O dólar desacelerou o ritmo de alta na segunda metade do pregão, diante do cenário ainda benigno para carry trade no Brasil. Além do IBC-Br acima do esperado em novembro, economistas descartaram corte de juros em janeiro durante as primeiras reuniões com o Banco Central (BC), segundo apuração da Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, e há questionamento sobre tamanho do ciclo de flexibilização monetária à frente. Contudo, tensões geopolíticas seguiram no radar, enquanto a divisa americana se comportou de maneira mista tanto entre moedas emergentes quanto entre pares fortes.

A semana também foi de leve apreciação do dólar (+0,13%) que, entretanto, ainda acumula queda de 2,12% ante o real em 2026. Operadores mencionam que o ambiente externo tem sido predominante na formação da taxa de câmbio e, nesta sexta-feira, houve cautela por conta do fim de semana prolongado nos Estados Unidos, que terão feriado de Martin Luther King na segunda-feira.

O dólar à vista fechou em alta de 0,08%, a R$ 5,3726, após máxima de R$ 5,3951 e R$ 5,365, ambas pela manhã. O futuro para fevereiro subia 0,02%, a R$ 5,389, por volta das 18h, enquanto o índice DXY - que mede a divisa americana contra seis pares fortes - avançava 0,05%.

"O dólar opera misto em relação às moedas no mundo nesta sexta. Oscilou entre momentos melhores e piores, porém o real até que se comporta bem em relação a pares", comenta o gestor de macro e renda fixa da AZ Quest, Eduardo Aun, mencionando o dólar australiano e o peso colombiano tendo performances inferiores.

Como fator que justificaria essa melhora do real está o grande diferencial entre os juros do Brasil e dos Estados Unidos. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) em novembro subiu 0,68% ante outubro, acima da mediana de 0,35% das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast.

"O IBC-Br mostrou atividade mais forte do que o esperado e aceleração no dado, então muitas casas reviram o PIB do quarto trimestre para cima. É mais lenha na fogueira para o BC não cortar juro na reunião de janeiro, e há também dúvidas sobre o tamanho do corte", comenta Aun, acrescentando que uma Selic mais alta é benéfica para o real, embora, a seu ver, o desempenho do câmbio desta sexta não tenha chamado tanta atenção.

Como pano de fundo, o especialista em investimentos da Nomad, Bruno Shahini, destaca que a leitura de um Federal Reserve (Fed) mais hawkish e independente de pressões políticas sustentou os juros dos Treasuries e deu suporte para o dólar, com o DXY avançando na semana, porém parcialmente limitado pelo alívio geopolítico nas tensões entre EUA e Irã.

Bolsas

Após duas sessões no nível recorde de 165 mil pontos, tendo chegado na quinta pela primeira vez no intradia aos 166 mil, o Ibovespa fez nesta sexta-feira, 16, uma pausa para consolidação, realizando lucros que ainda preservaram um avanço de 0,88% na semana, sucedendo outro ganho semanal, de 1,76%, na transição de 2025 a 2026. O índice da B3 caiu 0,46% na sessão, aos 164.799,98 pontos, com giro financeiro a R$ 34,1 bilhões em dia de vencimento de opções sobre ações. Da mínima à máxima desta sexta, oscilou dos 164.099,89 até os 165.871,66 pontos, saindo de abertura aos 165.556,54 pontos. Em janeiro, mostra alta de 2,28%.

O petróleo teve recuperação parcial em Londres e Nova York, em alta que chegou a superar 1% na sessão, após o tombo de 4% em ambas as referências, na quinta. Assim, o avanço de 0,27% para Petrobras ON e de 0,79% na PN, ainda que enfraquecido em direção ao fechamento, mitigou parte do efeito de outras blue chips sobre o Ibovespa, como as do setor financeiro, como Itaú (PN -0,83%). As ações da estatal contaram com amparo, também, da prévia do relatório de produção, divulgada na noite de ontem, que trouxe leitura acima da meta para o ano. Na ponta ganhadora do Ibovespa nesta sexta-feira, Copasa (+2,51%), Cosan (+2,40%) e Assaí (+2,19%). Vamos (-9,09%), Braskem (-5,84%) e Direcional (-5,70%) lideraram o campo oposto.

No exterior, a semana foi marcada por acentuada volatilidade nos preços do petróleo. A commodity tem oscilado ao sabor das incertezas e tensões em torno do futuro do regime dos aiatolás, no Irã. A instabilidade política resultou em violenta repressão a manifestantes, com mais de 2,4 mil mortos, segundo relatos de organizações que acompanham a situação no país.

Nos últimos dias, o recuo retórico do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quanto a uma eventual intervenção militar americana no Irã retirou parte dos prêmios de risco que haviam sido embutidos nos preços da commodity. Como aponta Matthew Ryan, head de estratégia de mercado da Ebury, Trump passou a adotar, do meio para o fim desta semana, uma atitude de "esperar" para "observar", monitorando os desdobramentos da situação no Irã antes de optar ou descartar o engajamento direto em região volátil e vital para o mercado global de energia.

Como resultado, desde então os contratos futuros de petróleo caíram acentuadamente com a redução do risco geopolítico, na medida em que os mercados parecem, agora, "menos temerosos" quanto à possibilidade de um bloqueio no fornecimento da commodity através do Estreito de Ormuz, estratégico ponto de passagem de petroleiros que bordeja o Irã.

Em outro desdobramento importante nesta sexta, também no front externo, Trump sinalizou que pode manter o diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, no cargo atual. Trump disse que "talvez queira manter" Hassett onde já está, na Casa Branca. Hassett era um dos nomes considerados mais fortes para substituir Jerome Powell, em maio, quando termina o mandato do atual presidente do Federal Reserve. "Não queremos perdê-lo na Casa Branca. Veremos o que fazer."

Após as declarações de Trump, os mercados de apostas passaram a precificar uma mudança clara de cenário para o comando do Fed. Na Kalshi, Warsh assumiu favoritismo, com 59% de probabilidade, refletindo a leitura de que Hassett pode permanecer no governo. Movimento semelhante foi observado na Polymarket, onde Warsh também passou a liderar as apostas, com 58%.

"Kevin Warsh pode vir a ser mais 'dovish' (suave) do que a composição atual com Jerome Powell à frente, mas não tanto quanto seria o caso com Kevin Hassett", diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research. Ele acrescenta que o sinal dado por Trump foi lido de forma favorável pelo mercado, que temia um grau maior de "interferência" no Fed caso Hassett se firmasse como pule de 10 para substituir Powell em maio. Em Nova York, os principais índices de ações fecharam o dia com leve variação: Dow Jones -0,17%, S&P 500 -0,06% e Nasdaq também -0,06%.

Na B3, observa Spiess, acabou prevalecendo uma realização de lucros natural, após duas sessões em níveis recordes, que haviam dado impulso, em especial, ao setor de energia. Assim, Petrobras, por exemplo, acumulou ganhos de 5,74% (PN) e 6,52% (ON) na semana, à frente de outro nome de peso, Vale ON, que subiu 5,57%. Nesta sexta, a ação da mineradora operou em baixa na maior parte da sessão, mas fechou na máxima do dia, pouco acima da estabilidade (+0,04%), a R$ 78,88.

"Metade de janeiro já ficou para trás, e a Bolsa segue repetindo o padrão que vimos no ano passado: novos recordes alcançados e o fluxo estrangeiro como principal motor da alta do Ibovespa", diz Bruna Sene, analista de renda variável da Rico. Segundo ela, a diferença em relação a 2025 está nos "protagonistas" da nova arrancada: Petrobras e Vale. "Ações que demoraram a reagir no ano passado, assumiram a liderança e puxaram o índice para cima", acrescenta

Em meio ao grau de incerteza em especial no exterior, os agentes do mercado financeiro brasileiro moderaram o otimismo nas perspectivas para o desempenho do Índice Bovespa na próxima semana. Na edição de hoje do Termômetro Broadcast Bolsa, a parcela dos profissionais que esperam alta do Ibovespa recuou de 60% para 55,56%. Por outro lado, as estimativas de queda do índice na semana que vem aumentaram de 20% para 33,13%. As apostas de estabilidade do indicador diminuíram expressivamente, de 20% para 11,11%.

Na agenda doméstica, destaque nesta sexta-feira para a divulgação do índice de atividade IBC-Br, do Banco Central. "Trouxe surpresa positiva na margem, em alta de quase 0,7%, que se coaduna com a leitura de ontem sobre o varejo, do IBGE, o que reforçou a expectativa para serviços no IBC-Br", diz Antonio Ricciardi, economista do Daycoval. "Alta deste índice, considerado uma prévia do PIB, traz efeitos para a decisão do Copom, no sentido de uma economia ainda aquecida", observa Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos, destacando que a leitura de novembro, a 0,68%, veio bem acima da expectativa de consenso, de alta na casa de 0,3%.

Juros

Os juros futuros negociados na B3 exibiram alta firme desde a abertura na última sessão da semana, impulsionados pela leitura de novembro do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mais forte do que o previsto. O dado, ainda que relativamente defasado, se seguiu ao varejo igualmente acima do esperado na quinta e despertou discussões sobre o timing e o orçamento do esperado ciclo de cortes da Selic.

Fontes afirmaram à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, que, nas duas primeiras reuniões trimestrais de economistas com o BC, ocorridas nesta sexta-feira, 16, em São Paulo, os participantes foram unânimes ao descartar possibilidade de redução do juro básico em janeiro. Segundo apuração dos repórteres Cícero Cotrim e Daniel Tozzi, a avaliação geral é que março seria um momento mais adequado.

A elevação adicional dos DIs também foi influenciada pelos Treasuries. Os rendimentos dos títulos soberanos americanos reagiram nesta sexta a declarações do presidente Donald Trump de que Kevin Hassett, atual conselheiro econômico da Casa Branca, deve permanecer em seu posto, em vez de substituir Jerome Powell no comando do Federal Reserve (Fed). Hassett seria um nome com maior propensão a aliviar a política monetária.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 avançou de 13,748% no ajuste anterior para 13,805%. O DI para janeiro de 2029 subiu de 13,076% no ajuste de quinta 13,195%. O DI para janeiro de 2031 ficou em 13,495%, de 13,371% no ajuste de quinta.

O cômputo semanal também foi de deslocamento para cima da curva a termo, com ganho de inclinação. Em relação ao fechamento da sexta-feira anterior, o vértice de janeiro de 2027 abriu 4,5 pontos-base, enquanto o vencimento de janeiro de 2029 aumentou 13,5 pontos-base, e de janeiro de 2031, 15 pontos-base.

Os juros futuros mais curtos foram pressionados desde cedo pela publicação do IBC-Br de novembro, que subiu 0,68% frente a outubro, feitos os ajustes sazonais - quase o dobro da mediana de estimativas coletada pelo Projeções Broadcast, de 0,35%. O dado também trouxe revisões em leituras anteriores, e se seguiu à outra surpresa positiva com o resultado das vendas do varejo, divulgado na quinta.

Segundo Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, depois de conhecer os dois índices, economistas estão começando a elevar, ainda que de forma modesta, as projeções para o crescimento do PIB do último trimestre e do acumulado de 2025. Cruz destaca que, devido à herança estatística, um desempenho mais robusto da atividade no final do ano passado também deve ter impacto positivo sobre o crescimento de 2026.

"Casas que projetavam 2,2% de crescimento para 2025 estão revisando para 2,3%, 2,4%, o que pode fazer com que as projeções para 2026 também sejam revistas para cima. Ainda que seja pouca diferença, de qualquer maneira não escuto mais ninguém falar que vai ter corte de juro em janeiro, e o pessoal não está mais tão convicto assim com março", relata Cruz.

Gestor de portfólio da Connex Capital, Gean Lima destaca que as opções digitais de Copom negociadas na B3 indicam apenas 19% de probabilidade de redução da Selic em janeiro, de 0,25 ponto. Já para a reunião de março, 30% das apostas são de manutenção, ante 70% de flexibilização, porcentual igualmente distribuído entre corte de 0,25 ponto e 0,50 ponto. "O número do IBC-Br gerou um estresse, mas ainda não vejo motivo para ele adiar o ciclo de cortes além de março", disse.

O Santander foi surpreendido positivamente pelo indicador, mas segue prevendo estabilidade do PIB no quarto trimestre frente ao terceiro, na comparação dessazonalizada, assim como expansão de 2,2% em 2025 e de 1,5% em 2026. "Em nossa visão, a força no mercado de trabalho continua a compensar parcialmente o impacto negativo da política monetária", observam os economistas Gabriel Couto e Rodolfo Pavan.