SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A COP30 deveria reservar 90% das negociações à transição para longe dos combustíveis fósseis e apenas 10% às florestas, como uma forma de fazer jus ao panorama das emissões de gases-estufa. A afirmação é da matemática Thelma Krug, líder do comitê científico da 30ª conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas.

Ela faz elogios ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), uma aposta do Brasil para a cúpula em Belém, mas diz que o evento não pode deixar de abordar a principal causa do aquecimento do planeta: a exploração e a queima de petróleo, gás natural e carvão.

Para a cientista, a urgência em concentrar o debate nos fósseis sempre existiu, mas ganha ainda mais força com a afirmação do secretário-geral da ONU, António Guterres, de que o mundo não atingirá a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação à era pré-industrial.

"O foco é combustíveis fósseis, não tem por onde fugir. Tem uma pressão enorme para que florestas entrem com peso significativo nas discussões da COP30, o que eu não concordo", diz Krug, que ocupou a vice-presidência do IPCC, o painel científico da ONU para o clima, de 2015 a 2023.

A transição para longe dos combustíveis fósseis foi definida na COP28, em 2023, mas não houve avanços após isso. Uma reunião sobre o assunto na pré-COP, em Brasília, terminou com forte oposição dos negociadores da Arábia Saudita.

"O compromisso é de todos os países que estão abrindo novos poços para exploração e exportação de petróleo, não só do Brasil", comenta sobre a licença do Ibama para a perfuração da Petrobras na bacia Foz do Amazonas, concedida nesta segunda-feira (20).

Leia a seguir os trechos principais da entrevista.

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PERGUNTA - Como a sra. vê a declaração do secretário Guterres sobre a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C já estar perdida?

THELMA KRUG - Mesmo que o 1,5°C seja ultrapassado, existe o cenário do IPCC de "overshoot", ou seja, exceder temporariamente o nível mais seguro de temperatura e depois retornar até o final deste século. Ultrapassar o 1,5°C não implica que não possa atender ao Acordo de Paris.

Não será agora que vamos romper o limite, será daqui a cinco ou dez anos. Hoje, o aumento da temperatura está em 1,3°C, mas muito provavelmente não vamos conseguir limitar a 1,5°C sem "overshoot".

Ainda não recebemos as metas de redução de emissões de uma grande parcela de países que estão na lista de grandes emissores, como China e União Europeia, e fica difícil fazer uma avaliação concreta.

Tudo indica que estamos na trajetória de um aquecimento de 2,8°C até o final do século, entendendo que este nível não se distribui uniformemente no planeta.

P - A sra. vê alguma chance dos fósseis entrarem nas negociações da COP30?

TK - De uma forma ou outra, os combustíveis fósseis devem estar, seria lamentável se assim não fosse.

O que eu menos espero é que essa seja uma COP de florestas. Não podemos tirar o foco do cenário global, e 80% das emissões vêm dos combustíveis fósseis e das indústrias. Não dá para se dependurar ou se apoiar em florestas, é uma escolha bem complicada.

O foco é combustíveis fósseis, não tem por onde fugir. Tem uma pressão enorme para que florestas entrem com peso significativo nas discussões, o que eu não concordo. Até porque as florestas já estão dando sinais de estarem sendo afetadas por ondas de calor, secas e incêndios florestais.

Eu concordo que o Brasil continue avançando no fundo para conservação de florestas [TFFF], porque não existe um fundo que recompense os países por manter a floresta em pé.

Se a gente for equilibrar o que deveria ser o percentual de fósseis e florestas numa COP, como a contribuição do desmatamento e de outras conversões de florestas [para as emissões globais] é de 10%, 11%, deveria ser uma razão de 9 para 1 a discussão.

As discussões na COP30 não serão só fósseis nem só florestas, há outros elementos na agenda de ação climática. Vamos ter uma COP diversa, com uma grande discussão para adaptação e financiamento.

P - Por que a COP30 não incluiu a redução dos fósseis com mais força na agenda oficial de negociação?

TK - É uma discussão complicada, não é uma coisa simples nem elementar, principalmente para os países desenvolvidos, que já têm toda a infraestrutura de energia. É diferente dos países em desenvolvimento, que podem optar por aumentar o seu setor de energia com renováveis.

Os países desenvolvidos vão ter que eliminar os combustíveis fósseis, inclusive a exportação, e muitas economias estão ligadas à produção e exportação.

Existe também um lobby grande para que a transição para energias renováveis não aconteça de forma tão rápida. Mas alguns países estão avançando, mesmo os desenvolvidos.

P - Como a senhora vê a licença para a pesquisa de petróleo na Foz do Amazonas?

TK - Tenho refletido muito sobre isso. A questão é a seguinte: os países que são detentores de grandes florestas já se comprometeram a zerar o desmatamento e ter um desenvolvimento que não dependa de uma conversão de florestas para agricultura.

Paralelamente a isso, eu gostaria de ver os países produtores de petróleo com o mesmo compromisso. Nós vamos parar o desmatamento, e eles também teriam que parar de abrir novas plantas para a extração de petróleo.

Não é o que está acontecendo, esses países estão dizendo abertamente: enquanto tiver demanda, nós vamos continuar produzindo.

P - E o Brasil também diz isso.

TK - É uma questão de liderança. Eu só quero pensar nessa justiça: nós paramos o desmatamento, paramos de abrir novas plantas, e o que eles estão fazendo?

Não vamos abrir nenhuma, ninguém, nem aqui nem lá. Não se pode apontar o dedo para um país, tem que apontar o dedo para todos que estão abrindo novas plantas, não só o Brasil.

Sob o ponto de vista científico, é legal que continue se abrindo? Claro que não. Estamos falando em não abrir novas plantas e ir acabando com as existentes, fazer uma maior injeção nas energias renováveis.

Agora, todo mundo tem que fazer isso, não deveria ter novas explorações globalmente. Quem parou de produzir? Quem parou de abrir novas frentes? Talvez o caminho esteja errado de uma forma global, não pontual. É uma questão complexa e essa conta não pode ser paga pelos países em desenvolvimento.

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RAIO-X | THELMA KRUG, 74

São José dos Campos (SP), 1951. Fez carreira como pesquisadora do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), onde trabalhou por 37 anos. Ex-secretária de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima) de 2007 a 2008. Vice-presidente do IPCC de 2015 a 2023 e atual líder do comitê científico da COP30.