RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - Denúncia do MP (Ministério Público) aponta que uma moradora da Penha, zona norte do Rio, teve o celular furtado por um policial militar durante a megaoperação mais letal da história do Brasil, em outubro do ano passado.

O segundo-sargento Vilson dos Santos Martins está preso preventivamente. Ele está na unidade prisional da PM, alvo de processo administrativo, segundo a corporação. A reportagem não localizou a defesa do policial militar.

Além dele, outros três PMs foram denunciados por crimes supostamente cometidos durante a ação policial. São eles: os segundos-sargentos Diogo da Silva Souza e Renato Vinícius Maia, e o terceiro-sargento Eduardo Oliveira Coutinho.

A Justiça tornou réus os quatro policiais. Eles respondem na Justiça Militar por roubo qualificado, violação de domicílio qualificada e constrangimento ilegal. O caso foi revelado pelo portal G1 e confirmado pela reportagem.

As imagens das câmeras corporais foram descritas na denúncia do MP. Segundo a Promotoria, a bodycam de Martins mostrou que ele e os outros três policiais entraram na casa de uma moradora da Vila Cruzeiro arrombando, com alicate, um cadeado.

Logo depois, os PMs entraram na casa de uma vizinha. A denúncia aponta que a moradora foi constrangida enquanto os policiais reviravam sua casa.

Martins teria furtado um celular enquanto PMs vasculhavam casa. O aparelho estava no braço do sofá, na sala da moradora. O MP diz que os demais policiais contribuíram para o crime.

OPERAÇÃO MAIS LETAL DA HISTÓRIA

Operação Contenção foi a mais letal da história das polícias do Brasil. Foram 122 mortos, sendo cinco policiais e 117 homens apontados pelo governo como suspeitos. Dos 51 alvos de mandado de prisão, a ação conseguiu localizar e prender apenas quatro. Nenhum dos mortos pelas polícias Militar e Civil constava na denúncia que baseou a operação.

O principal alvo da operação, Edgar Alves de Andrade, vulgo Doca ou Urso, não foi localizado pelas polícias. Apontado pela Polícia Civil do Rio como o principal chefe do Comando Vermelho fora dos presídios, ele está foragido há sete anos. Doca tem 273 anotações criminais e 32 mandados de prisão em aberto. Secretário de Segurança do Estado, Victor César dos Santos afirmou ao UOL que a prioridade do governo é asfixiar o crime, não eleger prioridades de detenção.

Para moradores sem relação com o crime organizado, ficaram marcas físicas e psicológicas. A reportagem percorreu no dia seguinte da ação, de moto, as vielas 9, 23 e a região de mata onde corpos foram encontrados por moradores. Quem vive nesses locais disse que policiais, antes de localizaram traficantes, realizaram buscas truculentas nos barracos, arrombando portas e metralhando paredes de casas. Além disso, mataram a tiros uma cachorra de uma moradora.

DOIS DOS PMS JÁ ESTAVAM PRESOS

A Corregedoria da PM já havia detido cinco policiais militares suspeitos de terem cometido crimes durante a operação do mês passado. Os PMs detidos foram: Diogo da Silva Souza, Eduardo de Oliveira Coutinho, denunciados pela segunda vez, e Marcelo Luiz do Amaral, Charles William Gomes dos Santos e Marcus Vinicius Ferreira Silva Vieira. A reportagem não localizou a defesa dos policiais.

A análise das câmeras corporais utilizadas pelos PMs na operação letal foi essencial para a atuação da Corregedoria. De acordo com o órgão, os policiais furtaram ao menos um fuzil para ser revendido a criminosos. Um diálogo dos PMs, captado pelos equipamentos, reforça a suspeita da Corregedoria. Em nota, a corporação afirmou não compactuar com desvios de conduta e que, quando constatados crimes, pune com rigor.

Apenas 23% dos policiais dos policiais que atuaram na Contenção usaram câmeras corporais. Para 2,5 mil policiais que agiram na Penha e Alemão, havia somente 569 câmeras, segundo informou o governo do Rio ao STF (Supremo Tribunal Federal). De acordo com a gestão estadual, falhas técnicas impediram uso de câmeras por todo o efetivo policial.

GOVERNO DEFENDE LEGITIMIDADE

Ao STF, o governo do Rio afirmou que a Operação Contenção foi "legítima, necessária e absolutamente imprescindível". Em relatório, a gestão de Cláudio Castro (PL) defendeu que a ação se consolidou como um "marco histórico no enfrentamento ao crime organizado" e que deve ser reconhecida como "política pública de defesa institucional, jurídica e social".

O relatório do governo apontou que a operação resultou em avanços "concretos e mensuráveis". Também relatou que a medida rompeu um ciclo de expansão territorial do Comando Vermelho e restabeleceu a presença do Estado nas áreas dominadas pela facção. Um dia depois da ação, a reportagem rodou pela Penha de mototáxi: traficantes já estavam nos pontos de venda de drogas normalmente.