SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Idealizado por empresários europeus no final dos anos 1800, o loteamento nomeado em referência à avenida parisiense Champs-Élysées foi preenchido por mansões da elite ligada à economia cafeeira. Mais de um século depois, o trecho do distrito Santa Cecília chamado de Campos Elíseos se tornou sinônimo da decadência da região central da cidade de São Paulo.
Transformar palacetes arruinados do bairro em moradia e local de trabalho para grupos vulneráveis é o cerne do modelo de requalificação urbana dos professores de arquitetura e urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie Lizete Maria Rubano e Antônio Aparecido Fabiano Júnior. O projeto "Reconstruir sem destruir" é o quarto da série Centro em Transição, que discute ideias para transformar o coração da capital paulista.
Cinco propostas serão publicadas até 24 de janeiro, véspera do aniversário da capital paulista. Um minidocumentário consolidando as sugestões irá ao ar nessa data. Já foram reportados projetos para o parque Dom Pedro 2º, Bom Retiro e Centro Histórico.
O fim do ciclo do café nos anos 1930 e a chegada de um terminal rodoviário na Luz nos anos 1960 marcaram a transição de um reduto de ricos para um bairro de migrantes. Casarões foram transformados em pensões e a desvalorização imobiliária se agravou com a desativação do terminal nos anos 1980.
Pensões muito baratas se tornaram abrigo para traficantes de drogas. A chegada do crack nos anos 1990 atraiu milhares de usuários para os arredores da estação Júlio Prestes -a cena de consumo da droga ao ar livre ficou conhecida como cracolândia.
Iniciativas do poder público na região fracassaram até que, em meados dos anos 2010, o governo estadual apresentou um plano que conseguiu sair do papel: uma PPP (Parceria Público-Privada) com valor inicial de 1,4 bilhão para a construção de quase 3.700 apartamentos.
Quarteirões inteiros foram demolidos para dar lugar ao megacondomínio, cujos prédios -em sua maioria já construídos e habitados- atendem famílias com renda a partir de um salário mínimo.
Esses novos imóveis, porém, seguem inacessíveis para pessoas ainda mais pobres ou que não conseguem comprovar renda, argumentam os professores de urbanismo do Mackenzie.
Para atender esse público, Rubano e Fabiano defendem que casarões e outros prédios abandonados sejam restaurados para servir de moradia para indivíduos que vivem em pensões precárias e cortiços, além de pessoas em situação de rua.
Restaurar esses imóveis ou ao menos suas fachadas também resultaria na preservação de elementos históricos da urbanização paulistana, alegam os autores da proposta.
Imóveis reconstruídos e novos -nos casos em que a recuperação fosse inviável- abrigariam habitações transitórias, fixas e coletivas, além oficinas e cozinhas comunitárias para também promoverem renda e socialização.
O projeto, embora faça referência aos Campos Elíseos, serve de método para discutir moradia acessível em outras localidades em que há necessidade de equilibrar a oferta de habitação, especialmente em projetos de requalificação urbana, com a inclusão daqueles que não conseguem ingressar em programas habitacionais convencionais.
"Campos Elíseos está em todos os lugares, justamente porque está na tensão entre dois momentos: agora que todo mundo quer estar aqui, os pobres, que tinham permanecido quando os ricos saíram, acabam ficando sem lugar", diz Fabiano.
Informada sobre o projeto dos especialistas, a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que a PPP da habitação foi uma ação fundamental para marcar o início de um processo de revitalização da região central.
O governo também afirmou que o lançamento de uma nova PPP para requalificação de toda a área central prevê 6.500 novas moradias.
Já a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que 40% de todo o volume arrecadado com outorga onerosa (a taxa que dá o direito de construir) na região central é destinado para famílias com renda de até dois salários mínimos.
Abaixo, alguns destaques da proposta dos professores do Mackenzie.
RECONSTRUIR SEM DESTRUIR - HABITAÇÃO ACESSÍVEL NO CENTRO
RECONSTRUÇÕES DAS QUADRAS 37 E 38
- Casarões em ruínas na rua Helvétia e alameda Dino Bueno teriam fachadas restauradas e interiores reconstruídos, sem prejuízo à unidade de saúde, à escola estadual e ao recém-inaugurado condomínio residencial com 190 apartamentos na mesma quadra 38;
- A gestão do prefeito Ricardo Nunes tem outro plano para esta quadra. Uma PPP municipal de habitação prevê a construção de 307 unidades habitacionais no local;
- A proposta dos professores também se aplica às pensões desativadas que funcionam nos casarões arruinados da quadra ao lado, a 37, localizada diante do tradicional Liceu Coração de Jesus;
- A quadra 36 estava originalmente incluída no projeto, mas o governo estadual construiu no local o Hospital da Mulher
OFICINAS PARA TRABALHO E RENDA
- Atividades econômicas comunitárias que já são comuns a esses grupos, como a produção de alimentos, seriam estruturadas;
- Áreas internas seriam adaptadas para a geração de trabalho e renda, com a construção de oficina de costura, serralheria e carpintaria.
MÉTODO PARA RECONSTRUIR SEM CONSTRUIR
- O projeto procura combinar a preservação de imóveis e a redução ou eliminação dos despejos nos casos de imóveis já ocupados;
- Esse método prevê que, em diferentes etapas, andares de edifícios sejam mesclados e incorporados a imóveis e terrenos vagos nas suas laterais;
- O entulho gerado por demolições seria separado, triturado e reaproveitado na tentativa de reduzir o custo das obras.
ELEMENTOS E DINÂMICAS
Prédios seriam reformados ou reconstruídos de forma a potencializar dinâmicas sociais que já ocorrem em pensões e cortiços da região central. Cinco elementos em comum identificados em casarões dos Campos Elíseos podem ser aprimorados:
- Terraço - Funcionam tanto como espaços de contemplação, quanto para atividades práticas comunitárias, como hortas;
- Pátio - Com luz natural, áreas abertas no centro das construções seriam adaptadas para atividades recreativas e coletivas;
- Quintal - Corredores e quintais são frequentemente usados como áreas de serviço e poderiam ser efetivamente adaptados para esse uso;
- Fosso - Espaços obrigatórios para ventilar construções também podem funcionar como áreas para contemplação;
- Soleiras - Portas dos edifícios voltadas para a rua e bancos nas calçadas estimulam a convivência e integração com a rua.