Exposição na internet pode causar crises de ciúme Muitas são as ferramentas disponíveis para que homens e mulheres se sintam inseguros quanto aos seus relacionamentos

Marinella Souza
*Colaboração
28/07/2008

Em tempos de internet e celular, a cultura do "big brother" impera na sociedade e a mulher ciumenta conta com uma arma a mais na tarefa de controlar o seu amado. Os sites de relacionamento, os programas de mensagem instantânea e as agendas dos celulares são o pivô de quase todos os conflitos entre casais nos dias de hoje.

Inúmeros casais desfazem suas páginas ou mantêm uma em conjunto para evitar problemas, mas será que essa é a melhor maneira de evitar os mal-entendidos?? A advogada Aline** acredita que as páginas em conjunto são a melhor solução.

"No meu caso, foi a maneira que eu encontrei de não perder contato com meus amigos que moram fora e evitar que as outras pessoas nos procurem com outras intenções".

Aline já viveu os dois lados dessa situação. Com o primeiro marido, ela era a vigiada, as brigas eram tantas, que ela chegou a cancelar seu perfil em um site de relacionamento. Viúva e com um novo namorado, Aline sentiu-se enciumada quando ele começou a conversar com a ex.

"Chegamos a um consenso e eliminamos nossos perfis, mas eu tenho amigos que moram em outra cidade, pessoas com as quais mantenho contato pela internet e eu não queria perder isso. O perfil do casal foi a melhor solução", conta.

É, mas nem sempre essa fusão dá certo. A assistente administrativa Roberta** conta que ela e o marido tinham um e-mail em conjunto, mas não deu certo. "Ele lia os e-mails endereçados a mim. No início, achava bonitinho, mas depois eu me senti invadida. Ele chegou ao ponto de responder os recados que meus amigos me mandavam", revela.

Depois de muitas brigas, o casal resolveu criar senhas diferentes para o acesso dos e-mails e Roberta relembra que o que mais a incomodava era a falta de privacidade. "Eu nunca escondi nada dele, então, não via motivo para que ele vasculhasse as minhas coisas".

Foto da psicóloga Leandra O que pode parecer a melhor saída, pode ser um motivo a mais para os conflitos entre o casal. Segundo a psicóloga, Leandra Duarte (foto ao lado), cada um tem que ter direito à sua privacidade, à sua liberdade. "Quando você cria um e-mail ou uma página na internet em conjunto, você está dando ao outro o direito de espionar a sua vida, interpretar seus recados da maneira que lhe convier", diz.

Leandra explica que a contínua exposição a qual estamos submetidos hoje em dia faz com que as pessoas se sintam no direito de vigiar, da mesma forma que são vigiadas e isso gera desencontros, conflitos e interpretações enganosas.

O problema é que nem sempre as interpretações são enganosas, como aconteceu com a publicitária Camila**, que descobriu a traição do ex-namorado quando teve que entrar no e-mail dele. "Nunca fui ciumenta, ele me deu a senha e eu entrei porque precisei. Não queria vasculhar nada, mas vi fotos dele me traindo não com uma mulher, mas com outro homem", recorda.

Depois desse episódio, a moça ficou com um "pé atrás" e quem paga a conta é o atual namorado. "Agora eu fico mais em cima, cuido mais. Fiz meu namorado falar quem eram os contatos dele num programa de mensagens instantâneas um por um. Acho ótimo que ele não participe de sites de relacionamento", declara.

Além da falta de privacidade, a psicóloga vê um outro grande problema em tamanha intimidade. "Essas relações muito 'coladas' em que um é tudo para o outro e o outro é tudo para o um não são nada saudáveis. Em uma relação cada um tem que ter o seu espaço, é preciso que se respeite isso", alerta.

Até que ponto é traição?

Todas as entrevistadas são categóricas quanto à nova modalidade de traição que os tempos modernos inventaram. Manter contato com outras mulheres pela internet, com segundas intenções é traição, sim.

Roberta confessa que não gostaria que o marido trocasse recadinhos de amor por esses sites. "Além de ser uma forma de traição, você fica exposto ao ridículo porque esses sites são abertos a quem quiser ver. Seria falta de respeito", diz.

Para Camila, manter contato com outras mulheres não seria traição, desde que fossem amigas. "Mas se tiver outras intenções eu fico brava". Mas ela diz que só terminaria o namoro se a situação permanecesse. "Se eu descobrisse que ele tem um relacionamento virtual, eu ia conversar, dizer que não gosto, mas se ele insistisse, eu terminaria, sim!".

Foto de de um celular tocando, aparecendo o nome Lindona Aline acredita que mesmo sem o contato entres os corpos, se houve a intenção de estar com outra pessoa é traição. "Traição não precisa ser só física. Para mim, ela é psicológica também". Mas a moça faz uma ressalva. "Se eu participar da conversa, não considero traição. Isso depende do casal, tem gente que não gosta, eu acho saudável", comenta.

Na opinião da psicóloga essa é uma questão que depende muito do casal, porém uma coisa é certa, "se você procura uma outra pessoa é porque seu parceiro não te satisfaz, é sinal de que algo está errado nessa história", diz a psicóloga.

Leandra garante que o diálogo é o melhor caminho. "A partir do momento que você se propõe a fazer parte de uma dessas páginas, deixa seu recado ali, você fica sujeito às interpretações equivocadas, cabe aos dois conversarem sobre o que está escrito ali e desfazer o mal-entendido".

A psicóloga acrescenta que a internet, ao mesmo tempo em que auxilia na comunicação entre as pessoas, pode ser uma ferramenta prejudicial porque "supre a carência das pessoas e reduz o contato com o outro. Isso pode ser um problema porque as pessoas podem se apegar a esse tipo de relação e não se arriscar mais a sair de casa e conhecer novas pessoas numa balada, por exemplo. Pela internet, os riscos e os compromissos são menores e isso é sedutor", explica.

**Para preservar a identidade das entrevistadas, os nomes foram modificados

*Marinella Souza é estudante de Comunicação Social na UFJF

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