SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 2021, Luciane Smeha, professora do mestrado profissional em saúde materno-infantil da Universidade Franciscana do Rio Grande do Sul, orientou um projeto do seu então estudante, Marcelo Artmann, que partiu da percepção de que muitas mulheres com problemas de saúde mental tinham dificuldades de continuar a amamentar seus bebês por conta de internação em unidades de tratamento psíquico.
No início do projeto, Smeha e Artmann realizaram uma revisão bibliográfica, publicada em abril de 2025, sobre o que existia de literatura científica a respeito de estruturas hospitalares que acolhessem bebês e mães diante de um distúrbio mental. A conclusão dessa revisão é que não havia pesquisas publicadas sobre esse tipo de iniciativa no Brasil.
Os dados coletados a partir dessa pesquisa inicial subsidiaram o desenvolvimento do projeto de Smeha e Artmann: uma sala onde mães internadas por condições psiquiátricas pudessem amamentar seus bebês e manter vínculos com eles de forma humanizada.
Segundo Smeha, essa iniciativa, que existiu de forma temporária, esteve alinhada com o modelo de unidades mães-bebês, serviços em que mulheres sem condições mentais são internadas juntamente com seus bebês durante tratamento psiquiátrico. Depressão pós-parto é um exemplo de condição que pode ser tratada nesses espaços sem que mulheres rompam com filhos.
Natália Dias, médica psiquiatra e professora da Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), tem experiência na área de saúde mental da mulher e aponta que o Reino Unido é referência em disponibilizar unidades mães-bebês para pacientes. França e Índia também são mencionados pela especialista como exemplos de países que contam com o serviço, mas ela desconhece a existência desse tipo de unidade no Brasil.
No Reino Unido, as unidades mães-bebês são o modelo de referência para tratar crises psiquiátricas agudas em fases iniciais do período pós-parto. Nesses serviços, mães e bebês são internados na mesma unidade, e equipes multidisciplinares são alocadas para auxiliar tanto os menores quanto as mulheres. O contato entre mãe e bebê é promovido durante a internação, assim como existem incentivos para visitas constantes de outros familiares.
O estímulo em continuar os laços entre mães e bebês é uma das principais justificativas desse tipo de serviço de saúde. Kylee Trevillion, professora sênior do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King's College London, no Reino Unido, afirma que a separação entre mães e bebês pode levar a quebra do laço entre eles e desencadear efeitos negativos em diferentes esferas da vida de ambos, como problemas educacionais nas crianças.
"Sabemos que manter a mãe e o bebê juntos, em unidades que trabalham não apenas para melhorar a saúde mental da mãe, mas também para apoiar o bebê, leva a melhores resultados e também a fortalecer o vínculo materno-infantil inicial", afirma Trevillion.
A professora do King's College, que dedica grande parte de suas pesquisas para o tema de saúde mental da mulher, publicou um artigo em 2022 sobre a eficácia das unidades mães-bebês no Reino Unido. O objetivo da pesquisa foi identificar se esses serviços reduziam o risco do reaparecimento de condições psiquiátricas em até um ano após o término do tratamento.
No estudo, as unidades foram comparadas com outros dois serviços que mulheres podem ser submetidas em casos de problemas de saúde mental após o parto: internação em enfermarias psiquiátricas genéricas ou auxílio com equipes de resolução de crises pontuais. Nenhuma dessas duas soluções disponibiliza o mesmo grau de especificidade vista nas unidades mães-bebês.
O resultado da pesquisa de Trevillion é que não houve uma diferença significativa entre as unidades mães-bebês e os outros dois serviços analisados no estudo. No entanto, a satisfação das pacientes das unidades mães-bebês foi maior. Ou seja, mesmo que o serviço represente maiores custos, as pacientes apontam um maior grau de suporte e conexão com seus filhos ao serem internadas nessas unidades.
Natália Dias, que não tem relação com o estudo de Trevillion, aponta que focar somente em medidas como custos das unidades mães-bebês não é adequado para avaliar esses equipamentos de saúde mental. Para a professora da UFMG, considerar fatores como bem-estar da mãe durante o tratamento e os benefícios relacionados ao vínculo da mãe com a criança são importantes porque são nesses tipos de medidas que as unidades mães-bebês podem ser mais vantajosas.
A falta das unidades mães-bebês no Brasil é um ponto negativo na visão de Dias, mas ela afirma que o gargalo é generalizado: falta oferta adequada de serviços para prestar assistência à saúde mental de mulheres em diferentes frentes no país. No entanto, esses desfalques generalizados não devem ser vistos como justificativas para evitar o surgimento das unidades mães-bebês no Brasil, conclui a professora.