SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Basta uma caminhada de 30 minutos entre os distritos do Bom Retiro e de Santa Cecília para descobrir quase duas dezenas de atrações culturais e históricas interessantes aos mais exigentes apreciadores do turismo urbano. Mas um trajeto que dá preferência ao automóvel e estigmatizado pelas cenas de consumo de crack fizeram deste trecho da região central de São Paulo um repelente para pedestres.
A recente dispersão da cracolândia e o crescente interesse imobiliário na região, porém, podem ter criado condições favoráveis para um plano de requalificação escorado nos atrativos do entorno.
Os Caminhos Culturais, uma rota que pretende estimular caminhadas entre museus, é o projeto apresentado pela secretária municipal de Urbanismo e Licenciamento, Elisabete França, para a série da Folha que convida planejadores urbanos a discutirem ideias para recuperar o centro paulistano.
Serão cinco ideias de especialistas em urbanismo publicadas até 24 de janeiro, véspera do aniversário da capital, quando irá ao ar um minidocumentário que reúne as sugestões. O ciclo teve início com uma proposta para a conversão do parque Dom Pedro 2º em uma ampla área ajardinada conectando os distritos Sé e Brás.
O plano antecipado à reportagem por Elisabete França é o segundo da série Centro em Transição e o único com previsão de sair do papel. A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) deve apresentar o roteiro como parte das celebrações pelos 472 anos de São Paulo.
O desafio de ligar pontos de interesse em um trajeto seguro, segundo a autora, tem como premissa a criação de passeios públicos confortáveis e convidativos para levar às ruas os cerca de 2,5 milhões de visitantes anuais dos museus, além de ampliar esse número.
Intervenções simples, como a instalação de novos revestimentos no piso para destacar percursos e de placas indicativas de edifícios históricos ou de interesse cultural para orientar caminhada, formarão uma das bases do programa.
Calçadas e travessias de pedestres receberão iluminação específica, mais próxima e direcionada para o percurso. Faixas de segurança poderão ganhar a altura das calçadas, formando obstáculos semelhantes a lombadas. Esquinas poderão ficar mais estreitas, além de outras medidas para desacelerar os carros.
Aproximadamente 14 quilômetros lineares de passeios públicos reformados poderão criar uma rota cultural superior em tamanho a roteiros semelhantes em grandes cidades pelo mundo, segundo a secretária.
"Em geral, as rotas que a gente mais conhece são pequenas, são avenidas. Agora, no caso aqui de São Paulo, a gente está conectando equipamentos culturais num âmbito bem maior, num território bem maior", diz França.
No trecho entre as estações do metrô Luz e Tiradentes estão os principais pontos do trajeto, como a Pinacoteca, mais antigo local de exposições de arte do estado, o bicentenário Jardim da Luz, primeiro parque público paulistano, e o popular Museu da Língua Portuguesa, instalado na icônica estação ferroviária do bairro.
Atravessando a movimentada avenida Tiradentes, um rico acervo de arte sacra é guardado no Mosteiro da Luz. A construção ocupa o terreno onde existiu a capela quinhentista que deu nome a quase tudo no entorno.
Uma caminhada de quinze minutos a oeste permite chegar à Sala São Paulo. Considerado um dos melhores espaços de concertos do mundo, o auditório ainda conta com a vantagem de estar instalado na histórica estação Júlio Prestes.
Do Memorial da Imigração Judaica com sua sinagoga do início dos anos 1900 ?a mais antiga do estado? ao Museu da Obra Salesiana no Brasil com 50 mil itens, como as cartas mortuárias dos missionários, estão catalogadas 17 atrações na primeira etapa do projeto.
A Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento deve concluir o estudo sobre custos e a etapa de contratação do projeto executivo ainda este ano, o que possibilitará o início das intervenções previstas na nesta primeira fase do programa. Abaixo, alguns dos pontos destacados pela autora:
"BOM RETIRO ? CAMINHOS CULTURAIS"
Calçadas e mobilidade
- Para dar segurança e conforto aos pedestres, calçadas seriam ampliadas, assim como as áreas de acesso nas entradas dos edifícios;
- Pisos diferentes destacariam o percurso e novas placas indicariam edifícios históricos ou de interesse cultural;
- Rampas, pisos táteis e sem obstáculos garantiriam acessibilidade para pessoas com deficiência e idosos;
- Ciclovias e ciclofaixas seriam integradas às vias que fazem parte do trajeto.
Mobiliário urbano
- Bancos, floreiras, papeleiras e elementos decorativos forneceriam conforto e estimulariam a permanência ao longo do trajeto;
- Para isso, o plano considera contar com um concurso para o desenvolvimento de mobiliário urbano lançado no ano passado.
Áreas verdes
- Praças e canteiros deverão ter um plano de paisagismo e novas áreas verdes interligadas a espaços arborizados que já existem;
- Além do Jardim da Luz, o projeto prevê a inclusão no roteiro da praça Cel. Fernando Prestes e da praça Princesa Isabel;
- Outros pontos previstos para receber cobertura vegetal são o estacionamento da estação Júlio Prestes e o terreno onde está a favela do Moinho, em processo de reassentamento;
- Vias largas seriam transformadas em bulevares ao receberem canteiros vegetados e arborização, ideia aplicável à praça da Luz, av. Tiradentes e ruas Prates, Ribeiro de Lima e Mauá;
- Novos canteiros seriam construídos com estruturas para absorver e filtrar a água, os jardins de chuva, criando um sistema de drenagem com uso de soluções baseadas na natureza;
Iluminação pública
- Um novo sistema de iluminação seria criado para as passagens de pedestres e bens de valor histórico ou cultural;
- Ruas que ainda possuem cabeamento aéreo devem ter sua fiação enterrada e postes inadequados ou deteriorados, além de outros elementos considerados superados, seriam retirados.