Adoção: conto ou não conto? Diga sempre a verdade. Mais que evitar problemas, essa conversa demonstra compromisso com a história da pessoa que se escolheu para amar

Fernanda Leonel
Repórter
29/06/06


Filhos que descobrem que são adotivos, jogam na cara dos pais de coração que eles não podem cobrar nada, porque não possuem seu sangue. Essa situação é muito comum. Veja as dicas da psicóloga Lúcia Geara, sobre como se portar. Clique para assistir ao vídeo!



Contar ou não contar? Eis a questão. O trocadilho sob a famosa frase de Sheakspeare, é considerado por muitos pais que escolheram ter filhos de coração, um dos posicionamentos mais difíceis de serem tomados durante a criação do novo membro da família.

Nos quesitos amor e intenção de se fazer o melhor pelo pequeno ou pequena não há discussão. Mas os métodos que cada responsável entende como ideal sim! Como destaca a psicóloga Lúcia Bargiona Geara (foto abaixo), muitos pais ainda acreditam que podem sustentar essa mentira e acabam adiando um momento que é imprescindível.

Tentar adiar continuamente essa conversa, acaba refletindo, mesmo que sem querer, uma excessiva preocupação dos pais com eles mesmos. Como se tentassem evitar um momento difícil, que não deixa de ser assim, mas que evita outros piores ainda.

"Mentira tem perna curta. E essa é a maior verdade que existe. Os pais tem que pensar em fazer isso antes que alguém faça. Sempre tem alguém que sabe da história e que pode "soltá-la" de maneira imprópria", complementa Geara.

Para ela, dizer a verdade, mais que fundamental, é um compromisso com a história de quem se escolheu para amar. Demonstra respeito com uam pessoa que agora faz parte da vida comum de maneira tão intensa.

A psicóloga aconselha que os pais, a partir do momento que pegaram a criança para criar, coloquem expressões no repertório habitual da família que façam com que ela se acostume com a idéia de que algumas crianças no mundo são "filhos de coração" e que outras são "filhos de barriga", mas que o amor é sempre enorme em todos os dois casos.

Como destaca Lúcia, a palavra adoção não deve ficar estigmatizada, porque até que o filho ganhe certa maturidade, classificar ou repetir tal classificação pode gerar efeito contrário: o filho pode se sentir diferente demais.

Mas não "estigmatizar" não quer dizer "esconder". Durante toda a infância devem existir conversas sobre a adoção, nas quais as crianças tem que suas perguntas respondidas com honestidade e clareza.

Como e quando fazer?

É preciso contar que os filhos são adotivos o mais rápido possível. Essa é a resposta dos especialistas. A partir do momento que a criança já possui condições de diferenciar e entender o significado da sua "condição de filho", ela já pode ter suas dúvidas esclarecidas.

Até os três anos de idade as crianças não costumam demonstrar qualquer interesse sobre adoção ou o seu significado. Antes dessa idade, comece a usar frases que façam com que seu filho vá entendendo as razões e boa vontade da adoção.

Fale frases cheias de ternura, para que os pequenos as associe a sentimentos positivos. "Estou muito feliz de ter adotado um menino tão carinhoso como você". "Meu filho, o momento mais feliz de nossa vida foi o dia em que adotamos você".

Entre três e cinco anos, os filhos começam a fazer perguntas do tipo "De onde vêm as crianças", "Eu vim da sua barriga?" Explique ao seu filho as maneiras como o bebê vem ao mundo; que todas as crianças devem ter uma família e que a adoção é uma maneira de conseguir um pai, uma mãe e uma família para os bebês que nasceram em outras barrigas. Mas que os que nasceram em outras barrigas são tão queridos e amados pelas mães adotivas como se tivessem nascidos delas.

Essa é uma forma positiva de deixar as coisas claras, que vai preparando a criança para a recepção da notícia. Mas se você não conseguir fazer isso até os cinco anos de idade, que é o recomendado, Lúcia Geara aconselha os pais esperem que a fase que vai dos "cinco aos sete" anos passe.

A psicóloga destaca que essa é uma fase muito importante na formação da criança. Receber uma notícia de adoção nestes dois anos, pode fazer com que a criança entenda isso como um sentimento de perda e que carregue para a maturidade, traumas de rejeição.

Passada essa fase, volta-se a abrir possibilidades para o dia da verdade entre pais e filhos. E mais uma vez os responsáveis não podem "enrolar" para abrir o jogo, porque, de acordo com a psicologia, é aconselhável que essa revelação aconteça antes da chegada da adolescência.

Nunca é demais insistir no fato de que todo adolescente reage como um adolescente, e que, se acertar em um assunto tão delicado com alguém que está mais revoltado e impaciente pode ser muito mais difícil. Como brinca Lúcia, se o pais não contaram até a adolescência, vão entrar em um jogo perigoso, porque o conselho é que ele espere que o filho complete pelo menos 17 anos para que o assunto "volte à pauta", mas, ao mesmo tempo, corre-se o risco de se enfrentar uma das piores fases para explicação da mentira, caso ela seja descoberta.

A prática

Matheus Hugo Rezende, está vivendo a experiência da paternidade pela primeira vez. Ele e a esposa, Stéfani, adotaram Júlio, logo que ele saiu da maternidade.

Como explica Matheus, na casa de seus pais trabalha uma senhora como doméstica há muitos anos que é considerada como que da família. Foi essa senhora, a dona Magali, que avisou que uma sobrinha dela ia ter mais uma criança e que não ia ter condições de criar.

Magali já sabia da história do filho da patroa e imaginou que a história ia ficar boa para ambos os lados. Como conta Matheus, na época da adoção, a mãe do bebê chegou a dizer que ficava com o coração menos apertado porque conhecia a família que agora ia ser do seu filho. E que ela esperava que eles o criassem bem.

E é com essa situação que o jovem casal está dando um show de criação. Já falam com o bebê desde já que ele é amado, mas que não saiu da barriga de Stéfani e se preparam para, logo que Júlio completar três anos de idade, contar toda a verdade à ele.

"Falo desde já porque acredito nas coisas do insconciente. Se ele percebe que eu o amo, mesmo sem saber o que é amor, vai entender o lado bom que enxergamos da adoção, mesmo sem sabendo o significado da palavra", explica Matheus.

O pai acrescenta ainda que vai ajudar o filho a entender toda a sua história, e que, se Júlio, em algum momento da vida quiser procurar os pais biológicos, vai dar todo apoio.

Essa é atitude que a psicóloga Lúcia Geara diz ser a mais válida para aplicação pelos pais. Ela afirma que a criança tem o direito de saber toda a sua história e, que apesar de muita gente acreditar que não, cada uma vai traçando sua "necessidade de informação" segundo a própria personalidade.

"Responda sempre o que ela quer saber. Não omita nada. Mesmo que a história dela for um pouco triste. Cada pai ama o suficiente para traduzir a versão, sem traumas e sem mentiras", resume a psicóloga. Para Lúcia, o importante é que a criança se sinta amada, parte daquela família que a abrigou, e que entenda que tudo foi feito para o bem dos dois lados.

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