PARIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Alain Bataillou, apaixonou-se por aviação na infância, brincando de aeromodelismo. Passou no concurso da Escola Nacional de Aviação Civil e entrou para a Air France. Depois de pilotar bimotores Caravelle e quadrirreatores Boeing 707, candidatou-se a passar para o Concorde.

Foi admitido no primeiro estágio para entrada em operação, em outubro de 1975. Hoje aposentado, mora perto de Lyon, na região dos Alpes franceses.

*

PERGUNTA - O senhor fez um dos primeiros voos do Concorde Paris-Rio.

ALAIN BATAILLOU - Íamos para o Rio via Dacar, às quarta-feiras e domingos. Eu fiz um voo em 4 de fevereiro de 1976. Foi o quarto voo comercial no Concorde, que era o primeiro avião comercial supersônico. E o único até hoje, aliás.

P - E como era a sensação de voar no Concorde?

AB - Era um pouco diferente, porque tínhamos, como dizem, um novo domínio de voo. Ou seja, voávamos em supersônico e em altas altitudes. Os aviões atuais voam entre 10 mil e 12 mil metros. E nós voávamos a 18 mil. Portanto, era um novo envelope de voo. Além disso, o supersônico apresenta características particulares, com a passagem de Mach 1, ou seja, a barreira do som, a 1.200 km/h ao nível do solo. Nossos voos de cruzeiro voavam a Mach 2,02.

P - E o senhor voou no Concorde por quanto tempo?

AB - Sete anos e meio. No total, na Air France, tenho 20,5 mil horas de voo, e cerca de 2.500 no Concorde, das quais 2.380 em supersônico. Mas tínhamos restrições: não podíamos voar em supersônico sobre zonas habitadas, por causa do estrondo que deixava para trás, causado pela compressão do ar.

P - Que lembranças do Rio mais marcaram o senhor?

AB - Como no início só íamos ao Rio e fazíamos três ou quatro "rotações", como chamamos, eu chegava a passar 15 dias por mês. Adorava a cidade, o ambiente, a comida. Pude assistir a pelo menos dois carnavais. Solicitei os voos para estar lá naquele período.

Como passei muito tempo lá, conhecia melhor o campeonato brasileiro de futebol que o francês. Assim que chegávamos, na quarta-feira, ao hotel Méridien, tomávamos banho, vestíamos jeans, camiseta polo e tênis, sem relógio, nada conosco, e íamos ao Maracanã. Era um espetáculo fantástico, o ambiente era incrível, tive até a chance de assistir a uma final emocionante, que certamente lhe diz algo, o Fla-Flu.

P - Conte sobre o dia em que o senhor participou de um filme de James Bond, "007 contra o Foguete da Morte".

AB - Um dia, saindo de Paris, nos disseram que na chegada nosso avião seria deslocado para as gravações de um filme. Durante o voo, uma comissária veio nos dizer: "Olha, temos um ator de cinema, temos Roger Moore a bordo." "Ah, é mesmo?" Na hora, não atinamos, mas dissemos à comissária: "Traga ele aqui." Ele foi simpático. A esposa dele era francesa, falava francês muito bem. Mas tinha acabado de sair do hospital, o filme tinha sido interrompido, ele tinha tido um problema de saúde grave, tinha sido operado, então estava todo pálido, de calça de flanela, jaqueta tweed, como todo bom britânico. Ele disse: "Vamos usar seu avião no aeroporto. Se quiserem, venham assistir às filmagens."

Fiquei muito interessado, nunca tinha visto uma. Demorou um pouco, começamos a cochilar, estávamos um pouco cansados. De repente, ouvimos um barulho e nos viramos. Quem vimos chegando em nossa direção não era mais Roger Moore, era James Bond: todo de branco, magnífico, bronzeado como nunca, enquanto [no voo] estava todo pálido.

O filme, reconheço, não é o melhor James Bond que já foi feito, mas há um minuto extraordinário ?isso é um pouco pessoal? que é a aterrissagem do Concorde, porque eu tive a honra de pousar o avião com James Bond atrás.

P - Quem visita o Concorde no museu de Le Bourget fica surpreso ao ver que o espaço dos passageiros é pequeno.

AB - Sim, mas isso é inevitável, porque, se você quer voar a Mach 2, não há muitas soluções. É por isso que o voo supersônico é extremamente complexo. Requer muita energia e o avião precisa ser muito aerodinâmico. Porque não dá para fazer maior, é muito difícil penetrar o ar a 2.400 km/h. Mas eu o tranquilizo, porque também voei nele como passageiro: era muito confortável, e os assentos eram muito ergonômicos, muito moldados, ficávamos muito bem sentados. Quando você andava no corredor, e eu media 1,80 m, ainda tinha margem.

P - O Concorde não voa mais. O senhor acredita que a aviação supersônica ainda tem futuro?

AN - Com certeza. O Concorde foi desativado em 2003. Anteriormente, íamos para Nova York em 3h30 e para o Rio em duas pernas de 2h20, mais 50 minutos de escala. Então era extremamente rápido. Como me disseram alguns passageiros, na história das civilizações é a primeira vez que retrocedemos. Meu neto me disse: "Vovô, você ia para Nova York em 3h30, e agora levamos 8 horas, isso não é normal, como aconteceu?". É assim mesmo. É lamentável. Mas é, como você disse, um problema econômico, é um problema político, um problema de economia de combustível etc. O combustível era caro, é um pouco um problema ecológico, mas nós tínhamos passageiros que não queriam viajar de outra forma.