Campeões de venda! Ambulantes aproveitam as vitórias do Brasil para faturar vendendo produtos aos torcedores mais animados

Fernanda Leonel
Repórter
19/06/2006

Vitória do Brasil. Dia de comemoração. Motivo de alegria para milhões de juizforanos que saíram às ruas para fazer barulho e soltar o sorriso. Sorriso largo, mas que não é maior que o de algumas pessoas que além de comemorar os gols têm um motivo a mais para querer que o Brasil chegue até a final.

O que não falta em dias de jogo do Brasil são camisetas, bonés, cornetas e bandeiras dando sopa pela cidade. São eles, os ambulantes, que apostaram na sazonalidade da paixão do brasileiro para faturar, fazer dinheiro nesta época do ano. As esquinas viraram caixas, os canteiros vitrines. Tudo para cumprir aquela velha e conhecida regra de que "quem não é lembrado não é visto".

Tentando fazer analogias, é possível dizer que cada um, à sua maneira simples, aprendeu truques e táticas de mercados, mesmo sem se dar conta disso. Alguns, se expõem no melhor ponto, outros têm o melhor preço. Muitos chamam a freguesia com versos repetitivos, enquanto outros cantam, simulando uma espécie de jingle improvisado.

Famílias inteiras, solteiros que descobriram renda. Uma infinidade de pessoas que, entre a legalidade concedida ou a ilegalidade questionada e temida, estão fazendo dinheiro em época de Copa do Mundo: a festa que impulsiona desde a motivação para as compras até conversas de elevador.

O bairro Alto dos Passos é a prova viva de tudo isso. Quem foi para o point oficial da comemoração da vitória do Brasil não pôde deixar de perceber como dezenas de juizforanos tentavam ganhar o pão de cada dia com a ajuda dos meninos do Parreira.

Gente que vendia pantufa e agora confecciona o produto em verde e amarelo, pessoas que vendiam bonés e investiram no estoque daqueles que possuem a bandeira do Brasil, mulheres artesãs que cada dia inventam mais bijouterias com as cores da seleção.

Eu só trabalho com verde e amarelo!

O comércio impulsionado pelo campeonato mundial é tão interessante que tem gente que chega a trocar de profissão durante os 64 jogos para aumentar a renda da família. Esse é o caso de Antônio Rodrigues (foto), que desde a abertura oficial da Copa deixou de lado suas obrigações como auxiliar de impressão.

Durante os 365 dias dos três anos que não há Copa, mais os 335 dias do ano que acontece o mundial, ele trabalha oito horas por dia em uma gráfica da cidade. Depois, com a chegada da festa planetária, ele se prepara para encarnar todas as publicidades que imprimiu, na venda de camisetas da seleção.

Esse é o segundo ano que Antônio troca de atividade. Como ele mesmo contou, na primeira vez que resolveu ir para a rua vender camisetas, estava de férias da gráfica, e tudo aconteceu meio por acaso. "A gente que trabalha demais não consegue ficar muito tempo à toa. E nem pode, né?", brinca.

Antônio cansou de ver pela TV as partidas da competição na Coréia e no Japão. Resolveu participar da festa como podia. Ele conta que nunca foi acostumado a ficar à toa e que nas comemorações do Alto dos Passos viu a possibilidade de ganhar uma graninha.

E valeu a pena! Os lucros que ele teve durante os 30 dias de jogo foram maiores que o seu salário de três meses na gráfica. "na primeira compra que fiz em São Paulo, trouxe pouca coisas, porque estava com medo de ter que doar camisetas para todos os meus vizinhos. Acabou no primeiro jogo, eu nem acreditei", comenta, respondendo sobre a lucratividade do negócio.

O dinheiro foi bem-vindo e o auxiliar de impressão resolveu repetir a dose. Para o campeonato de 2006, Antônio diz ter tido trabalho para conseguir estar nas ruas.

Ele teve que negociar com colegas e deixar de tirar férias em outros períodos para poder estar fora da gráfica em julho.

"Foi um sufoco. Ainda bem que trabalho lá há muito tempo e que o pessoal sabe que uma coisa não vai atrapalhar a outra. Então, dão um jeito de garantir a minha folga", explica.

Para esse ano, Antônio não marcou bobeira. Comprou mais camisetas, sem medo de fazer estoque. Também não é para menos. De acordo com as contas do ambulante, a venda de camisetas da seleção, em dia de jogo do Brasil chega a cem unidades, aproximadamente.

Brasileiro é empolgado. Ficam felizes com vitórias e querem comemorar em grande estilo. Niguém pára para pensar muito se o dinheiro da compra vai dar ou não. Tem muito impulso na hora de comprar cerveja e camiseta hoje", opina.

Barulho também traz lucro

Essa também é a opinião de Rogério Gomes (foto), vendedor de cornetas durante essa copa. Ele acredita que os juizforanos não economizam na hora de demostrar a sua paixão pelo futebol.

Não que seu produto seja caro. Não é. Mas para exemplificar como as pessoas compram mesmo prdutos verde-amarelos, ele conta que o mesmo pai chega a comprar quatro cornetas na mesma hora. Uma para cada um dos filhos, mesmo que uma seja exatamente igual a outra.

E é esse impulso de compra dos brasileiros que fazem com que ele e a família saiam todos os dias de casa para fazer barulho e chamar a atenção dos clientes. Há exatamente seis copas do mundo.

Rogério é ambulante por profissão. Vende óculos de sol e meias em outras épocas do ano em diversos pontos da cidade. Com a barraquinha montada, sustenta a família de cinco filhos. E é só nessa época do ano, vendendo produtos da Copa, que ele, por ganhar mais, pode aproveitar para dar uma aliviada nas contas da casa.

No dia da partida e depois do jogo. Esses são os melhores momentos para as vendas de Rogério. Na somatória desses dois momentos, ele afirma que repassa para os clientes, em média 300 cornetas. Quantidades que é cuidadosamente calculada para compra. Tudo, fruto da experiência do senhor de 54 anos, apaixonado por futebol, como todo brasileiro.

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