SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A árvore de grande porte que caiu na última sexta-feira (2) no parque do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, estava com as raízes comprometidas. É o que aponta uma análise preliminar feita após a queda, segundo a concessionária Urbia.
Uma vendedora foi atingida pela árvore e ficou ferida.
O ipê havia passado por exames de maior precisão para identificar risco de queda -uma tomografia e uma análise de georradar- pela última vez em 2023. Essas avaliações não apontaram nenhum problema estrutural, afirmou a empresa.
A queda da árvore deixou a comerciante Débora Oliveira, 57, com um corte profundo na cabeça e uma fratura na clavícula. Ela levou nove pontos para fechar o ferimento, segundo a filha Edna Oliveira.
Segundo a Urbia, a hipótese técnica preliminar para a queda da árvore é que o ciclone extratropical do dia 10 de dezembro -ou seja, 23 dias antes do incidente- tenha alterado a estrutura do sistema radicular (o conjunto de raízes) da planta. O evento climático extremo "provocou impactos relevantes sobre a arborização urbana" na cidade, disse a concessionária.
Após passar pela tomografia e pela análise de radar, o ipê continuou sendo monitorado por avaliação fitossanitária, segundo a Urbia. Um sistema digital usado pela concessionária registra a presença de cupins, fungos, brocas, formigas cortadeiras e outras condições que possam comprometer a estabilidade das árvores.
"Durante todo o período de acompanhamento, a árvore não apresentou sinais de declínio estrutural, como aumento de inclinação, perda de vigor, presença de galhos secos ou sintomas de instabilidade", informou a empresa. "Ao contrário, o indivíduo apresentou florada intensa e saudável em 2025, reforçando sua condição de vitalidade até então."
O diagnóstico de complicações no sistema de raízes do ipê é corroborado por Giuliano Locosselli, doutor em botânica e professor do Centro de Energia Nuclear da Agricultura da USP. Ele analisou imagens da árvore caída a pedido da Folha de S.Paulo.
Ele ressaltou que, embora o exame de georradar e a tomografia sejam as técnicas que podem identificar riscos de queda com maior precisão, não há periodicidade mínima recomendada para realização desses procedimentos. Outros sinais, como a presença de fungos na base da árvore, podem servir como sinal de que ela está adoecendo.
"Em geral se faz uma inspeção visual, avaliam-se vários aspectos das árvores e, dependendo do que se detecta, faz-se uma análise mais profunda", afirma Locosselli.
Ele diz que a gestão florestal normalmente não inclui uma rotina de avaliação das raízes e do tronco das árvores. "Essa é uma limitação da própria tecnologia, porque uma análise de georradar e tomografia toma tempo. Leva meia hora, uma hora ou até mais porque a área das raízes é muito grande. Isso acaba limitando um pouco a possibilidade do uso. É algo para se aprimorar."
Quando um comprometimento grave é constatado na base do caule, ponto de transição entre o tronco e as raízes, a única solução é cortar a árvore por inteiro. "A gente não pode colocar a população em risco quando há sinais de que a árvore tem certa chance de queda", diz.
Membros do Conselho Gestor do parque devem pedir esclarecimentos à administração sobre o caso. Eles querem saber mais sobre a explicação do incidente, as inspeções realizadas no parque e a relação de árvores que já foram removidas desde o início de 2023, assim como do plantio de mudas.
A comerciante Débora teve alta médica no sábado (3), um dia após ser atingida pela árvore. O quadro de saúde dela é estável. Ainda sente dores fortes e tem dificuldades para falar devido a um inchaço na boca.
Débora trabalha no parque há cerca de 30 anos. A família da comerciante deve ter uma reunião com a concessionária Urbia para tratar de eventuais compensações financeiras pelos ferimentos e o tempo que ela ficará afastada do trabalho.