BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - "Aquecimento Global? Aqui na Europa fazendo muito mais frio!" O comentário do leitor feito na reportagem da Folha de S. Paulo sobre 2025 ter sido o terceiro ano mais quente da história é relativamente comum. O diretor do Serviço de Mudança Climática do Copernicus, da União Europeia, tem uma explicação: "É tudo uma questão de zoom".
"Se você se concentra em um local específico e observa apenas um momento específico no tempo, talvez não veja uma variação. Mas, se você sair desse momento específico no tempo, daquele local específico, ampliar a imagem e olhar para o ano como um todo, então perceberá que a mesma região passou por um dos anos mais quentes já registrados."
Serviços europeus de meteorologia fizeram exatamente isso nos últimos dias. O Reino Unido, com nevascas há menos de dez dias, teve em 2025 o ano mais quente e mais ensolarado da história. Segundo o Met Office, a temperatura média do país foi de 10,09°C no ano passado, a maior já registrada desde 1884, quando as medições começaram.
Na Alemanha, as observações começaram um pouco mais cedo, em 1881. Elas indicam que 2025 está entre os dez anos mais quente da história no país, com temperatura média de 10,1°C, 1,9°C acima da marca do período de referência (1991-2000). Em Andernach, na região de Koblenz, em 2 de julho do ano passado, os termômetros chegaram a 39,3°C.
Em Berlim, a primavera foi a mais seca já registrada. O recorde anual de temperatura também foi alcançado em 2 de julho, 38°C. Na última semana, a capital alemã não registrou nenhum dia com temperatura positiva. Como diz Buontempo, tudo depende do período e da amplitude da observação. "Se ampliarmos a escala para o planeta, aí perceberemos que 2025 foi um dos anos mais quentes que já vivemos."
De acordo com o Copernicus e a Organização Meteorológica Mundial (OMM), 2025 foi o terceiro ano mais quente da história; para a Nasa, o segundo. A média do último triênio já supera o limite de aquecimento de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris, há dez anos. Não é um número arbitrário, mas um consenso científico de que qualquer coisa acima disso tornará a vida na Terra mais complicada.
Ao comentar o recorde de temperatura no Reino Unido, a agência britânica de meteorologia afirmou que 2025 foi "uma demonstração cada vez mais clara dos impactos da mudança climática nas temperaturas do Reino Unido". A instituição conduziu um estudo rápido de atribuição, que constatou a atividade humana como principal fator para a marca.
"A mudança climática induzida pelo homem tornou o recorde 260 vezes mais provável."
Outra marca histórica estabelecida em 2025 no Reino Unido foi a de insolação. Nunca o sol brilhou tanto na ilha, 1.648,5 horas, superando por 61,4 horas o recorde anterior, de 2003.
A métrica também teve um ano excepcional na Alemanha, com 1.945 horas, 26% superior à média do período de referência; 2025 foi um dos cinco anos mais ensolarados da série histórica, que começa em 1951. Segundo o Deutscher Wetterdienst (DWD), o serviço meteorológico alemão, também marcante no ano passado foi a falta de chuva, com 17% a menos de precipitações.
Outro departamento que monitora o clima na Alemanha, o Escritório Federal de Transporte Marítimo e Hidrografia (BSH), registrou recorde de temperatura no mar do Norte, 11,6°C, que é acompanhada desde 1969. No mar Báltico, com medições mais recentes, desde 1990, foi verificada a segunda maior temperatura já registrada, 9,7°C.
A variável é importante, pois 90% do excesso de aquecimento provocado pelo homem acaba armazenado em mares e oceanos. A elevada temperatura da superfície da água mostra um sistema sobrecarregado e é, ao lado das emissões de gases de efeito estufa, um dos principais fatores para o salto de temperatura média do planeta nos últimos anos.
"A análise dos dados mostra que o aquecimento não está ocorrendo apenas na superfície, mas em toda a coluna d'água. Os oceanos estão armazenando enormes quantidades de calor, uma consequência clara das mudanças climáticas progressivas", afirmou Helen Morrison, co-chefe da unidade de modelagem operacional do BSH.
Diagnóstico semelhante foi feito por Mark McCarthy, diretor do Met Office britânico. "Este ano tão quente está em linha com as consequências esperadas das mudanças climáticas induzidas pelo homem."
O especialista também pondera que isso não significa que apenas temperaturas altas ocorrerão partir de agora. "O que nossas observações e modelos indicam é que o aquecimento global induzido pelo homem está afetando o clima do Reino Unido."