BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - Ao final de toda conferência da ONU sobre clima, quando as metas mais ambiciosas ficam de fora dos acordos ?como é o caso do caminho para abandonar os combustíveis fósseis proposto na COP30?, uma pergunta se repete: por que ainda insistimos na COP?

A Folha dirigiu essa pergunta a jovens de diferentes países e líderes indígenas que participaram do evento.

Charles Xander Deluna, 17, nascido nas Filipinas, conta que começou a se interessar pelo fórum após 2021. Em dezembro daquele ano, a família dele foi atingida pelo supertufão Rai, que deixou mais de 30 mortos no país, incluindo dois dos seus melhores amigos. A casa em que morava também foi arrastada pela tempestade.

"Isso despertou minha curiosidade sobre a crise climática e me levou a me engajar em fóruns internacionais, locais e subnacionais. Estou aqui na COP porque quero tentar influenciar políticas e processos de tomada de decisão", diz Deluna.

Ele viajou a Belém com a Youngo, rede de observadores oficial da cúpula composta por crianças e jovens.

Na zona azul, espaço diplomático da conferência do clima, os corredores misturam negociadores ?diplomatas e ministros que opinam nas negociações climáticas? e observadores, representantes da sociedade civil que tentam influenciar o primeiro grupo.

"Quando olhamos para a COP, muitas vezes o que é negociado dentro dessas salas parece distante da vida que levamos fora. Mas está profundamente conectado à forma como nossas comunidades são impactadas", diz Deluna.

O jovem cita, por exemplo, o Fundo de Perdas e Danos, aprovado na COP28. Ele é voltado para o financiamento de projetos para recuperar os estragos causados pela crise climática e defendido pelos países mais pobres.

"Vemos impactos ruins para as comunidades, mas também impactos bons. Podemos estar esperançosos e felizes com alguns resultados, mas seguimos exigindo mais", resume Deluna.

Michael Mwansa, líder de justiça climática da organização ActionAid na Zâmbia, no sul da África, afirma que sua função é insistir por mudanças para sua própria comunidade. Ele compara o processo das COPs ao de libertação dos países africanos da colonização.

"A libertação nunca pode vir sem luta, e precisamos estar conscientes de que estamos em luta", diz. "E nós não devemos desistir. É isso que as comunidades esperam de nós, que participamos da COP: que nunca desistamos delas."

A demanda de Mwansa, assim como de outros representantes de países africanos, é que as nações ricas ?responsáveis pela maior parte das emissões de gases do efeito estufa? financiem a adaptação dos menos desenvolvidos.

"Estou aqui basicamente para destacar alguns dos principais problemas que estão acontecendo no meu país e que não são exclusivos da África, mas de muitos países em desenvolvimento e menos desenvolvidos", destaca Mwansa.

Uma desses problemas é o contínuo aumento das temperaturas, que afeta colheitas e o acesso à água. Além disso, na Zâmbia, há infestações de pragas que não existiam dez anos atrás, conta.

Angel Tokali, natural da República Democrática do Congo, diz que na sua comunidade o maior impacto das mudanças climáticas são as inundações constantes.

"As enchentes chegam a destruir estradas, pontes e, às vezes, isolam vilarejos inteiros. Você pode imaginar como isso complica tudo: deslocar-se, ir à escola, acessar cuidados de saúde ou transportar as colheitas", narra.

"Para nós, a mudança climática não é uma ideia teórica, é uma realidade que afeta nossos caminhos e a estabilidade das nossas comunidades."

Por isso, Tokali diz estar honrada de ter representado na COP30 os grupos com os quais trabalha. "Vim pedir que seja dada uma verdadeira atenção às comunidades locais e aos povos indígenas. São eles que vivem mais próximos das florestas e da biodiversidade. E são eles que, desde sempre, têm sido seus melhores protetores", afirma.

Segundo ela, a COP tem fragilidades como qualquer outra cúpula. "Mas eu continuo otimista. Porque as fragilidades também podem se transformar em oportunidades. Não é porque existem dificuldades que nada pode funcionar ou mudar", diz.

As negociações são longas, ressalta Fany Kuiru Castro, coordenadora da Coica (Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica). Ela lembra que há anos os movimentos indígenas dialogam nas conferências sobre clima sem chegar a um resultado satisfatório.

Na COP30, a organização apresentou uma série de demandas, como a demarcação e titulação dos territórios indígenas como solução climática.

Os documentos das conferências do clima já tinham incluído o reconhecimento aos povos indígenas na COP21, em 2015, em Paris. Agora, em Belém, foi adicionado o termo "direitos territoriais", mas ainda não houve explicitamente uma citação às demarcações.

"É algo estrutural do processo. Mas ainda assim, seguimos aqui", diz Fany.