FORTALEZA, CE (FOLHAPRESS) - É início da noite de uma sexta-feira de novembro e ao menos 50 viaturas com o giroflex ligado se posicionam no centro de uma praça no bairro Pirambu, orla de Fortaleza. A cúpula da Segurança Pública está presente, discursa para motivar a tropa e os carros partem fazendo barulho rumo aos bairros periféricos da cidade.

Parte das viaturas patrulha a Barra do Ceará, bairro onde quatro jovens foram mortos em um campo de futebol em maio de 2025. No mesmo mês, duas irmãs foram assassinadas na praia em um crime com contornos cinematográficos, baleadas por homens que chegaram pelo mar em uma moto aquática.

Oitavo estado brasileiro em população e quarto com mais mortes violentas em 2025, o Ceará está no centro de uma disputa entre duas das maiores facções criminosas do país, cenário que fez da segurança o principal desafio do governador Elmano de Freitas (PT).

O Comando Vermelho, facção com origem no Rio de Janeiro, avançou sobre áreas dominadas pelo cearense GDE (Guardiões do Estado) nos últimos anos. Para fazer frente ao inimigo externo, a facção local se aliou ao TCP (Terceiro Comando Puro), outra facção originária do Rio.

A chegada dos grupos criminosos com atuação nacional veio acompanhada de práticas como a exploração ilegal dos serviços de internet, a extorsão de moradores e comerciantes e até mesmo expulsão de famílias de suas casas.

"Há um movimento de disputa entre as facções muito violento, que aumenta muito a letalidade, porque eles têm métodos de dominação na base da violência. Isso está acontecendo no Brasil todo. Não é uma peculiaridade do Ceará", afirma o secretário estadual de Segurança Pública, Roberto Sá.

O estado, contudo, ganhou uma centralidade para os grupos criminosos por sua posição estratégica para a rota do tráfico internacional, com portos e aeroportos próximos da Europa e dos Estados Unidos.

Em fevereiro de 2025, a Polícia Federal apreendeu cerca de 450 quilos de cocaína nos portos de Pecém e Mucuripe, escondidos em contêineres para exportação de cera de carnaúba e polpa de manga congelada.

O resultado desta disputa foi uma escalada da violência. Ao todo, foram registradas 3.361 mortes violentas no Ceará em 2024. Metade das pessoas mortas tinha até 29 anos, incluindo 304 crianças e adolescentes.

De janeiro a novembro de 2025, foram 2.973 assassinatos, número que coloca o Ceará atrás apenas da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo em números absolutos de mortes violentas -que incluem homicídio, feminicídio, morte decorrente de ação policial, lesão corporal seguida de morte, roubo seguido de morte.

Fortaleza, maior metrópole do Nordeste com 2,4 milhões de habitantes, é peça central nessa disputa entre os criminosos, com impacto direto em cidades do entorno como Caucaia, Maracanaú e Maranguape.

Em 2024, as três estiveram entre os 20 municípios brasileiros com maior taxa proporcional de mortes violentas, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Maranguape encabeçou a lista como cidade mais violenta do país, com uma taxa de 79,9 assassinatos a cada 100 mil habitantes.

Com uma geografia plana, diferente de capitais como Rio e Salvador, a periferia das cidades da Grande Fortaleza se organiza em grandes conjuntos habitacionais, que chegam a reunir dezenas de milhares de moradores.

Os números maiúsculos dos conjuntos, contudo, não se refletem em uma prestação de serviços públicos eficiente. Em muitos deles não há coleta de lixo, presença de agentes de saúde, serviços postais, além de não terem escolas e creches suficientes para atender a demanda local.

Um dos maiores conjuntos é o José Euclides, no bairro Jangurussu, onde vivem cerca de 3.000 famílias. Inaugurado em 2017 para receber famílias que viviam no do entorno dos rios Maranguapinho e Cocó, o conjunto foi tomado por facções criminosas. Em agosto, dezenas de famílias abandonaram seus apartamentos e deixaram o residencial após ameaças.

Em Maracanaú, um conjunto habitacional no bairro Boa Esperança teve os seus muros marcados com siglas de uma fação. A polícia cobriu as marcas com tinta preta e mensagens como "Ceará contra o Crime", mas os criminosos voltaram a deixar suas marcas, desta vez com tinta branca.

As extorsões e o domínio da prestação de serviços públicos pelos criminosos se tornaram um desafio adicional para as forças de segurança. Um dos principais alvos foram empresas provedoras de internet, cujos donos foram ameaçados e tiveram a infraestrutura de prestação do serviço destruída.

Em dezembro, criminosos incendiaram uma embarcação de pesca avaliada em R$ 1,8 milhão na cidade de Itarema, litoral do estado. O proprietário teria se recusado a pagar uma taxa ilegal cobrada pelos bandidos para manter o barco no local. Um homem foi preso por suspeita de ordenar o incêndio.

Casos como estes fizeram crescer o clima de tensão e medo nas cidades cearenses. Os mais ricos buscaram reforçar a segurança de suas famílias. Dados da Associação Brasileira de Blindagem apontam que o Ceará foi o terceiro estado que mais blindou veículos no primeiro semestre de 2025.

As famílias mais pobres, por outro lado, se veem apartadas em meio a territórios dominados por grupos criminosos, limitações para circular em bairros vizinhos e desalento entre os mais jovens.

"Ser uma mãe na periferia de Fortaleza é estar entre o crime que avança por um lado e a polícia que entra muitas vezes sem respeitar a comunidade. É ter a certeza que a gente vai ver nosso filho saindo, mas não saber ele vai voltar", desabafa Edna Carla, representante do Movimento Mães da Periferia.

O secretário de Segurança Pública Roberto Sá afirma que o governo tem atuado com rigor e estratégia no enfrentamento ao crime organizado, com aumento expressivo nas apreensões de armas e nas prisões - entre janeiro e outubro de 2025, foram mais de 2.400 suspeitos de homicídio detidos.

Para combater crimes como a extorsão a provedores de internet e deslocamentos forçados de famílias, afirma que gestão implementou protocolos de resposta integrada e rápida, envolvendo Polícia Militar, Civil, e órgãos de inteligência.

O secretário ainda destaca que, apesar do avanço do número de mortes violentas, o estado teve redução de crimes como roubos e latrocínios. Também destaca a realização de concursos públicos para reforçar o efetivo e a aquisição de viaturas blindadas para proteção dos policiais.

"É óbvio que a polícia pode melhorar muito. Mas estruturalmente o problema está em termos uma sociedade violenta e política criminal que não trata aqueles que praticam crimes muito violentos com rigor que deveria", avalia.