SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O largo da Misericórdia é formado pela confluência de algumas das primeiras ruas da cidade de São Paulo, ladeadas por lotes assimétricos e topografia ligeiramente irregular no Centro Histórico. Adaptados a essas características, prédios construídos em diferentes períodos criam um traçado singular.
Entre as ruas José Bonifácio e Quintino Bocaiúva, o edifício Triângulo é um exemplo de adaptação ao terreno. O prédio de 1955 projetado por Oscar Niemeyer tem laterais arredondadas, proporcionando esquinas mais amplas que facilitam a fluidez de pedestres.
Proibido para carros particulares desde a década de 1970, o arruamento preserva características favoráveis à permanência de público que remetem à época em que o local atraía a população em busca de água potável oferecida pelo chafariz construído em 1792 pelo arquiteto Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas.
O que se vê no lugar atualmente, porém, é um precário banco de concreto instalado sem sombreamento. Em dias de calor intenso, quem passa pelo local busca abrigo sob o toldo de uma banca de jornais. Cenário que poderia ser transformado em um ambiente convidativo com mobiliário urbano e arborização personalizados para aquele espaço, diz a professora de Arquitetura e Urbanismo da Escola da Cidade Danielle Santana.
Intervenções simples e pensadas para aproveitar bons desenhos urbanos, assim como fluxos e dinâmicas consolidadas nesses locais, formam a base da proposta dela para o terceiro episódio da série Centro em Transição, que apresenta ideias para transformar a região central de São Paulo.
Cinco projetos serão publicados até 24 de janeiro, véspera do aniversário da capital paulista. Um minidocumentário consolidando as sugestões irá ao ar nessa data. Já foram publicadas propostas para requalificações do parque Dom Pedro 2º e de um roteiro de museus no Bom Retiro.
Representante do Instituto dos Arquitetos do Brasil no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio, Danielle escolheu o largo da Misericórdia para exemplificar seu projeto pela relevância histórica e cultural das suas edificações e monumentos, inclusive aqueles que já não existem mais.
"É um espaço significativo para discutir a cidade, desde o apagamento histórico da população negra até os fluxos e dinâmicas atuais. Um espaço onde existia o chafariz do Tebas, o primeiro arquiteto negro da cidade", diz Danielle.
Ela explica que, embora o entroncamento de vias tenha se mantido como importante local de passagem de pedestres, a retirada do chafariz nos anos 1880 eliminou um elemento que fazia da área um ponto de encontro.
Nas últimas décadas, a desativação de escritórios e a diminuição do comércio de rua também fizeram minguar o fluxo de transeuntes.
Empreendimentos recentes indicam, porém, que o lugar reúne atrativos para a reversão desse cenário. Um exemplo é a Casa de Francisca, que há quase uma década funciona no Palacete Tereza Toledo Lara. As apresentações musicais no edifício histórico de 1910 passaram a atrair público mesmo nos horários em que o centro costuma ficar deserto.
Cabe à gestão pública potencializar esse movimento nesta e em outras áreas do centro que reúnem características semelhantes, segundo a autora.
"Estamos falando de ruas com mais de 300 anos e que conseguem abarcar diferentes usos graças a um desenho com qualidade urbana. Mais do que pensar um novo desenho de calçadas ou de mobiliário, é preciso aprender com o que já existe", diz ela.
Sobre os pontos observados pela especialista, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que um concurso nacional de projetos para mobiliário urbano deverá ter seus primeiros protótipos expostos em março para avaliação da população. A administração acrescentou que o largo da Misericórdia está incluído no programa de reformas dos calçadões do Centro Histórico.
Veja abaixo, alguns pontos que se destacam na proposta de Danielle Santana.
MOBILIÁRIO URBANO
- Pequenos bancos seriam substituídos por grandes assentos, cujo desenho se ajustaria aos formatos curvos ou irregulares do arruamento;
- A banca de jornais seria integrada a um mobiliário urbano amplo, com sombra e assentos nas laterais, criando um elemento harmônico na paisagem.
CASA DE FRANCISCA
- Mesas no calçadão já atendem clientes que frequentam o bar no térreo do palacete Tereza Toledo Lara, imóvel histórico restaurado e transformado em casa de apresentações musicais;
- A retirada dos fechamentos laterais dos toldos permitiria a integração completa dessas mesas ao calçadão.
CHAFARIZ DE TEBAS
- Um bebedouro público integrado a mobiliários urbanos como bancos e floreiras poderia ser instalado no largo da Misericórdia;
- O local já abrigou o primeiro chafariz público de São Paulo, construído em 1792 pelo arquiteto negro alforriado Joaquim Pinto de Oliveira, mais conhecido como Tebas.
VEGETAÇÃO
- Árvores de porte compatível com o local seriam plantadas em floreiras ou diretamente no solo;
- A vegetação também poderia ser integrada a bancos e outros mobiliários urbanos que estimulem a permanência.
HABITAÇÃO
- Incentivos públicos já estimulam a transformação de edifícios vazios em moradia, uma estratégia traçada pelas últimas gestões municipais para ocupar a região além do horário comercial;
- Atualmente, o edificio Tebas, construído em 1977, passa por um retrofit para que seus dez andares se transformem em 43 apartamentos;
- Mas o largo abriga outros prédios que poderiam ser recuperados para serem moradia ou escritórios;
- É o caso do também histórico prédio Ouro para o Bem de São Paulo, hoje já ocupado por um movimento de luta por moradia.
COMÉRCIO
- Fachadas de edifícios como o Triângulo já possuem lojas que funcionam em horário comercial e atendem transeuntes;
- A chegada de moradores e o estímulo à permanência nas vias fomentaria outros empreendimentos, especialmente do setor de serviços, em vias com vacância de lojas, como a rua Direita.