PEQUIM, CHINA (FOLHAPRESS) - A China pode não alcançar a meta doméstica de redução da intensidade das emissões de carbono, cujo prazo é 2025. Ao mesmo tempo, acadêmicos afirmam que o país, principal emissor de CO? do mundo, é visto como exemplo no cumprimento de objetivos ligados à expansão de energia renovável.

A meta, que considera a quantidade de CO? emitida por unidade do PIB (Produto Interno Bruto), foi incluída no 14º Plano Quinquenal elaborado por Pequim. Os planos, lançados a cada cinco anos, apresentam as prioridades do Partido Comunista Chinês para o desenvolvimento social, econômico e político do país.

O documento estabelecia uma redução de 18% de 2021 a 2025, tendo 2020 como base. No entanto, um relatório da consultoria S&P Global Energy aponta que, até 2024, o país havia alcançado uma queda de apenas 7,8%, o que exigiria um salto em 2025 para que o objetivo fosse cumprido -um cenário considerado pouco provável por especialistas.

Por outro lado, o país asiático deve atingir com mais facilidade outra meta climática prevista para o período. Pequim estabeleceu uma redução de 13,5% no consumo de energia por unidade do PIB e, até 2024, dados da consultoria indicam que a China já havia alcançado uma diminuição de 10,8%, tornando o esforço adicional necessário em 2025 factível.

"Vale destacar que a intensidade energética da China diminuiu 3,8% apenas em 2024, portanto a meta adicional de cerca de 3% parece estar ao alcance", afirma o relatório da S&P.

É esperado que os resultados consolidados das metas climáticas incluídas no último plano quinquenal sejam divulgados até o final do primeiro semestre de 2026.

Para Michael Davidson, da Escola de Política e Estratégia Global da Universidade da Califórnia em San Diego, é improvável que a China cumpra integralmente as metas estabelecidas para a redução das emissões de carbono por unidade do PIB. Um dos motivos, segundo o pesquisador, é a mudança na forma como Pequim vem estruturando seus compromissos climáticos.

"A liderança central da China está em processo de transição, deixando de priorizar reduções de intensidade e passando a focar no pico das emissões de carbono e em compromissos de redução absoluta", afirma.

Até recentemente, as metas chinesas eram formuladas com base na intensidade das emissões, determinando reduções por unidade do PIB -um modelo que permite que as emissões absolutas continuem crescendo, ao mesmo tempo em que evita que os objetivos climáticos imponham limites diretos ao crescimento econômico.

A meta de redução da intensidade do carbono em 18% é um exemplo. Uma análise do Green Finance and Development Center mostra que, mesmo com o cumprimento desse objetivo, as emissões totais de CO? da China ainda poderiam crescer cerca de 10%.

Agora, Pequim se volta a compromissos de redução absoluta das emissões de gases de efeito estufa. Em 2025, o país anunciou uma meta de redução líquida de 7% a 10% até 2035, em relação ao pico das emissões, que o regime chinês prevê atingir antes de 2030.

Davidson afirma que a redução absoluta é relevante porque indica esforços concretos rumo à neutralidade de carbono, conceito que se refere ao equilíbrio entre as emissões de CO? e sua remoção da atmosfera.

"A China está entre os poucos países de renda média, ao lado do Brasil, que estabeleceram uma meta absoluta de redução de emissões para 2035", diz.

A redução líquida de 7% a 10% deve ser alcançada com relativa facilidade, segundo Kelly Sims Gallagher, reitora e professora de política energética e ambiental da Escola Fletcher, da Universidade Tufts (EUA).

"Acredito que a China vai atingir o pico de emissões muito em breve e, em seguida, é provável que supere sua meta para 2035, já que esse objetivo foi definido de forma conservadora."

Gallagher afirma que o país superou com folga metas relacionadas à energia renovável, como o marco de 1.200 gigawatts de capacidade instalada em energia eólica e solar, seis anos antes do previsto, e, no início de 2025, a capacidade combinada de eólica e solar ultrapassou pela primeira vez a do carvão no país.

"Ainda assim, a China continua construindo novas usinas a carvão por razões ligadas à segurança econômica", diz.