SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O sistema Cantareira completou uma semana com o volume útil reservado abaixo dos 20%. A situação, se mantida até o fim de janeiro, limita a retirada de água de uma das principais fontes de abastecimento de São Paulo e da região metropolitana e ajuda a ilustrar o problema de escassez hídrica enfrentado pela população.
Dados de painel da Sabesp da manhã desta quarta-feira (14) indicavam 19,3% de volume útil reservado, menos da metade do verificado no mesmo dia do ano passado, de 50,5%. A situação também é pior do que em 2021 (39,5%), outro ano de transtornos com falta de água, e em 2022 (29,2%).
Se o nível do Cantareira continuar abaixo dos 20% até o fim de janeiro, a limitação para retirada de água aumenta em fevereiro, caindo dos atuais 23 mil litros por segundo para 15,5 mil litros por segundo. Essa seria a faixa especial, o quinto e pior cenário de armazenamento.
Desde o final de setembro, o Cantareira opera com volume útil abaixo de 30%, chegando a cair para a casa dos 19% na primeira quinzena de dezembro. Desde a crise hídrica de 2014 a 2016, o sistema não registrava índices tão baixos. Para efeito de comparação, a chuva de 134 milímetros em dezembro no Cantareira ficou abaixo dos 177 milímetros registrados no mesmo mês na capital paulista.
Praticamente na metade do mês, o painel da Sabesp registra para o Cantareira apenas 16% da média histórica de chuva para janeiro. "Está muito abaixo do que já deveria ter chovido nessas primeiras duas semanas. A situação continua piorando", diz Adriana Cuartas, pesquisadora em hidrologia do Cemaden. "As chuvas não têm sido suficientes e não vão ser, bem como as temperaturas. Tivemos vários dias nas últimas duas semanas com temperaturas acima da média, o que não favorece em nada essa recuperação."
Projeção da pesquisadora estima que, caso o volume total de chuva chegasse à média para o período de janeiro a março, o Cantareira chegaria a 40% de volume útil. "Mas já estamos em um cenário de chuvas abaixo da média." A situação, para Adriana, é muito crítica.
Em dezembro, a pesquisadora já havia sugerido, em entrevista à Folha, medidas de racionamento e mais restrições de consumo, que voltou a defender. "Rodízio, racionamento, porque a situação está muito crítica."
Ela pede reforço nas campanhas de comunicação: "Não pode lavar calçada, não pode lavar carro, tem que economizar ao máximo."
O Sistema Integrado Metropolitano (SIM), que reúne o Cantareira e outros reservatórios, tem se distanciado desde o fim de dezembro da curva de referência que o governo usa para determinar as medidas de economia de água. Na manhã desta quarta, o painel indicava 27,25% de volume reservado, cerca de 3,6% abaixo dessa trajetória.
O nível equivalente do sistema metropolitano está próximo do limiar de 26,88%. Se atingir esse patamar, uma das medidas previstas é aumentar o tempo de redução de pressão à noite para 12 horas ?duas horas a mais do que as atuais dez.
A secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), Natália Resende, admite que o Cantareira está com chuvas abaixo da média, mas diz que a situação do Alto Tietê, que também é uma das principais fontes de água para a região metropolitana, está melhor.
"O que esperamos: mais chuvas, tanto no Alto Tietê quanto no Cantareira, o que deve fazer com que a curva vermelha [a trajetória atual de reserva de água] se aproxime da de contingência [a referência para as medidas de economia]", disse, em referência ao painel. O governo Tarcísio espera atingir, a partir de março, 40% de volume armazenado ?cenário que parece mais distante aos olhos de Adriana, do Cemaden.
Segundo a SP Águas, a redução de pressão à noite, alvo de reclamações de moradores que ficam sem água na rede, economizou 70,3 bilhões de litros de água de agosto do ano passado até 4 de janeiro deste ano, o equivalente ao consumo de 12,3 milhões de pessoas.
Resende afirma que o governo tenta adiantar as obras para mitigar os efeitos da escassez para públicos mais afetados, "que moram em locais mais altos, que não têm reservação. Estamos acelerando a reservação e o reforço de rede."
A secretária também diz que a população precisa economizar água e que o governo trabalha com Sabesp para acelerar reformas de rede, combater perdas e adiantar outras obras. "Intensificamos trabalho nos pontos de mais reclamação, as zonas mais críticas, com mais obras de reservação, de manobras e de reforço de redes, que são velhas, com muito tempo sem investimento."
Uma das obras citadas pela Sabesp é a da captação do rio Itapanhaú, que adiciona 17% ao volume total para o sistema Alto Tietê. A companhia diz ter investido R$ 1 bilhão em renovação de tubulações e modernização desde a privatização. Também disse estar investindo R$ 5 bilhões em obras para adicionar mais 8.000 litros de água por segundo ao sistema metropolitano até 2027.
Já os temporais recentes, diz Resende, não ajudam tanto para a recarga dos mananciais, já que esse tipo de chuva tem dificuldade de infiltração no solo e de percolamento ?o caminho da água até os mananciais.