Fora dos Jogos Rio 2016, Ank mira Tóquio 2020

Matheus Brum
*Colaboração
7/05/2016

A vida de um atleta não é nada fácil. Número um do Brasil e um dos 40 melhores do mundo, Alexandre Ank não conseguiu realizar o sonho de disputar a segunda Olimpíada da carreira. A causa? Os velhos problemas da falta de apoio do poder público, que mais uma vez o deixaram na mão. Mas, para quem pensa que se abateu, se engana. Afinal, esse é apenas mais um percalço na vida de um homem que precisa se superar diariamente. Muitas vezes, essas obstruções estão em cada esquina, em cada loja de Juiz de Fora que não possui uma acessibilidade digna. São embaraços que o tiram do sério, mas que dão forças para continuar sua história, servindo de exemplo para melhorar a vida de muitas pessoas. Em um bate papo exclusivo com o Portal ACESSA.com, ele falou sobre as lesões da temporada passada que ainda o incomodam, o orgulho de carregar a Tocha Olímpica, repetindo feito de seu pai, e também sobre os planos para o futuro.

Matheus Brum: Qual tem sido o balanço da temporada até agora?

Alexandre Ank: Tem sido um ano de renovação e muito produtivo. iniciei minha temporada no tênis de mesa, obtendo bons resultados na Copa Brasil, realizada em Brasília, voltando de lesão. Tive um problema muito sério no Parapan-Americano de Toronto, e hoje me encontro numa situação entre operar ou não minha coluna. Tenho uma haste de 30 cm que serve de sustentação para minha coluna, e um dos grampos que a prendem acabou soltando, causando várias dores. Para amenizá-las, comecei a realizar outras atividades para fortalecer a musculatura das costas, como crossfit e corridas de rua. Devo esperar o fim da minha última competição internacional para dar uma parada de tudo e fazer um procedimento cirúrgico para a retirada dessas hastes.

MB: A retirada das hastes pode prejudicar seu desempenho enquanto atleta?

AA: Não, não prejudica no desempenho. A questão principal é a reabilitação e a volta aos treinamentos, onde terei que realizar trabalhos de fortalecimento muscular na região da coluna.

MB: E como foi receber a notícia de que não iria disputar os Jogos Paralímpicos do Rio?

AA: Olha, foi muito triste ter que, mais uma vez, ficar fora de uma Paraolimpíada pela falta de apoio do Poder Público. Hoje sou muito grato aos meus patrocinadores, que me deram apoio para que eu chegasse ao ponto de disputar três etapas internacionais, Espanha, Canadá (Parapan) e Chile, conquistando uma medalha de ouro, três de prata e duas de bronze. Conquistei, ainda, todos os títulos nacionais em 2015. Só que, para disputar competições fora do Brasil, é necessário uma grande quantidade de recursos, e o apoio da Prefeitura de Juiz de Fora e do Governo do Estado é muito importante. Fiz uma solicitação para participar do Bolsa Atleta estadual, e, não sei por que, não fui contemplado. Mesmo assim, continuei trabalhando, mas acabei perdendo duas etapas importantes, na Eslovênia e Eslováquia, quando, nas vésperas do embarque, a PJF não disponibilizou a verba que havia me prometido. Essa situação foi muito frustrante para mim, porque levo o nome de Juiz de Fora para além das fronteiras.

MB: E o que você precisava para ir aos Jogos?

AA: É necessário que você cumpra o Fator. O que é o Fator? É uma pontuação criada pela Confederação Internacional. Cada competição internacional possui uma pontuação (20 ou 40 pontos) que varia de acordo com o nível técnico do evento. Para ir aos Jogos precisava de, no mínimo, 210 pontos. Ou seja, ir a seis campeonatos me daria as condições de cumprir essa pontuação. Porém, a perda dos eventos na Eslovênia e Eslováquia acabou me prejudicando. Para você ter uma ideia, participar dos seis eventos internacionais custa mais ou menos cem mil reais.

MB: Se tivesse ido às competições na Eslovênia e Eslováquia, teria conseguido participar das Paraolimpíadas?

AA: Se cumprisse o fator, teria maiores chances de estar disputando até mesmo por uma indicação da Confederação Brasileira, como aconteceu com alguns atletas.

MB: E depois dessa negativa, como fez para se motivar e seguir seu caminho no esporte?

AA: Olha, fiquei muito triste, mas resolvi me motivar de uma forma inteligente, abraçando as causas sociais. Hoje, tenho visitado várias escolas e entidades, dando palestras, contando um pouco da minha trajetória e das minhas lutas. Tenho também buscado incentivo e motivação através dessas visitas, porque se eu parar de competir, não é só o Alexandre que desistiu, mas sim uma pessoa que se tornou um espelho para várias outras. Eu procuro várias formas de me motivar, para estar competindo, superando as dores e as dificuldades do dia a dia, em busca de resultados importantes para minha carreira, para que continue servindo de exemplo para várias pessoas.

MB: Como foi começar a participar dessas corridas de rua?

AA: Começar a pedalar de handbike já era um projeto planejado. O objetivo era melhorar o condicionamento físico e a parte muscular, me dando mais qualidade de vida para a prática do tênis de mesa. Meu fisioterapeuta um dia acabou me falando para participar dessas corridas de rua para ver como que era, e eu topei o desafio. Aí, recebi o convite da ALAE (Associação de Livre Apoio ao Excepcional) para correr com eles, e passei a fazer parte da equipe que se chama "Vamos correr todos pela inclusão".

MB: Como tem sido participar dessas corridas?

AA: Tem sido muito bacana. Eu sou muito competitivo, então nas duas primeiras corridas eu ganhei como cadeirante e na categoria paralímpico PCD geral. Nessa última, da Unimed, cadenciei mais o ritmo, porque vinha de uma corrida pesada, que foi a Alemã, no Alphaville, que tinha morros que não imaginava que ia conseguir subir. Para você ter uma ideia, não quis conhecer o percurso antes. Era tanta gente falando que não era para ir, que era muito difícil, que eu não ia conseguir, que preferi deixar para ver como que era o trajeto, na hora. Se tivesse dado uma volta de carro antes, provavelmente teria desistido de correr. Consegui completar a prova, fazendo 7Km em 38 minutos. Contudo, foi muito desgastante, me causando algumas lesões nos ombros, que tive ter que tratar depois.

MB: Você pretende conciliar as corridas com as competições de tênis de mesa?

AA: Eu falo que o atleta precisa agregar valores. O patrocínio está muito difícil hoje em dia, por conta da crise financeira que o País atravessa. Então, o que procurei fazer para melhorar? Participar de mais uma modalidade. Para trazer mais resultados, para ter mais visibilidade, ser mais visto na cidade, e trazer mais retorno aos meus patrocinadores. Hoje, eu participo apenas de corridas em Juiz de Fora, mas a ideia é, a partir do ano que vem, começar a experimentar o circuito nacional

MB: Você não vai participar dos Jogos Paralímpicos, mas vai ser um dos condutores da Tocha Olímpica. Como foi receber essa notícia e como tem sido a preparação para esse momento?

AA: Na verdade, num primeiro momento, recebi o convite de conduzir a Tocha pelo Prefeito de Bicas (Geraldo Magela), que fez toda a documentação para fazer o trajeto pela cidade. Posteriormente, depois de tornar isso público pelo Facebook, a Prefeitura de Juiz de Fora lembrou de mim e me convidou para carregar a Tocha. Eu aceitei porque sou atleta da cidade, e deixei a PJF por conta de toda a burocracia da inscrição. Passei para as mãos da Comissão Organizadora dos Jogos a escolha de qual cidade iria percorrer com o símbolo olímpico. Eles, não sei se por conta dos vários pedidos que receberam com a indicação do meu nome, optaram que eu carregasse a Tocha por Juiz de Fora. É uma honra participar desse momento, e vai ser mais um dia ímpar na minha vida. Considero esse momento que vou estar vivenciando no dia 15 de maio como o "Oscar do esporte". E tem um fato inusitado. Em 1950, meu pai conduziu a Tocha em Três Rios-RJ, quando ela passou pelo Brasil. Meio que passou de pai para filho. Quem sabe no futuro eu venha a ter um filho, e ele venha a ser um condutor e um atleta olímpico como eu?

MB: O que você espera dos Jogos Olímpicos no Brasil?

AA: Vivenciei os maiores Jogos da história, que foi Pequim, na China, em 2008, que teve uma estrutura incrível. O Brasil tem muitas falhas, mas, como diz aquele refrão: "a gente é brasileiro e não desiste nunca". Então, não devemos desistir das Olimpíadas. Porque no meio de uma crise política gigante, era para estarmos vivendo uma coisa totalmente diferente. Era para estarmos respirando, vivenciando e amando o esporte. Por quê? Por que o esporte fomenta, dando direitos e deveres, sendo uma ferramenta de sociabilização, que envolve vários povos, independente de cor, raça ou religião. Acho que devemos levar isso para o nosso dia a dia, nos unindo como um povo e uma Nação.

MB: Mesmo sem participar, você vai ao Rio de Janeiro acompanhar os Jogos?

AA: Com certeza eu vou acompanhar os jogos in loco. Eu já tenho visto algumas questões de convites, para estar assistindo ao tênis de mesa e outras modalidades.

MB: Quais seus planos para o restante da temporada?

AA: Manter meus títulos nacionais, disputar o sul-americano e o mundial aberto. Perdi a vaga nas Olimpíadas, mas não parei com o esporte. É hora de começar a treinar e me preparar para os próximos Jogos que vão acontecer em Tóquio, no Japão, em 2020.

MB: Quem te acompanha nas redes sociais percebe que tem feito várias críticas em relação à acessibilidade em Juiz de Fora. É outro tema que pretende engajar mais?

AA: Sim, com certeza. Eu costumo dizer que cumprimos nossos deveres. Quando você fala do dever público, que é respeitar o nosso direito de ir e vir com transporte adaptado e acessibilidade nas ruas, isso não existe na cidade. São raros os locais que você vê uma rampa adequada. As ruas do centro não possuem rampas nas esquinas, e, as que têm, estão fora do padrão de adaptação, causando a queda de várias pessoas, inclusive a minha. Hoje a gente tem um jogo de empurra-empurra. A PJF fala que a acessibilidade nas calçadas é do comerciante, que fala que é do Poder Público. No final, nem um, nem outro, fazem nada. Frequento vários estabelecimentos que não possuem banheiro adaptado ou rampa de acesso. Aí eu te pergunto? Como eles possuem o alvará de funcionamento? Cadê a fiscalização? Isso é uma vergonha. O que falta é fazer a lei ser cumprida.

*Matheus Brum nascido e criado em Juiz de Fora, jornalista em formação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, e desde criança, apaixonado pelo Flamengo e por esportes. Já foi estagiário na Rádio CBN Juiz de Fora. Atualmente é escritor do blog "Entre Ternos e Chuteiras"; colaborador da Web Rádio Nac, apresentando uma coluna de opinião diariamente; editor e apresentador do programa Mosaico, que vai ao ar semanalmente na TVE, canal 12, e é membro da Acesso Comunicação Júnior, Empresa Júnior da Faculdade de Comunicação da UFJF, trabalhando no Departamento de Projetos e no núcleo de Jornalismo

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Fora dos Jogos Rio 2016, Ank mira Tóquio 2020

Matheus Brum
*Colaboração
7/05/2016

A vida de um atleta não é nada fácil. Número um do Brasil e um dos 40 melhores do mundo, Alexandre Ank não conseguiu realizar o sonho de disputar a segunda Olimpíada da carreira. A causa? Os velhos problemas da falta de apoio do poder público, que mais uma vez o deixaram na mão. Mas, para quem pensa que se abateu, se engana. Afinal, esse é apenas mais um percalço na vida de um homem que precisa se superar diariamente. Muitas vezes, essas obstruções estão em cada esquina, em cada loja de Juiz de Fora que não possui uma acessibilidade digna. São embaraços que o tiram do sério, mas que dão forças para continuar sua história, servindo de exemplo para melhorar a vida de muitas pessoas. Em um bate papo exclusivo com o Portal ACESSA.com, ele falou sobre as lesões da temporada passada que ainda o incomodam, o orgulho de carregar a Tocha Olímpica, repetindo feito de seu pai, e também sobre os planos para o futuro.

Matheus Brum: Qual tem sido o balanço da temporada até agora?

Alexandre Ank: Tem sido um ano de renovação e muito produtivo. iniciei minha temporada no tênis de mesa, obtendo bons resultados na Copa Brasil, realizada em Brasília, voltando de lesão. Tive um problema muito sério no Parapan-Americano de Toronto, e hoje me encontro numa situação entre operar ou não minha coluna. Tenho uma haste de 30 cm que serve de sustentação para minha coluna, e um dos grampos que a prendem acabou soltando, causando várias dores. Para amenizá-las, comecei a realizar outras atividades para fortalecer a musculatura das costas, como crossfit e corridas de rua. Devo esperar o fim da minha última competição internacional para dar uma parada de tudo e fazer um procedimento cirúrgico para a retirada dessas hastes.

MB: A retirada das hastes pode prejudicar seu desempenho enquanto atleta?

AA: Não, não prejudica no desempenho. A questão principal é a reabilitação e a volta aos treinamentos, onde terei que realizar trabalhos de fortalecimento muscular na região da coluna.

MB: E como foi receber a notícia de que não iria disputar os Jogos Paralímpicos do Rio?

AA: Olha, foi muito triste ter que, mais uma vez, ficar fora de uma Paraolimpíada pela falta de apoio do Poder Público. Hoje sou muito grato aos meus patrocinadores, que me deram apoio para que eu chegasse ao ponto de disputar três etapas internacionais, Espanha, Canadá (Parapan) e Chile, conquistando uma medalha de ouro, três de prata e duas de bronze. Conquistei, ainda, todos os títulos nacionais em 2015. Só que, para disputar competições fora do Brasil, é necessário uma grande quantidade de recursos, e o apoio da Prefeitura de Juiz de Fora e do Governo do Estado é muito importante. Fiz uma solicitação para participar do Bolsa Atleta estadual, e, não sei por que, não fui contemplado. Mesmo assim, continuei trabalhando, mas acabei perdendo duas etapas importantes, na Eslovênia e Eslováquia, quando, nas vésperas do embarque, a PJF não disponibilizou a verba que havia me prometido. Essa situação foi muito frustrante para mim, porque levo o nome de Juiz de Fora para além das fronteiras.

MB: E o que você precisava para ir aos Jogos?

AA: É necessário que você cumpra o Fator. O que é o Fator? É uma pontuação criada pela Confederação Internacional. Cada competição internacional possui uma pontuação (20 ou 40 pontos) que varia de acordo com o nível técnico do evento. Para ir aos Jogos precisava de, no mínimo, 210 pontos. Ou seja, ir a seis campeonatos me daria as condições de cumprir essa pontuação. Porém, a perda dos eventos na Eslovênia e Eslováquia acabou me prejudicando. Para você ter uma ideia, participar dos seis eventos internacionais custa mais ou menos cem mil reais.

MB: Se tivesse ido às competições na Eslovênia e Eslováquia, teria conseguido participar das Paraolimpíadas?

AA: Se cumprisse o fator, teria maiores chances de estar disputando até mesmo por uma indicação da Confederação Brasileira, como aconteceu com alguns atletas.

MB: E depois dessa negativa, como fez para se motivar e seguir seu caminho no esporte?

AA: Olha, fiquei muito triste, mas resolvi me motivar de uma forma inteligente, abraçando as causas sociais. Hoje, tenho visitado várias escolas e entidades, dando palestras, contando um pouco da minha trajetória e das minhas lutas. Tenho também buscado incentivo e motivação através dessas visitas, porque se eu parar de competir, não é só o Alexandre que desistiu, mas sim uma pessoa que se tornou um espelho para várias outras. Eu procuro várias formas de me motivar, para estar competindo, superando as dores e as dificuldades do dia a dia, em busca de resultados importantes para minha carreira, para que continue servindo de exemplo para várias pessoas.

MB: Como foi começar a participar dessas corridas de rua?

AA: Começar a pedalar de handbike já era um projeto planejado. O objetivo era melhorar o condicionamento físico e a parte muscular, me dando mais qualidade de vida para a prática do tênis de mesa. Meu fisioterapeuta um dia acabou me falando para participar dessas corridas de rua para ver como que era, e eu topei o desafio. Aí, recebi o convite da ALAE (Associação de Livre Apoio ao Excepcional) para correr com eles, e passei a fazer parte da equipe que se chama "Vamos correr todos pela inclusão".

MB: Como tem sido participar dessas corridas?

AA: Tem sido muito bacana. Eu sou muito competitivo, então nas duas primeiras corridas eu ganhei como cadeirante e na categoria paralímpico PCD geral. Nessa última, da Unimed, cadenciei mais o ritmo, porque vinha de uma corrida pesada, que foi a Alemã, no Alphaville, que tinha morros que não imaginava que ia conseguir subir. Para você ter uma ideia, não quis conhecer o percurso antes. Era tanta gente falando que não era para ir, que era muito difícil, que eu não ia conseguir, que preferi deixar para ver como que era o trajeto, na hora. Se tivesse dado uma volta de carro antes, provavelmente teria desistido de correr. Consegui completar a prova, fazendo 7Km em 38 minutos. Contudo, foi muito desgastante, me causando algumas lesões nos ombros, que tive ter que tratar depois.

MB: Você pretende conciliar as corridas com as competições de tênis de mesa?

AA: Eu falo que o atleta precisa agregar valores. O patrocínio está muito difícil hoje em dia, por conta da crise financeira que o País atravessa. Então, o que procurei fazer para melhorar? Participar de mais uma modalidade. Para trazer mais resultados, para ter mais visibilidade, ser mais visto na cidade, e trazer mais retorno aos meus patrocinadores. Hoje, eu participo apenas de corridas em Juiz de Fora, mas a ideia é, a partir do ano que vem, começar a experimentar o circuito nacional

MB: Você não vai participar dos Jogos Paralímpicos, mas vai ser um dos condutores da Tocha Olímpica. Como foi receber essa notícia e como tem sido a preparação para esse momento?

AA: Na verdade, num primeiro momento, recebi o convite de conduzir a Tocha pelo Prefeito de Bicas (Geraldo Magela), que fez toda a documentação para fazer o trajeto pela cidade. Posteriormente, depois de tornar isso público pelo Facebook, a Prefeitura de Juiz de Fora lembrou de mim e me convidou para carregar a Tocha. Eu aceitei porque sou atleta da cidade, e deixei a PJF por conta de toda a burocracia da inscrição. Passei para as mãos da Comissão Organizadora dos Jogos a escolha de qual cidade iria percorrer com o símbolo olímpico. Eles, não sei se por conta dos vários pedidos que receberam com a indicação do meu nome, optaram que eu carregasse a Tocha por Juiz de Fora. É uma honra participar desse momento, e vai ser mais um dia ímpar na minha vida. Considero esse momento que vou estar vivenciando no dia 15 de maio como o "Oscar do esporte". E tem um fato inusitado. Em 1950, meu pai conduziu a Tocha em Três Rios-RJ, quando ela passou pelo Brasil. Meio que passou de pai para filho. Quem sabe no futuro eu venha a ter um filho, e ele venha a ser um condutor e um atleta olímpico como eu?

MB: O que você espera dos Jogos Olímpicos no Brasil?

AA: Vivenciei os maiores Jogos da história, que foi Pequim, na China, em 2008, que teve uma estrutura incrível. O Brasil tem muitas falhas, mas, como diz aquele refrão: "a gente é brasileiro e não desiste nunca". Então, não devemos desistir das Olimpíadas. Porque no meio de uma crise política gigante, era para estarmos vivendo uma coisa totalmente diferente. Era para estarmos respirando, vivenciando e amando o esporte. Por quê? Por que o esporte fomenta, dando direitos e deveres, sendo uma ferramenta de sociabilização, que envolve vários povos, independente de cor, raça ou religião. Acho que devemos levar isso para o nosso dia a dia, nos unindo como um povo e uma Nação.

MB: Mesmo sem participar, você vai ao Rio de Janeiro acompanhar os Jogos?

AA: Com certeza eu vou acompanhar os jogos in loco. Eu já tenho visto algumas questões de convites, para estar assistindo ao tênis de mesa e outras modalidades.

MB: Quais seus planos para o restante da temporada?

AA: Manter meus títulos nacionais, disputar o sul-americano e o mundial aberto. Perdi a vaga nas Olimpíadas, mas não parei com o esporte. É hora de começar a treinar e me preparar para os próximos Jogos que vão acontecer em Tóquio, no Japão, em 2020.

MB: Quem te acompanha nas redes sociais percebe que tem feito várias críticas em relação à acessibilidade em Juiz de Fora. É outro tema que pretende engajar mais?

AA: Sim, com certeza. Eu costumo dizer que cumprimos nossos deveres. Quando você fala do dever público, que é respeitar o nosso direito de ir e vir com transporte adaptado e acessibilidade nas ruas, isso não existe na cidade. São raros os locais que você vê uma rampa adequada. As ruas do centro não possuem rampas nas esquinas, e, as que têm, estão fora do padrão de adaptação, causando a queda de várias pessoas, inclusive a minha. Hoje a gente tem um jogo de empurra-empurra. A PJF fala que a acessibilidade nas calçadas é do comerciante, que fala que é do Poder Público. No final, nem um, nem outro, fazem nada. Frequento vários estabelecimentos que não possuem banheiro adaptado ou rampa de acesso. Aí eu te pergunto? Como eles possuem o alvará de funcionamento? Cadê a fiscalização? Isso é uma vergonha. O que falta é fazer a lei ser cumprida.

*Matheus Brum nascido e criado em Juiz de Fora, jornalista em formação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, e desde criança, apaixonado pelo Flamengo e por esportes. Já foi estagiário na Rádio CBN Juiz de Fora. Atualmente é escritor do blog "Entre Ternos e Chuteiras"; colaborador da Web Rádio Nac, apresentando uma coluna de opinião diariamente; editor e apresentador do programa Mosaico, que vai ao ar semanalmente na TVE, canal 12, e é membro da Acesso Comunicação Júnior, Empresa Júnior da Faculdade de Comunicação da UFJF, trabalhando no Departamento de Projetos e no núcleo de Jornalismo

Fora dos Jogos Rio 2016, Ank mira Tóquio 2020

Matheus Brum
*Colaboração
7/05/2016

A vida de um atleta não é nada fácil. Número um do Brasil e um dos 40 melhores do mundo, Alexandre Ank não conseguiu realizar o sonho de disputar a segunda Olimpíada da carreira. A causa? Os velhos problemas da falta de apoio do poder público, que mais uma vez o deixaram na mão. Mas, para quem pensa que se abateu, se engana. Afinal, esse é apenas mais um percalço na vida de um homem que precisa se superar diariamente. Muitas vezes, essas obstruções estão em cada esquina, em cada loja de Juiz de Fora que não possui uma acessibilidade digna. São embaraços que o tiram do sério, mas que dão forças para continuar sua história, servindo de exemplo para melhorar a vida de muitas pessoas. Em um bate papo exclusivo com o Portal ACESSA.com, ele falou sobre as lesões da temporada passada que ainda o incomodam, o orgulho de carregar a Tocha Olímpica, repetindo feito de seu pai, e também sobre os planos para o futuro.

Matheus Brum: Qual tem sido o balanço da temporada até agora?

Alexandre Ank: Tem sido um ano de renovação e muito produtivo. iniciei minha temporada no tênis de mesa, obtendo bons resultados na Copa Brasil, realizada em Brasília, voltando de lesão. Tive um problema muito sério no Parapan-Americano de Toronto, e hoje me encontro numa situação entre operar ou não minha coluna. Tenho uma haste de 30 cm que serve de sustentação para minha coluna, e um dos grampos que a prendem acabou soltando, causando várias dores. Para amenizá-las, comecei a realizar outras atividades para fortalecer a musculatura das costas, como crossfit e corridas de rua. Devo esperar o fim da minha última competição internacional para dar uma parada de tudo e fazer um procedimento cirúrgico para a retirada dessas hastes.

MB: A retirada das hastes pode prejudicar seu desempenho enquanto atleta?

AA: Não, não prejudica no desempenho. A questão principal é a reabilitação e a volta aos treinamentos, onde terei que realizar trabalhos de fortalecimento muscular na região da coluna.

MB: E como foi receber a notícia de que não iria disputar os Jogos Paralímpicos do Rio?

AA: Olha, foi muito triste ter que, mais uma vez, ficar fora de uma Paraolimpíada pela falta de apoio do Poder Público. Hoje sou muito grato aos meus patrocinadores, que me deram apoio para que eu chegasse ao ponto de disputar três etapas internacionais, Espanha, Canadá (Parapan) e Chile, conquistando uma medalha de ouro, três de prata e duas de bronze. Conquistei, ainda, todos os títulos nacionais em 2015. Só que, para disputar competições fora do Brasil, é necessário uma grande quantidade de recursos, e o apoio da Prefeitura de Juiz de Fora e do Governo do Estado é muito importante. Fiz uma solicitação para participar do Bolsa Atleta estadual, e, não sei por que, não fui contemplado. Mesmo assim, continuei trabalhando, mas acabei perdendo duas etapas importantes, na Eslovênia e Eslováquia, quando, nas vésperas do embarque, a PJF não disponibilizou a verba que havia me prometido. Essa situação foi muito frustrante para mim, porque levo o nome de Juiz de Fora para além das fronteiras.

MB: E o que você precisava para ir aos Jogos?

AA: É necessário que você cumpra o Fator. O que é o Fator? É uma pontuação criada pela Confederação Internacional. Cada competição internacional possui uma pontuação (20 ou 40 pontos) que varia de acordo com o nível técnico do evento. Para ir aos Jogos precisava de, no mínimo, 210 pontos. Ou seja, ir a seis campeonatos me daria as condições de cumprir essa pontuação. Porém, a perda dos eventos na Eslovênia e Eslováquia acabou me prejudicando. Para você ter uma ideia, participar dos seis eventos internacionais custa mais ou menos cem mil reais.

MB: Se tivesse ido às competições na Eslovênia e Eslováquia, teria conseguido participar das Paraolimpíadas?

AA: Se cumprisse o fator, teria maiores chances de estar disputando até mesmo por uma indicação da Confederação Brasileira, como aconteceu com alguns atletas.

MB: E depois dessa negativa, como fez para se motivar e seguir seu caminho no esporte?

AA: Olha, fiquei muito triste, mas resolvi me motivar de uma forma inteligente, abraçando as causas sociais. Hoje, tenho visitado várias escolas e entidades, dando palestras, contando um pouco da minha trajetória e das minhas lutas. Tenho também buscado incentivo e motivação através dessas visitas, porque se eu parar de competir, não é só o Alexandre que desistiu, mas sim uma pessoa que se tornou um espelho para várias outras. Eu procuro várias formas de me motivar, para estar competindo, superando as dores e as dificuldades do dia a dia, em busca de resultados importantes para minha carreira, para que continue servindo de exemplo para várias pessoas.

MB: Como foi começar a participar dessas corridas de rua?

AA: Começar a pedalar de handbike já era um projeto planejado. O objetivo era melhorar o condicionamento físico e a parte muscular, me dando mais qualidade de vida para a prática do tênis de mesa. Meu fisioterapeuta um dia acabou me falando para participar dessas corridas de rua para ver como que era, e eu topei o desafio. Aí, recebi o convite da ALAE (Associação de Livre Apoio ao Excepcional) para correr com eles, e passei a fazer parte da equipe que se chama "Vamos correr todos pela inclusão".

MB: Como tem sido participar dessas corridas?

AA: Tem sido muito bacana. Eu sou muito competitivo, então nas duas primeiras corridas eu ganhei como cadeirante e na categoria paralímpico PCD geral. Nessa última, da Unimed, cadenciei mais o ritmo, porque vinha de uma corrida pesada, que foi a Alemã, no Alphaville, que tinha morros que não imaginava que ia conseguir subir. Para você ter uma ideia, não quis conhecer o percurso antes. Era tanta gente falando que não era para ir, que era muito difícil, que eu não ia conseguir, que preferi deixar para ver como que era o trajeto, na hora. Se tivesse dado uma volta de carro antes, provavelmente teria desistido de correr. Consegui completar a prova, fazendo 7Km em 38 minutos. Contudo, foi muito desgastante, me causando algumas lesões nos ombros, que tive ter que tratar depois.

MB: Você pretende conciliar as corridas com as competições de tênis de mesa?

AA: Eu falo que o atleta precisa agregar valores. O patrocínio está muito difícil hoje em dia, por conta da crise financeira que o País atravessa. Então, o que procurei fazer para melhorar? Participar de mais uma modalidade. Para trazer mais resultados, para ter mais visibilidade, ser mais visto na cidade, e trazer mais retorno aos meus patrocinadores. Hoje, eu participo apenas de corridas em Juiz de Fora, mas a ideia é, a partir do ano que vem, começar a experimentar o circuito nacional

MB: Você não vai participar dos Jogos Paralímpicos, mas vai ser um dos condutores da Tocha Olímpica. Como foi receber essa notícia e como tem sido a preparação para esse momento?

AA: Na verdade, num primeiro momento, recebi o convite de conduzir a Tocha pelo Prefeito de Bicas (Geraldo Magela), que fez toda a documentação para fazer o trajeto pela cidade. Posteriormente, depois de tornar isso público pelo Facebook, a Prefeitura de Juiz de Fora lembrou de mim e me convidou para carregar a Tocha. Eu aceitei porque sou atleta da cidade, e deixei a PJF por conta de toda a burocracia da inscrição. Passei para as mãos da Comissão Organizadora dos Jogos a escolha de qual cidade iria percorrer com o símbolo olímpico. Eles, não sei se por conta dos vários pedidos que receberam com a indicação do meu nome, optaram que eu carregasse a Tocha por Juiz de Fora. É uma honra participar desse momento, e vai ser mais um dia ímpar na minha vida. Considero esse momento que vou estar vivenciando no dia 15 de maio como o "Oscar do esporte". E tem um fato inusitado. Em 1950, meu pai conduziu a Tocha em Três Rios-RJ, quando ela passou pelo Brasil. Meio que passou de pai para filho. Quem sabe no futuro eu venha a ter um filho, e ele venha a ser um condutor e um atleta olímpico como eu?

MB: O que você espera dos Jogos Olímpicos no Brasil?

AA: Vivenciei os maiores Jogos da história, que foi Pequim, na China, em 2008, que teve uma estrutura incrível. O Brasil tem muitas falhas, mas, como diz aquele refrão: "a gente é brasileiro e não desiste nunca". Então, não devemos desistir das Olimpíadas. Porque no meio de uma crise política gigante, era para estarmos vivendo uma coisa totalmente diferente. Era para estarmos respirando, vivenciando e amando o esporte. Por quê? Por que o esporte fomenta, dando direitos e deveres, sendo uma ferramenta de sociabilização, que envolve vários povos, independente de cor, raça ou religião. Acho que devemos levar isso para o nosso dia a dia, nos unindo como um povo e uma Nação.

MB: Mesmo sem participar, você vai ao Rio de Janeiro acompanhar os Jogos?

AA: Com certeza eu vou acompanhar os jogos in loco. Eu já tenho visto algumas questões de convites, para estar assistindo ao tênis de mesa e outras modalidades.

MB: Quais seus planos para o restante da temporada?

AA: Manter meus títulos nacionais, disputar o sul-americano e o mundial aberto. Perdi a vaga nas Olimpíadas, mas não parei com o esporte. É hora de começar a treinar e me preparar para os próximos Jogos que vão acontecer em Tóquio, no Japão, em 2020.

MB: Quem te acompanha nas redes sociais percebe que tem feito várias críticas em relação à acessibilidade em Juiz de Fora. É outro tema que pretende engajar mais?

AA: Sim, com certeza. Eu costumo dizer que cumprimos nossos deveres. Quando você fala do dever público, que é respeitar o nosso direito de ir e vir com transporte adaptado e acessibilidade nas ruas, isso não existe na cidade. São raros os locais que você vê uma rampa adequada. As ruas do centro não possuem rampas nas esquinas, e, as que têm, estão fora do padrão de adaptação, causando a queda de várias pessoas, inclusive a minha. Hoje a gente tem um jogo de empurra-empurra. A PJF fala que a acessibilidade nas calçadas é do comerciante, que fala que é do Poder Público. No final, nem um, nem outro, fazem nada. Frequento vários estabelecimentos que não possuem banheiro adaptado ou rampa de acesso. Aí eu te pergunto? Como eles possuem o alvará de funcionamento? Cadê a fiscalização? Isso é uma vergonha. O que falta é fazer a lei ser cumprida.

*Matheus Brum nascido e criado em Juiz de Fora, jornalista em formação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, e desde criança, apaixonado pelo Flamengo e por esportes. Já foi estagiário na Rádio CBN Juiz de Fora. Atualmente é escritor do blog "Entre Ternos e Chuteiras"; colaborador da Web Rádio Nac, apresentando uma coluna de opinião diariamente; editor e apresentador do programa Mosaico, que vai ao ar semanalmente na TVE, canal 12, e é membro da Acesso Comunicação Júnior, Empresa Júnior da Faculdade de Comunicação da UFJF, trabalhando no Departamento de Projetos e no núcleo de Jornalismo