BRASÍLIA, DF E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na esteira de relatos de abuso e aliciamento de crianças na plataforma, o Roblox vive pressão inédita para melhorar sua moderação e implementar métodos mais eficazes de proteção dos usuários, reprimindo a atuação de predadores virtuais.

Em entrevista à reportagem, o diretor de proteção da empresa, Matt Kaufman, diz que a tarefa de capturar pedófilos é das autoridades, não dos usuários, e que à companhia cabe soar o alerta, encaminhando denúncias ao poder público e garantindo que os jogadores sigam as regras da comunidade.

Chief safety officer do Roblox, no título original do cargo em inglês, Kaufman é o responsável por garantir a segurança dos jogadores na plataforma, que registra 150 milhões de acessos diários e cujo principal mercado é o público infanto-juvenil.

"É um fato conhecido que o 'vigilantismo' [prática de justiceiros] não é algo considerado seguro pelas autoridades", afirma o executivo durante a conversa por vídeo. "Devemos deixar a aplicação da lei para as autoridades."

Em agosto de 2025, o Roblox baniu usuários que se passavam por crianças para atrair, expor e denunciar pedófilos. A decisão gerou reação negativa e motivou uma petição pela renúncia do diretor.

"Quando alguns usuários violam as regras, não são honestos sobre a própria idade ou pedem que outros migrem de plataforma, a intenção deles não importa" diz Kaufman, defendendo a decisão. "Eles estão descumprindo nossas regras e nós pediremos que parem; se continuarem a violá-las, serão removidos da plataforma".

O executivo conversou com a reportagem para divulgar as novas regras de identificação de idade implementadas pelo Roblox. A medida visa tornar a plataforma mais segura e atende a avanços regulatórios para evitar o acesso de menores de 13 anos a conteúdo em desacordo com a classificação indicativa.

A partir de agora, crianças terão que se submeter a um processo de estimativa etária por vídeo se quiserem conversar dentro das experiências -como são chamados os inúmeros jogos da plataforma. O usuário poderá conversar com outros jogadores de idade semelhante.

Segundo Kaufman, a medida foi bem recebida, e quase metade dos usuários diários da plataforma já se submeteu ao processo de identificação nos locais em que ele é obrigatório.

A Roblox trabalha com uma organização americana, a NCMEC (Centro Nacional para Crianças Exploradas e Desaparecidas), que encaminha denúncias à Polícia Federal quando identifica comportamento ilegal envolvendo usuários baseados no Brasil.

Em 2024, o NCMEC enviou à PF 593 mil denúncias de abuso sexual infantil online com base em relatório de múltiplas plataformas, incluindo o Roblox.

"Estamos investindo no fortalecimento de relações diretas com autoridades locais, o que inclui o Brasil, para que possamos oferecer orientação e recursos caso surjam dúvidas", diz o executivo, sem citar órgãos governamentais específicos.

Em defesa do Roblox, Kaufman lembra que a empresa monitora todas as conversas, que não são criptografadas, e proíbe compartilhar imagens e vídeos nas ferramentas de chat.

Também usa inteligência artificial para identificar padrões de aliciamento ao longo de períodos maiores de tempo, prática conhecida como grooming. O código desse programa é aberto e foi compartilhado com outras plataformas que tenham interesse de usá-lo, afirmou o executivo, sem listar quais.

Em outra frente que impacta os negócios da empresa, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211), sancionado em setembro pelo presidente Lula (PT), proibiu as chamadas loot boxes, ou caixas de pilhagem, em tradução do inglês.

São recompensas aleatórias, muitas vezes adquiridas com dinheiro real. Como o jogador não sabe de antemão o que está comprando, podem ser comparadas a jogos de azar. Especialistas classificam esse dispositivo como um padrão enganoso, que incita risco de compulsão, sobretudo para crianças e adolescentes.

Questionado sobre o banimento da ferramenta, Kaufman diz que o Roblox está comprometido a seguir as legislações nacionais. "Forneceremos aos nossos desenvolvedores as ferramentas necessárias para criar conteúdos que possam operar em qualquer lugar do mundo".

As empresas de tecnologia têm até o dia 13 de fevereiro para apresentar ao governo medidas que vêm adotando para se adaptar à nova lei.

Em agosto de 2025, Kaufman se tornou alvo de uma acusação de ampla repercussão. Vídeo postado por um influenciador no YouTube afirma que ele acessou jogos com conteúdo explícito que violam as regras da plataforma e só foram banidos meses após as visitas. A denúncia foi acessada mais de 180 mil vezes.

Questionado sobre o tema, o executivo preferiu não responder. "Temos políticas mais rígidas do que literalmente qualquer outra plataforma usada por crianças e adolescentes. Tenho orgulho do trabalho da nossa equipe."

Tags:
Executivo