ORLANDO, EUA (FOLHAPRESS) - Um estudo brasileiro mostrou que transplantes de medula óssea de doadores familiares parcialmente compatíveis (haploidênticos) são tão seguros e eficazes quanto os de doadores não parentes totalmente compatíveis (MUD).
Os resultados foram apresentados durante o encontro anual da ASH (Sociedade Americana de Hematologia), que aconteceu em Orlando, Flórida, nos Estados Unidos, entre os dias 6 e 9 de dezembro.
O estudo foi liderado pelo Einstein Hospital Israelita e pela SBTMO (Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea), e os dados validados pelo CIBMTR (Centro Internacional de Transplante de Medula Óssea).
Várias doenças hematológicas, como leucemias, que afetam o sangue, a medula óssea e os órgãos relacionados, são curadas pelo Transplante de Células-Tronco Hematopoiéticas (TCTH) ?o transplante de medula óssea, como é popularmente conhecido. O processo, porém, exige um doador. E o ideal é que ele seja 100% compatível.
Doadores com esse perfil de compatibilidade são conhecidos como MUD (Matched Unrelated Donor, na sigla em inglês), ou seja, um doador sem grau de parentesco com o paciente, mas que apresenta compatibilidade máxima. Esses doadores são encontrados em bancos de doadores.
Segundo a líder do estudo, Mariana Kerbauy, especialista em hematologia e transplante de medula, e médica do Einstein Hospital Israelita, muitos pacientes não acham doador perfeito devido à miscigenação étnica no Brasil.
"Como o Brasil é um país muito miscigenado, isso dificulta na hora da gente achar um doador 100% compatível no banco. Então, o fato da gente poder fazer um transplante equivalente com alguém da família metade compatível é muito importante, porque a maioria dos pacientes tem alguém que seja metade compatível", afirma.
Estudos de outros países já haviam concluído que transplantes com doadores "metade compatíveis" funcionam tão bem quanto com doadores 100% compatíveis.
Kerbauy afirma que o Brasil precisava de um estudo próprio sobre transplantes de medula, mesmo com dados internacionais positivos. Isso porque o país tem peculiaridades locais que poderiam mudar os resultados, como a própria questão étnica, mas também infecções mais prevalentes, como megalovirus, Doença de Chagas e toxoplasmose.
O estudo coletou dados de 501 pacientes de 21 hospitais brasileiros que passaram por transplante de medula entre 2018 e 2021. Do total, 335 (66,8%) receberam transplante parcialmente compatível (haplo) e 166 (33,2%) receberam de um doador 100% compatível (MUD).
Os pacientes tinham idade igual ou superior a 18 anos e tinham leucemia mieloide aguda (LMA) ou linfoblástica aguda (LLA) em remissão completa ?sem sinais da doença no momento do transplante.
Após dois anos de acompanhamento (mediana de 26 meses), o estudo concluiu que não houve diferenças clinicamente significativas de sobrevida, recidiva (retorno do câncer) e toxicidade entre transplantes de doadores haplo e MUD.
"Com isso, a gente reafirma que um transplante metade compatível é factível, eficaz e seguro", diz Kerbauy.
*
O repórter viajou a convite da Johnson & Johnson.
Tags:
Estudo