BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - Um relatório elaborado pelo Ministério dos Povos Indígenas e destinado à PF (Polícia Federal) apontou a existência de 1.600 cabeças de gado dentro da Terra Indígena Apyterewa, no centro do Pará, mesmo após a expulsão de invasores em 2023 em uma ação de desintrusão coordenada pela Secretaria-Geral da Presidência da República.

O governo federal fez uma nova ação em dezembro de 2025 para a remoção do gado existente em 44 pontos mapeados por órgãos de fiscalização. Na ação, houve resistência de invasores e um colaborador do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) foi baleado e morto, o que é investigado pela PF.

O relatório do ministério detalha os pontos onde as cabeças de gado foram mapeadas na terra indígena, os possíveis caminhos feitos pelos animais até propriedades rurais nas bordas do território e os nomes de possíveis donos do rebanho criado de forma ilegal na terra dos indígenas parakanãs.

Apyterewa, até o momento da desintrusão, era o território indígena mais desmatado do país. Vivem na área demarcada cerca de 700 parakanãs, e foi necessário pôr fim a uma vila de invasores para a retomada da área pelos indígenas.

Após a ação coordenada de desintrusão, que levou à retomada de espaços para uso tradicional e ao surgimento de novas aldeias, proprietários de gado da região de São Félix do Xingu (PA) prosseguiram com a invasão do território para a criação de animais.

Na Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), a avaliação é que servidores e indígenas ficam vulneráveis e expostos a riscos na fase posterior a uma desintrusão, uma vez que forças de segurança acabam desmobilizadas, sem o monitoramento necessário para garantir que a área fique livre de invasores.

O mesmo ocorre em outros territórios que passaram pelo mesmo processo ou por ações isoladas de repressão e fiscalização.

O Ministério dos Povos Indígenas afirma que parte do gado apreendido na terra Apyterewa tinha a marca "Sel" e "Selio" e que animais foram direcionados da terra Apyterewa para uma fazenda de Sélio Ferreira de Freitas, próxima ao território tradicional.

"Durante a tentativa de condução do gado, advogados de Sélio interferiram na operação ao transitarem com carros e motocicletas em meio ao rebanho", cita o relatório destinado à PF.

Segundo o documento, a advogada Larissa Mota de Carvalho fez contato com uma servidora do Ibama e se apresentou como defensora de Sélio. Ela também é assessora jurídica na Procuradoria-Geral do Município de São Félix do Xingu.

Larissa, conforme o relatório, citou a possibilidade de apresentação de recurso para reaver o gado apreendido. A representante do pecuarista disse ainda ao Ibama, segundo o mesmo documento, que Sélio é pai do secretário de Agricultura da prefeitura de São Félix do Xingu, Pedro Henrique Gomes de Freitas.

Por telefone, a reportagem questionou Larissa se ela é advogada de Sélio. Primeiro, ela disse que sim e pediu que as perguntas fossem enviadas por email. Depois, afirmou que "não tem nada a ver com essa narrativa" e que não agiu na "qualidade de advogada" do pecuarista. "Não tem procuração minha nos autos."

"Não era sigiloso, posso pedir informação para qualquer tipo de coisa", disse a advogada. "Eu estava atuando em defesa do meio ambiente naquele momento."

A procuradoria da prefeitura de São Félix do Xingu afirmou, em nota, que atos atribuídos a terceiros não têm relação com o município, "salvo se houvesse uso da máquina pública, o que não foi apontado".

A advogada não atuou para o pecuarista, conforme a procuradoria. "A intervenção da assessoria jurídica da Procuradoria-Geral do Município se deu exclusivamente em razão de São Félix do Xingu figurar como fiel depositário dos bens apreendidos."

A procuradoria de São Félix, na nota, apontou uma advogada que seria a responsável pela defesa de Sélio. Contatada pela reportagem, ela disse que não cuida da defesa do pecuarista. A Folha não conseguiu contato com Sélio.

O município não respondeu sobre o parentesco entre o fazendeiro e o secretário de Agricultura.

O relatório do ministério detalha apreensões de armas de fogo, atos de violência com disparos feitos e sabotagem para impedimento da apreensão do gado ilegal, como destruição de pontes e disposição de armadilhas perfurantes por estradas.

O Fundo Municipal de Meio Ambiente de São Félix do Xingu foi designado como depositário fiel dos animais, conforme a pasta.