SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - O contorno de mãos humanas, delineado com pigmentos na parede de uma caverna da Indonésia, é o mais antigo exemplo de arte rupestre da história da nossa espécie, com quase 70 mil anos, afirma um novo estudo. A conclusão, se estiver correta, traz novas pistas tanto sobre a origem da expressão artística quanto sobre a expansão do Homo sapiens pelo planeta.

A descoberta, feita por pesquisadores de instituições australianas e indonésias, é descrita em artigo publicado nesta quarta-feira (21) na revista científica Nature.

A datação exata da imagem -67,8 mil anos- é considerada uma idade mínima. Isso significa que ela foi obtida a partir de estruturas de carbonato de cálcio que se formaram por cima do desenho da mão ao longo do tempo e, portanto, é mais recente que a obra em si. Ou seja, a imagem encontrada na ilha de Sulawesi (também conhecida como Celebes em português) pode ser ainda mais antiga do que a idade mínima indica.

De acordo com os pesquisadores, liderados por Maxime Aubert e Adhi Agus Oktaviana, ambos da Universidade Griffith, na Austrália, o desenho é pelo menos mil anos mais antigo que outra imagem do contorno de uma mão, achada no norte da Espanha e atribuída aos neandertais (primos extintos da humanidade moderna) que viviam na península Ibérica naquela época. A datação de imagem espanhola, porém, ainda é objeto de debate entre os cientistas.

Descrito tecnicamente como um estêncil, por analogia com a forma moderna de arte que leva esse nome, o contorno das mãos humanas na caverna de Liang Metanduno traz ainda outra peculiaridade intrigante: a ponta dos dedos foi "corrigida" pelos artistas do Paleolítico (a popular "Idade da Pedra Lascada") após a produção do traço geral.

Aparentemente, eles decidiram deixar os dedos com uma aparência mais afilada, semelhante a garras de animais. Interpretar esse detalhe exige cautela, alertam os pesquisadores, mas não seria absurdo imaginar que essa característica está ligada a outro elemento muito importante da arte do Paleolítico: a conexão simbólica entre humanos e animais.

A questão é que, em outras pinturas rupestres mais recentes da Era do Gelo, figuras com traços designados como teriantrópicos (ou seja, misturando anatomia humana e animal) são relativamente comuns. Especula-se que os desenhos teriantrópicos estão associados às práticas do xamanismo, comum entre caçadores-coletores modernos, crença segundo a qual certos indivíduos transitariam entre o mundo humano, o dos animais e o dos espíritos.

Mesmo que não seja possível confirmar a ideia de que alguns dos antigos habitantes de Sulawesi realizavam esse tipo de jornada espiritual, a idade estimada para os desenhos e sua posição geográfica parecem ser pistas importantes de outra jornada, essa bem concreta: o avanço inicial do Homo sapiens pelo planeta.

Ocorre que Sulawesi está posicionada justamente na linha imaginária que divide as ilhas do Sudeste Asiático próximas do continente, com fauna e flora semelhantes às do território continental, dos territórios da atual Oceania, em especial as grandes ilhas da Austrália e da Nova Guiné.

Na Era do Gelo, com o nível dos mares muito mais baixo que o atual, esses dois territórios estavam unidos, formando um "continente perdido" que os geólogos apelidaram de Sahul. Mas era preciso atravessar um trecho significativo de mar aberto para que migrantes vindos da Ásia chegassem a Sahul.

Alguns sítios arqueológicos na Austrália contam com datações semelhantes às das pinturas rupestres de Sulawesi. A idade das imagens, portanto, poderia ajudar a confirmar tanto a chegada muito antiga dos seres humanos de anatomia moderna ao território australiano quanto a rota utilizada por eles para chegar até lá, além de demonstrar a possível antiguidade da própria arte rupestre da Austrália.

Esse último ponto é importante porque, durante muito tempo, houve a ilusão arqueológica de que as representações em cavernas tinham sido "inventadas" num período relativamente curto durante a expansão do Homo sapiens pela Europa. Falava-se até numa "Grande Explosão Criativa" há cerca de 40 mil anos, talvez associada a alguma mudança na organização cerebral dos primeiros habitantes da Europa que teria lhes conferido uma nova forma de pensamento simbólico.

No entanto, tudo indica que se tratava de um viés de amostragem, já que os estudos sobre o tema se concentravam no território europeu. Novas escavações na África, o continente-berço da humanidade, na própria Sulawesi e em outros lugares do mundo estão revelando manifestações artísticas tão ou mais antigas que as do Paleolítico da Europa.