SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Imagine tomar um remédio preventivo contra o HIV só 12 vezes por ano, em vez de 365. Essa é a promessa da nova PrEP (profilaxia pré-exposição) de uso mensal, que será testada no Brasil e em outros 15 países em 4.390 pessoas. No total, oito instituições brasileiras vão participar do estudo internacional, liderado pela farmacêutica americana MSD, para avaliar a eficácia do medicamento.

Até hoje, o uso da PrEP pode ser feito de duas formas distintas. A primeira é o uso contínuo, que consiste na ingestão de um comprimido por dia, todos os dias, garantindo proteção constante.

A segunda é o uso sob demanda, indicado para situações específicas, seguindo o esquema 2+1+1, ou seja, dois comprimidos antes da relação sexual e mais dois após, em intervalos definidos.

O estudo de fase 3 chamado EXPrESSIVE vai avaliar se apenas um comprimido por mês do MK-8527 vai ser suficiente para garantir proteção contínua contra a infecção por HIV. As fases anteriores demonstraram que nenhum efeito colateral foi observado, indicando que a molécula é bem tolerada, segundo especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo.

O novo remédio pertence a uma classe de medicamentos chamada inibidores da translocação da transcriptase reversa de nucleosídeos (NRTTI). Essa classe age bloqueando uma das etapas mais importantes do ciclo de replicação do HIV dentro do corpo.

Quando o HIV invade uma célula humana, ele converte seu RNA em DNA usando a enzima transcriptase reversa. A pílula mensal impede essa cópia genética, parando a replicação do vírus antes que a infecção se instale.

Todas as pessoas participantes receberão dois tipos de medicamento: o Truvada, que é a PrEP oral diária já utilizada e disponibilizada gratuitamente pelo SUS, composta por emtricitabina/fumarato de tenofovir disoproxil (FTC/TDF), e o novo comprimido a ser estudado, o MK-8527, de uso mensal.

Apenas um dos dois medicamentos será ativo, enquanto o outro será um placebo, isto é, um comprimido sem substância medicinal.

As consultas ocorrerão uma vez ao mês, durante aproximadamente dois anos e meio, com acompanhamento médico especializado, exames laboratoriais regulares e fornecimento gratuito de todas as medicações necessárias.

"A possibilidade de uma PrEP oral de uso mensal oferece mais comodidade, o que pode aumentar a adesão e facilitar o acesso à prevenção", afirma José Valdez Ramalho Madruga, médico infectologista, diretor e principal investigador da Casa da Pesquisa do CRT-DST/Aids-SP, um centros brasileiros participantes do estudo.

"Se os resultados forem positivos, essa poderá ser uma nova ferramenta no enfrentamento à epidemia de HIV."

O produtor cultural de São Paulo Victor Soriano, 33, e usuário anterior de PrEP por dois anos, se candidatou motivado pelo coletivo.

"Saúde é feita por todos. Lá atrás, pessoas participaram de estudos para que a gente tenha medicamentos hoje. Quando soube que eu estava no grupo elegível, vi como contribuir para gerações futuras", diz.

"Num mundo acelerado, uma pílula mensal na agenda minimiza esquecimentos, protege mais gente e desmistifica o tema estigmatizado."

Segundo Rico Vasconcelos, médico infectologista e investigador principal do estudo EXPrESSIVE na USP (Universidade de São Paulo), há possibilidade de infecção por HIV, como em qualquer pesquisa realizada anteriormente. A eficácia depende da adesão correta.

"A PrEP mensal pode ser tão ou mais eficaz pela facilidade, mas isso só o estudo provará. Todas as pesquisas clínicas do mundo tem riscos. Seja de vacinas, de PrEP ou de novos tratamentos para doenças", afirma.

Vasconcelos alerta que é prematuro afirmar economia para o SUS com a substituição da PrEP diária pela mensal. "Tudo o que chega de novo vem caro, como as injetáveis já aprovadas após estudos de fase 3", diz ele.

QUEM PODE PARTICIPAR

O estudo está aberto para pessoas maiores de 16 anos, sexualmente ativas e que não vivem com HIV, pertencentes a um ou mais dos seguintes grupos:

o Mulheres trans e travestis

o Homens cisgêneros que fazem sexo com homens cisgêneros e/ou mulheres trans

o Homens trans que fazem sexo anal

o Pessoas de gênero não binário que fazem sexo anal

Para participar, é necessário não estar em um relacionamento monogâmico mútuo e ter tido relações sexuais anais receptivas sem preservativo nos últimos 12 meses, além de atender a pelo menos um dos critérios abaixo:

o Ter praticado sexo anal receptivo com dois ou mais parceiros nos 3 meses anteriores à triagem, independentemente do uso de preservativo;

o Ter recebido diagnóstico de gonorreia, clamídia retal ou uretral, ou sífilis nos 6 meses anteriores à triagem;

o Ter feito uso de medicamentos estimulantes durante relações sexuais nos 3 meses anteriores à triagem.

A participação é voluntária, gratuita e sigilosa, seguindo todas as normas éticas nacionais e internacionais. As pessoas participantes recebem acompanhamento médico especializado, exames laboratoriais regulares e medicação gratuita durante todo o período do estudo.