BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - Os dois delegados da Polícia Civil do Pará suspeitos de cobranças de propina ?os alvos das cobranças seriam pessoas investigadas pelos próprios policiais? também atuaram para um grupo acusado de fraudar empréstimos de instituições financeiras e de obter R$ 25,8 milhões de vantagens indevidas, aponta investigação do Ministério Público estadual.
A um dos delegados, Arthur Afonso Nobre de Araújo, houve oferta de R$ 485 mil em propina ?R$ 150 mil teriam sido efetivamente repassados? para que usasse o cargo em benefício do grupo voltado a fraudes em empréstimos, conforme os promotores.
Arthur já foi denunciado à Justiça pelos crimes de associação criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro no suposto esquema, como afirma o relatório de 552 páginas do Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público do Pará.
Esse documento detalha a atuação de um grupo maior em episódios diversos de suposta cobrança de propina, envolvendo delegados, promotores de Justiça e um juiz do estado, como a Folha mostrou em reportagem publicada no último dia 9.
A investigação foi enviada ao Tribunal de Justiça do Pará, que aceitou pedido da Promotoria para quebras de sigilos, buscas e apreensões nas casas de suspeitos. Além disso, os dois delegados investigados ?Arthur e Carlos Daniel Fernandes de Castro, que era diretor metropolitano da polícia? foram afastados das por determinação judicial. A mesma medida foi aplicada ao promotor de Justiça Luiz Márcio Teixeira Cypriano.
OUTRO LADO
A defesa de Arthur não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre o caso relacionado a fraudes em empréstimos. Sobre a investigação do Gaeco, a defesa do delegado disse que irá se manifestar nos autos após acesso à íntegra do processo.
O advogado de Carlos Daniel afirmou que não há denúncia contra o policial no processo sobre os empréstimos fraudulentos e que as menções na nova investigação ainda não foram analisadas. Segundo a defesa, há convicção sobre a inocência do investigado.
A defesa do promotor afastado disse não ter obtido a íntegra das provas e que por isso manterá o silêncio.
O que diz relatório do Ministério Público
O relatório do Gaeco cita diversos casos em que teria havido cobrança de propina, com pagamentos por parte de advogados de clientes investigados em inquéritos. Isso incluiu o caso de influenciadores digitais investigados por lucrarem com o jogo do tigrinho, devedores inadimplentes e um acidente de trânsito.
Um caso detalhado em um capítulo do relatório é o do grupo suspeito de fraudar empréstimos de instituições financeiras, com participação do delegado Arthur, conforme o Ministério Público. As investigações apontaram também o envolvimento do delegado Carlos.
O suposto esquema, conforme denúncia apresentada à Justiça, consistia na fraude de documentos para o desvio de dinheiro a partir de empréstimos. Em um dos casos, os documentos de propriedade de imóveis apresentados como garantia eram falsos.
As fraudes são atribuídas a Diego Kos Miranda, o principal suspeito nesse caso específico. A defesa dele disse que se manifestará exclusivamente nos processos.
O relatório do Gaeco detalha instrumentos que teriam sido utilizados pelos delegados para favorecer o grupo e que inclui indiciamentos e ameaças de denúncia em corregedorias contra um delegado e um juiz que seriam obstáculos às ações criminosas.
Quando atuava em uma delegacia não especializada em Belém e fora da área dos envolvidos, o delegado Arthur instaurou um inquérito relacionado ao caso, o que despertou suspeitas sobre essa atuação. Isso passou a ser investigado pelo Ministério Público e levou à abertura de um procedimento na Corregedoria da Polícia Civil.
"Os integrantes da associação criminosa ficaram preocupados e passaram a acompanhar o andamento das apurações", afirma o relatório do Gaeco.
Em abril de 2023, Carlos Daniel disse a Arthur ter visto Diego em um restaurante em Belém. Na conversa por mensagens escritas e por áudio, os dois delegados manifestaram preocupação sobre o que seria a propina acertada no caso.
Um advogado foi mencionado na conversa, e Arthur afirmou que ele estaria mentindo sobre o paradeiro de Diego.
"Acho que pegamos uma canelada pai", escreveu o delegado na troca de mensagens. Segundo os promotores, trata-se de uma "gíria utilizada no meio policial quando não recebem a propina acordada".
"Mas, diarreia não dá só uma vez", completou Arthur. "Ganhamos bem também desse fdp", prosseguiu, com um xingamento.
Carlos Daniel, em um áudio em resposta a Arthur, descreveu o calçado que Diego usava quando o viu em Belém, conforme a reprodução da conversa no relatório do Gaeco. O delegado queria que o colega policial confirmasse com o advogado a presença do investigado na cidade.
ÓRGÃOS SE POSICIONAM
Em nota, a Promotoria disse que liderou as investigações sobre o caso, iniciadas há mais de um ano. "Ao final, o Ministério Público espera ter todos os elementos para responsabilizar aqueles que efetivamente tiverem cometido algum crime, punindo-os de acordo com a lei, desde o mais humilde envolvido até o mais qualificado."
A Polícia Civil do Pará afirmou, em nota, que não compactua com desvios de conduta e que instaurou processo disciplinar sobre o caso. "Os delegados foram afastados de suas atividades no mesmo momento em que houve notificação acerca da investigação conduzida pelo Gaeco."
O TJ do Pará afirmou que não se manifesta sobre investigação em andamento.