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    Número de professores na rede pública de ensino cai 50% Baixa remuneração e violência podem explicar a evasão

    Pablo Cordeiro
    *Colaboração
    15/10/2009

    O número de professores das redes municipais e estaduais diminuiu cerca de 50% entre 2001 e 2008, segundo dados divulgados pelo Centro de Pesquisas Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) / Anuário 2009. Em 2001, a rede municipal empregava 4.634 professores, enquanto em 2008, o número caiu para 2.497, indicando uma redução de 2.137 profissionais. Na rede estadual, a queda foi de 1.694.

    De acordo com a secretária de Educação da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), Eleuza Barboza, existem 3.983 professores na rede municipal, número que diverge da porcentagem indicada pelo Anuário. Ela afirma que a informação reunida em 2001 pelo Centro de Pesquisas não reflete a realidade do município. "Desconheço a natureza dos dados obtidos. A variação na quantidade de professores não atingiu esta porcentagem." O vereador e um dos coordenadores do Sindicato dos Professores (Sinpro), Roberto Cupolillo, informa que há um efetivo de cerca de 4.500 profissionais nas escolas municipais, número que inclui coordenadores, secretários, diretores, professores efetivos e contratados.

    O Anuário também aponta queda no número de alunos nas escolas públicas do município. No período, a taxa de estudantes nas escolas municipais diminuiu apenas 271. Nas estaduais, a redução foi mais significativa, de 3.363 estudantes. O número de estabelecimentos de ensino público permaneceu na faixa de 125 escolas municipais e 49 estaduais, sendo que nesta última categoria houve queda de uma instituição desde 2001.

    Frustração

    A diretora da Faculdade de Educação da UFJF, Déa Lúcia Pernambuco, acusa a baixa remuneração como indicativo para desvalorização e desinteresse da classe. "O número de alunos na Faculdade não diminuiu, porém a insatisfação com o mercado de trabalho é grande. Ao longo dos anos, a remuneração tem caído, o que frustra os estudantes interessados em seguir carreira e os professores que já estão no mercado", esclarece. Segundo Eleuza Barboza, a remuneração atual para professores de nível médio, que acabam de ingressar na carreira, é de R$ 603,44 para 20 horas semanais e de R$ 889,41 para profissionais com nível superior.

    Mesmo com o descontentamento da classe, refletido na recente greve dos professores, Eleuza pontua que os salários não são necessariamente baixos, apenas relativos, se comparados com outras profissões. "Existe um censo comum de que o professor é desvalorizado e ele acaba achando isso. Se comparados com outras profissões, como médico e engenheiro, os salários são menores. Entretanto, com a carga horária e os benefícios, o valor acaba compensando." A secretária ressalta que além do salário base, o professor recebe um aumento trianual de 10%, fora os acréscimos provenientes do ensino na Zona Rural e a porcentagem relativa às especializações de mestrado e doutorado. 

    Para Cupolillo, que é professor da rede municipal, estadual e particular, a remuneração é o maior descontentamento da classe. "A valorização é alcançada através da luta. Os salários estão aquém da realidade. Para o professor viver com dignidade, tem que trabalhar em mais de um colégio com cargas de até 60 horas semanais. No início, ele recebe muito pouco. Pelo plano de carreira, só vai receber de forma digna quando se aposentar. É um absurdo um professor com doutorado ganhar R$ 2 mil."

    Violência

    Outro ponto responsável pelo desestímulo da classe é a violência nas escolas. "A violência desestimula os profissionais. Seja em escola pública ou particular, a segurança é fundamental, e não é isto que os professores têm encontrado", diz Déa. Ela aponta uma maior preferência dos profissionais pelas escolas particulares, onde a forma de ingresso não depende de concurso público e a violência é menos incidente. "Não é que não existe, mas como a estrutura é melhor e há mais pessoas trabalhando nas escolas particulares, a segurança tranquiliza a categoria."

    Os dados do Anuário 2009 demonstram um aumento de 66% nas escolas particulares da cidade. Em 2001, existiam 149 estabelecimentos, enquanto em 2008, o número subiu para 223. O crescimento reflete diretamente na quantidade de alunos. No período, houve um aumento de 258% no número de estudantes nas escolas particulares. O indicativo subiu de 12.504, em 2001, para 32.280, em 2008.

    Para a professora Luciana Quintella, há 14 anos educando em escola municipal, as baixas remunerações e a crescente violência nas escolas são fatores que contribuem para a evasão dos profissionais. "Há dez anos não existia a violência de hoje. O aluno desrespeita o professor desde a educação infantil até o nono ano. Chamamos a atenção e o adolescente não obedece e ainda discute. Já vi diversos casos em que o aluno xingou e até partiu para cima do professor. Isto desestimula o ensino", ressalta.  Quanto ao desrespeito, Luciana aponta a omissão dos pais como agravante para a situação. "Semana passada recebemos a denúncia de que um grupo de 15 estudantes usava drogas no banheiro. Chamamos os pais e apenas três foram. Temos que educar para depois ensinar."

    Para Eleuza Barboza, os índices de violência nas escolas não estão alarmantes. "A violência existe, mas a escola reflete a sociedade. Atualmente, temos um registro de 30 casos de intervenção em escolas, que vão desde mordidas de crianças até desrespeito aos professores. Para resolver casos deste tipo, contamos com o apoio da Guarda Municipal e da Polícia Militar, que agem em caráter educativo nas escolas." Ciente das limitações da verba para educação em comparação com o número de escolas públicas, Eleuza afirma que muito tem de ser feito. "A educação precisa de uma melhoria geral para o aluno vislumbrar um futuro."

    Desestímulo

    Luciana também acusa as deficiências de infraestrutura das escolas como mais um fator de desestímulo para professores e alunos. "A pouca tecnologia nas escolas dificulta o ensino. Uma sala de informática com dez computadores para 30 alunos desestimula. O espaço físico para aulas práticas e as salas de aula lotadas também sucateiam o ensino." Em resposta às queixas, Eleuza concorda que existem muitas escolas no município com problemas, mas destaca que programas são implantados para resolvê-los. "Estamos tentando reforçar as políticas de valorização dos professores, como a melhoria das condições de trabalho, seja no investimento em capacitação ou melhoria no ambiente de trabalho, através da aquisição de materiais de estudo e programas culturais", destaca.

    Cupolillo ressalta que reclamações provenientes da violência e problemas de falta de estrutura nas escolas são recorrentes no sindicato. "Os baixos salários, a falta de respeito, as condições de trabalho e o estresse levam inúmeras pessoas a estarem de licença médica."

    *Pablo Cordeiro é estudante do 9º período de Comunicação Social da UFJF

    Os textos são revisados por Madalena Fernandes

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