SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dezenas de veículos registrados em nome de empresas e de um homem suspeito de lavar dinheiro da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) foram retirados dos locais onde eram guardados na véspera de uma ação policial que deveria apreendê-los. Entre os itens que desapareceram estão carros de luxo avaliados em mais de R$ 1,2 milhão.
Eles constam em uma lista de 257 veículos bloqueados por decisão da Justiça, impedindo a transferência de propriedade, mas não foram encontrados.
A expectativa de policiais civis era que parte significativa das apreensões da Operação Falso Mercúrio, realizada no dia 4 de dezembro, ocorresse nas lojas de carros do grupo Key Car e na casa do dono das empresas, Alessandro Rogério Momi Braga ?em Osasco e Barueri, na região metropolitana de São Paulo, respectivamente.
No entanto, as equipes policiais "encontraram as lojas praticamente vazias, com pouquíssimos automóveis", informa um documento apresentado pela polícia à Justiça.
A ordem judicial indica que, entre os veículos bloqueados, havia 67 ?sendo 56 carros e 11 motocicletas? em nome de Braga e de quatro de suas empresas. No entanto, apenas um item dessa lista (um Honda Civic fabricado em 2021) foi encontrado nos endereços onde havia ordem de busca e apreensão.
Entre os carros de luxo que desapareceram estão quatro Porsches, quatro Mercedes, três BMWs, um Jaguar e uma Ferrari F430.
O sumiço não se restringiu aos veículos. Policiais saíram às ruas para cumprir seis mandados de prisão contra suspeitos de tráfico de drogas, exploração de jogos de azar, falsidade ideológica, fraude e lavagem de dinheiro, mas não encontraram nenhum dos alvos nos endereços registrados na data da operação.
Segundo a Polícia Civil, relatórios de campo demonstraram que quatro suspeitos saíram de casa entre 1º e 3 de dezembro, incluindo Braga e Manoel Sérgio Sanches, apontado como sócio oculto do grupo Key Car.
Os dois deixaram suas residências no início da noite do dia 3, véspera da operação, segundo a polícia. Eles se entregaram na sede do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) apenas na noite do dia 5, uma sexta-feira. Outros cinco alvos da operação permanecem foragidos.
A investigação aponta que a dupla prestava serviços de lavagem de dinheiro para traficantes, operadores de máquinas de caça-níqueis e suspeitos de outros crimes ligados ao PCC.
Procurada, a defesa deles não respondeu. Em dezembro, um advogado que os representava afirmou que eles se entregaram "para colaborar com a investigação" e que não conhecia os detalhes da denúncia.
Segundo um documento obtido pela reportagem, as empresas do grupo teriam sido usadas para realizar pagamentos em dinheiro e transferências bancárias para dezenas de pessoas e firmas suspeitas de praticar lavagem de dinheiro. O esquema chegava a movimentar milhões de reais por dia, conforme a investigação do Deic.
O inquérito aponta que o Grupo Key Car recebia, por exemplo, dinheiro em espécie proveniente da operação ilegal de máquinas caça-níqueis. Esse dinheiro era arrecadado de suspeitos apontados como "coletores" de dinheiro do crime e, em seguida, um grupo de pessoas coordenadas por Braga o repassava para contas bancárias de empresas de fachada ou dos próprios coletores ?ou seja, devolvia o dinheiro já "lavado".
O uso de carros de luxo das empresas de Braga era inclusive um dos serviços oferecido a criminosos interessados em ocultar patrimônio, segundo a polícia. A investigação encontrou mensagens em que ele e investigados conversam sobre o uso de veículos mediante pagamento, sem que a propriedade fosse formalmente transferida.
Na semana passada, a 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital decretou a prisão preventiva de sete suspeitos investigados na Falso Mercúrio. Seis deles já haviam sido alvos de mandados de prisão temporária no ano passado.
NOVO SUSPEITO ENTRA NA MIRA
O novo alvo de mandado de prisão é Alexandre Ferreira de Moraes, conhecido como Rita. A investigação conseguiu conectá-lo aos outros suspeitos da operação a partir da apreensão de dois celulares, um pen-drive e duas pistolas ?uma de calibre 9 mm e outra .40, ambas da Taurus? registradas em seu nome, durante uma busca relacionada a outro investigado.
Rita tem antecedentes criminais por roubo a banco e por tráfico de drogas. A análise de um dos celulares encontrou documentos vinculados ao PCC e indicou que ele é líder da facção na região de Osasco. Segundo a polícia, Rita seria responsável pela coordenação, supervisão e encaminhamento de ordens operacionais e disciplinares da organização criminosa.
Procurada, uma advogada afirmou que "ainda não teve acesso aos autos" e que não conhece os detalhes da investigação. Ela preferiu não comentar as acusações.
FICHA DE 'DESFILIAÇÃO' DO PCC
Uma das provas de vínculo com o PCC encontradas nos celulares é uma conversa em um aplicativo de mensagens sobre um pedido de afastamento de um integrante da facção. A solicitação informa data, nome do faccionado, idade, "quebrada" (bairro de residência), as três últimas penitenciárias pelas quais o solicitante passou e a justificativa.
Quem encaminha o pedido recebe, em resposta, uma espécie de formulário com o título "Punição dos 90", com campos como nome, vulgo, idade, data do batismo, motivo da punição e padrinho. O documento deixa claro que a facção utiliza códigos para acompanhar a tramitação do processo em diversas instâncias hierárquicas da organização.
Um documento apresentado pela Polícia Civil à Justiça conclui que há indícios suficientes para indiciar nove dos investigados, entre eles os sócios da Key Car ?classificados pela investigação como intermediários? e integrantes do núcleo de coleta de valores ligados ao tráfico e aos jogos de azar.
A polícia decidiu não indiciar, por ora, dois suspeitos apontados como "beneficiários finais" do esquema. A investigação segue em andamento, e documentos apontam que já há indícios de lavagem de dinheiro envolvendo ambos.
Levantamento da Folha de S.Paulo aponta que empresas desses dois supostos beneficiários finais firmaram dezenas de contratos com prefeituras do estado de São Paulo, no valor de ao menos R$ 522 milhões nos últimos quatro anos.