RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Marcos Antonio Lopes, 28, diz que no morro da Formiga todos nascem com um time de futebol e uma folia de reis para torcer. Ele é Botafogo e Brilhante Estrela de Belém.
Assim como os grandes clubes do Rio, as folias do morro da Formiga são quatro. Não há no Rio de Janeiro lugar que celebre mais o Dia de Reis, comemorado nesta terça-feira (6), do que a comunidade da Tijuca, na zona norte da capital fluminense.
Entre a vegetação da mata atlântica e um dos bairros mais populosos da cidade, o morro da Formiga tem uma população pequena se comparada com outras favelas da região -eram 2.763 habitantes em 2022, segundo dados do Censo Favelas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A tradição da Folia de Reis perdeu força em comunidades da capital fluminense, mas na Formiga cresceu.
"Visitei recentemente uma casa, em um bairro distante, em que o morador disse que há 80 anos a região não recebia uma folia. O morro da Formiga faz o povo de fora gostar de folia de reis. Viramos resistência", afirma Lopes, contramestre na Brilhante Estrela de Belém.
Líderes de folias de reis e antigos moradores atribuem a sobrevida a uma pequena flexibilização das tradições.
Na história contada em forma de auto, os palhaços mascarados distraem os soldados do rei Herodes para proteger o menino Jesus. Há grupos em que esses palhaços, personagens que entretêm o público, fazem danças que lembram os passos de funk.
Em 2023, a Brilhante Estrela de Belém participou de um videoclipe do rapper Marcelo D2 na música "Povo de Fé", sobre crenças e tradições populares brasileiras.
Também vinculam a sobrevivência da folia de reis às redes sociais. No perfil de A Brilhante Estrela de Belém, vídeos do grupo descendo e subindo ladeiras e visitando residências ultrapassam centenas de milhares de visualizações.
"Há alguns anos a folia azul do morro da Formiga [Brilhante Estrela do Oriente] passou a enfeitar os tambores, usar luzes neon para tocar no escuro e incluir luzes também na indumentária dos palhaços. Existe uma vertente visual forte que é natural da tradição, da performance da folia, e existe esse novo conceito que foi assimilado e assimilou as redes sociais", afirma Carlos Daniel Medeiros, 56, produtor cultural e pesquisador da folia de reis.
A Folia de Reis narra a jornada bíblica do nascimento de Jesus e a viagem dos três reis magos -Melchior, Gaspar e Baltazar- para visitá-lo em Belém e presenteá-lo com ouro, incenso e mirra. A história é contada em versos, recitados pelos mestres e acompanhados por ritmistas.
Durante a jornada que começa no Natal e vai até o Dia de Reis, as folias visitam outras comunidades.
"Muita gente acha que é bloco, muita gente acha que é bate-bola. Existe muita confusão ainda. Então, a rede social é essencial."
As folias se bancam através de um edital anual do governo estadual do Rio. Neste ano, a concorrência da secretaria de Cultura contemplou 200 grupos em todo o estado, distribuindo R$ 25.000 para cada um deles -R$ 5 milhões no total.
Organizadores de folias dizem que há grupos fantasmas, que só se reúnem no período de lançamento do edital, mas ressaltam que o dinheiro tem sido uma das possibilidades de sobrevivência do festejo.
Novas gerações do morro da Formiga saem na "folia da lata velha", cortejo formado por crianças que descem o morro batendo em latas e pedaços de metal. Marcos Antonio Lopes foi uma dessas crianças. Os jovens de sua geração formaram A Brilhante Estrela de Belém.
Para continuar na tradição, o contramestre disse que enfrentou discriminação religiosa.
"Vivi oito anos dentro da igreja [evangélica] e posso falar que muitos não gostam da folia de reis. Minha mãe, mesmo, não liga, mas eventualmente diz que preciso parar e servir a Jesus. Um amigo meu que era de grupo jovem da igreja, mas que no dia 25 de dezembro subia para a folia, não participa mais. Ele era palhaço da folia."
Os palhaços, com máscaras coloridas, de bocas e olhos largos, orelhas ou chifres, são os principais alvos, segundo Medeiros. Ele aponta, contudo, que apesar dos olhares, o convívio heterogêneo nas comunidades faz com que a tradição se adapte.
A depender do grupo e da região do país, a folia mistura elementos de crenças africanas e indígenas e o paganismo.
"Existe um lado 'exusístico', de Exu, que permeia a questão do palhaço. É o sagrado e o profano desfilando num processo de harmonia. A favela convive com isso e arranja suas soluções. Esse convívio nem sempre é livre, nem sempre é pacífico, mas a comunidade vai achando uma forma de diálogo nesse processo", afirma.