu trabalho artístico e cultural -, melhor. Eu prefiro falar em riqueza, em florescimento, em dinamismo desta cultura do que propriamente se ela é genuína ou não, autentica ou não. A gente sabe que não existem no nosso contexto culturas que não sejam híbridas, não existem culturas puras; para as culturas que são produzidas na favela, mesma coisa.

    Nossas pesquisas são motivadas por nossos ideais. Em quê você acredita, por que ou quem você luta?

    - Luto pela democratização da cultura, pelos direitos humanos, pela produção intelectual crítica, pela liberdade de expressão.


    Aline Maia é jornalista e professora universitária. Doutoranda em Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Tem experiência em internet, rádio e TV. Interessa-se por pesquisas sobre mídia, juventude e cidadania. Atuante em movimentos populares e religiosos

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